Em maio de 1945, o mundo assistia ao colapso definitivo do 3º Reich e à emergência de uma superpotência. Uma imagem simbolizava os dois feitos: em Berlim, um soldado soviético – o sargento Meliton Kantaria, de origem georgiana – hasteava bandeira vermelha sobre o Reichstag em chamas.

A cena, fotografada há 81 anos por Yevgeny Khaldei, registra o Dia da Vitória e é um dos documentos visuais mais poderosos do século 20. Com a rendição incondicional da Alemanha nazista, a União Soviética e o Exército Vermelho alcançavam uma vitória histórica sobre a máquina de guerra mais destrutiva que a humanidade já conheceu.

O Dia da Vitória é lembrado em datas diferentes. A maior parte da Europa Ocidental o celebra em 8 de maio. Monumentos são iluminados, sinos repinicam e veteranos de guerra (cada vez mais raros) recebem homenagens em praças públicas de Paris a Varsóvia. É o Dia da Vitória na Europa, o V-E Day (Victory in Europe Day).

A milhares de quilômetros dali, a comemoração esperará mais 24 horas. Na Rússia e em diversos países da antiga União Soviética, o Dia da Vitória é 9 de maio. A divergência se deve ao horário da capitulação final da Alemanha, assinada na noite de 8 de maio de 1945, em Berlim, a capital arrasada do 3º Reich. Devido ao fuso horário, em Moscou já era madrugada de 9 de maio.

Para os russos, a celebração é a mais importante do país. Além do tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em Moscou, a programação inclui marchas civis, homenagens aos soldados mortos na “Grande Guerra Patriótica” e uso da fita de São Jorge. A memória soviética da guerra se baseia num aspecto irrefutável: o centro decisivo da guerra foi o front oriental – do Ártico à Crimeia –, onde se concentrou o principal esforço de destruição do nazismo.

27 milhões de mortos

Adolf Hitler queria destruir a União Soviética, exterminar o comunismo e submeter os povos eslavos ao projeto colonial nazista. Buscando ganhar tempo frente à perspectiva de uma guerra inevitável, a União Soviética assinou com a Alemanha, em agosto de 1939, o Pacto Molotov-Ribbentrop – um acordo de não agressão com prazo de dez anos.

Mas Josef Stalin sabia que os alemães quebrariam o pacto a qualquer momento – o que ocorreu em junho de 1941. Na maior invasão militar da história, mais de 3 milhões de soldados alemães foram mobilizados para a Operação Barbarossa. O 3º Reich previu mais uma vitória rápida, a fim de conquistar “espaço vital” e recursos, avançando pelo front oriental.

Foi o início de uma ofensiva que se estendeu por quatro anos (1941-1945) e teve um custo humano colossal. A União Soviética perdeu aproximadamente 27 milhões de pessoas entre civis e militares – 14% de sua população pré-guerra. Para cada soldado norte-americano ou britânico perdido, 20 soviéticos tombavam. Só o cerco de Leningrado produziu baixas humanas comparáveis – e possivelmente superiores – às sofridas por Estados Unidos e Inglaterra em toda a guerra.

Foram as mães, os operários e os camponeses da União Soviética que absorveram o choque principal do nazismo. Cidades inteiras foram arrasadas; regiões industriais desapareceram sob bombardeios; milhões morreram em cercos, massacres, campos de concentração e batalhas de extermínio.

Porém, em meio ao inverno russo e graças à determinação do Exército Vermelho, os soviéticos impuseram a derrota aos nazistas às portas de Moscou em janeiro de 1942. O fracasso da Operação Barbarossa pôs em xeque a superioridade da Wehrmacht, a força armada unificada da Alemanha Nazista, e assinalou o primeiro de três reveses do 3º Reich no território soviético.

A epopeia industrial soviética

Com a Barbarossa, a União Soviética perdeu suas regiões mais industrializadas, como a Ucrânia, a Bielorrússia e os territórios bálticos. Diante do colapso iminente, Moscou apostou num prodígio de engenharia industrial: desmontou mais de 1.500 fábricas inteiras, carregou-as em trens para o leste dos Urais, fora do alcance alemão, e as remontou no meio do inverno, nas estepes congeladas, em tempo recorde.

A audácia surtiu efeito: quando os dois países voltaram a se enfrentar nas maiores e mais sangrentas batalhas de todos os tempos, a produção soviética de tanques – especialmente o lendário T-34 – já superava a alemã. Em Stalingrado (1942-1943), o verdadeiro ponto de virada da guerra, o 6º Exército alemão – que tinha 300 mil homens e era tido como invencível –, foi cercado e arrasado. Nunca antes um exército de Hitler havia capitulado em massa.

Já em Kursk (1943), na maior batalha de tanques da história, a capacidade blindada da Wehrmacht foi definitivamente destruída. Quando os aliados desembarcaram na Normandia, em 1944, 80% da máquina de guerra alemã já havia sido aniquilada na União Soviética. Além disso, 75% das perdas militares alemãs na 2ª Guerra ocorreram na frente oriental, diante do Exército Vermelho.

O Dia da Vitória foi o ponto culminante do contra-ataque. Em 1945, os soviéticos tomaram Berlim rua por rua, bunker por bunker, obrigando a Alemanha a se render e silenciando o rugido dos canhões na Europa. O pesadelo de seis anos que destruiu nações, dizimou 70 milhões de vidas e expôs o pior da natureza humana chegava ao fim. Após um esforço gigantesco, a União Soviética esmagou o nazismo, salvou o mundo e redesenhou a história.

O comunismo no auge

Tamanha proeza transformou a União Soviética na principal potência moral e militar do pós-guerra. Foi um Estado socialista, dirigido por um partido comunista, que suportou o maior peso da luta contra o nazifascismo. Enquanto Londres e Washington retardavam a abertura de uma segunda frente no oeste europeu, o Exército Vermelho sustentava praticamente sozinho o choque principal da guerra terrestre contra o pior regime da história.

Stalin, antes visto com desconfiança em grande parte do Ocidente, foi reconhecido como o dirigente que comandou a derrota do nazismo. Como seu país havia pagado o maior preço, o líder soviético se sentou à mesa das conferências de Teerã e Yalta como igual ou superior a Franklin Roosevelt ou Winston Churchill. Chamado de “Pai da Vitória”, Stalin se tornou o principal rosto da vitória aliada. Revistas como a Time – que já o havia aclamado “Homem do Ano” por duas vezes durante a guerra – davam-lhe ainda mais destaque.

A vitória soviética também produziu uma mudança profunda na ordem mundial. O comunismo deixou de ser visto apenas como uma corrente revolucionária isolada e passou a aparecer, para milhões de pessoas, como uma força moderna, patriótica, industrializante e capaz de derrotar o fascismo. Era um modelo de sociedade a ser seguido.

Intelectuais e artistas em todo o mundo ocidental aderiram ao movimento comunista, que estava no auge de seu prestígio histórico. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir simpatizavam abertamente com o marxismo. Pablo Picasso se filiou ao Partido Comunista Francês. Nos anos seguintes à guerra, os partidos comunistas da França e da Itália – que lideraram a resistência contra o nazifascismo – tornaram-se forças políticas eleitorais de primeira grandeza.

Outras legendas marxista-leninistas cresceram rapidamente na Grécia e na China, bem como em diversos países da América Latina, África e Ásia. Ao mesmo tempo, o avanço do Exército Vermelho sobre o Leste Europeu abriu caminho para o surgimento do bloco socialista. Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Albânia e a própria Alemanha Oriental passaram a integrar a órbita soviética, inaugurando um novo equilíbrio global de forças.

A nova ordem mundial

A derrota do nazismo acelerou o declínio das antigas potências coloniais europeias e inspirou movimentos de libertação nacional em todo o Sul Global. Revoluções e processos anti-imperialistas passaram a enxergar na União Soviética uma referência política e estratégica. Com a ascensão socialista em escala mundial, o sonho de uma sociedade sem exploração, longe de desaparecer, alastrou-se por um terço da humanidade.

Em 1949, a República Popular da China foi proclamada por Mao Tsé-tung, após uma guerra civil em que os comunistas derrotaram os nacionalistas. O modelo soviético de revolução havia se espalhado para o país mais populoso do planeta. Em 1950, a Coreia estava em guerra, dividida exatamente na fronteira entre os dois mundos que Yalta havia desenhado. Em 1959, Fidel Castro e Che Guevara chegavam a Havana. Em 1975, o Vietnã se unificava sob bandeira vermelha.

Cada um desses eventos tinha raízes distintas e trajetórias próprias. Mas todos bebiam, de alguma forma, da fonte de legitimidade que o Dia da Vitória havia criado: a prova, escrita em sangue e fogo, de que o socialismo podia vencer.

Maio de 1945 marcou, portanto, o nascimento de uma nova era. Junto à derrota do nazismo, emergiu um mundo bipolar, ideologicamente dividido e profundamente transformado pela ascensão da União Soviética. O capitalismo ocidental já não era a única força capaz de projetar poder global. O socialismo passava a disputar os rumos da humanidade em escala planetária.

O Dia da Vitória, celebrado em 8 ou 9 de maio, permanece como memória de um feito histórico sem precedentes: a derrota do nazifascismo pelas mãos de milhões de trabalhadores, soldados e povos soviéticos que resistiram, sangraram e mudaram o destino do século 20.