O jogo virou no Supremo Tribunal Federal (STF) – e o acusador passou a ser alvo de investigação. Nesta quinta-feira (17), o ministro André Mendonça foi parar no centro da crise que assola a Corte desde o início do mês.

Reportagem do portal UOL revelou que o Instituto Iter, fundado por Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões de uma empresa que tem como dono um parceiro do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Trata-se de Lucas Kallas, proprietário da holding de mineração Cedro Participações.

O contrato previa a alocação dos recursos na estruturação e nas atividades do instituto, que reconheceu ter usado a verba para bancar seus custos iniciais. Conforme o UOL, o Iter começou a devolver os recursos em janeiro deste ano. No mês seguinte, Mendonça foi sorteado relator do caso Master no STF.

A denúncia se soma a outras revelações da semana que trouxeram para o caso os ministros Nunes Marques, Luiz Fux e Dias Toffoli, em situações distintas e com diferentes graus de proximidade com Vorcaro. Mendonça, em particular, já estava sob os holofotes desde o início da manhã, quando o ministro Gilmar Mendes, em post nas redes sociais, chamou o colega de “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral”.

A crise começou quando Mendonça, em 1º de setembro, retirou o sigilo de relatório da PF que indicava supostas conversas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Passados 16 dias, a ofensiva contra Moraes perdeu força: até aqui, não surgiram novas acusações contra o ministro.

Em contrapartida, multiplicaram-se as contestações à atuação de Mendonça como relator – inclusive com acusações de uso político e eleitoral do caso. Ao mesmo tempo, vieram a público novas informações sobre as relações de Vorcaro com outros ministros. A crise se deslocou progressivamente de Moraes para o restante da Corte.

O presidente do STF, Edson Fachin, cancelou a sessão plenária desta quinta-feira e retirou de pauta, por tempo indeterminado, o julgamento previsto para quarta-feira (23) sobre o procedimento envolvendo Mendonça. A decisão ocorreu após a questão de ordem apresentada pelo ministro Gilmar Mendes, que cobrou a ampliação das investigações em plenário. Mendes solicitou “a identificação e a certificação, nos autos, de todos os magistrados mencionados nas investigações relacionadas ao caso Master que apresentem indícios de recebimento indevido de valores do banco”.

Dos dez integrantes atuais do Supremo, metade está chamuscada pelo caso Master. Ao menos dois ministros – Dias Toffoli e Nunes Marques – já se declararam impedidos de participar do julgamento sobre Moraes e devem ficar igualmente de fora de outras votações relacionadas ao caso Master. O presidente Lula defendeu, nesta quinta, que todos os ministros sob suspeita sejam julgados em conjunto.

“Se quiser fazer justiça na votação, tem que colocar todo mundo no mesmo dia”, afirmou Lula. “Vamos saber se os telefonemas são verdade, se o Fux está envolvido, se o André Mendonça está envolvido, se o presidente do TSE (Nunes Marques) está envolvido.”

Os holofotes se voltam, agora, para Mendonça. O procedimento contra ele cita possíveis crimes de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade administrativa. Pivô da crise, o ministro bolsonarista é cada vez mais comparado ao ex-juiz Sergio Moro, declarado suspeito pelo próprio STF na Operação Lava Jato. Mendonça abriu a caixa-preta do caso Master e jogou Moraes no centro da crise. Agora, a caixa-preta se voltou sobre ele.