Imagem de divulgação do ato de lançamento da candidatura de Lula no estádio 1o. de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo

O Estádio Municipal 1º de Maio, na lendária Vila Euclides em São Bernardo do Campo (SP), tornou-se, no fim dos anos 1970 e início dos 1980, uma das grandes praças políticas da história brasileira. Foi ali que dezenas de milhares de metalúrgicos desafiaram a ditadura, enfrentaram patrões e reivindicaram salários, estabilidade, redução da jornada e liberdade sindical.

No próximo dia 16 de agosto, às 9 horas, o gramado que serviu de trincheira contra a ditadura e de berço para o novo sindicalismo brasileiro voltará a tremer sob os pés de dezenas de milhares de pessoas. É ali que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançará oficialmente sua campanha à reeleição.

Para entender o peso desse retorno, é preciso ouvir quem carregou nos ombros a história daquele chão. João Batista Lemos, histórico dirigente do PCdoB e autor de “Memórias Vermelhas”, não é apenas um espectador; ele é a própria memória viva de um país que aprendeu a lutar.

Para Batista, então metalúrgico e integrante da organização das greves, a escolha representa uma espécie de retorno às origens. “É uma sinalização de classe, do proletariado”, afirma ele, que agora atua na Secretaria Sindical do PCdoB-RJ. Segundo ele, Lula retoma “ali, sua raiz de luta”, no local onde se formou “como a grande e maior liderança operária da história do Brasil”.

A campanha adotou justamente a ideia de reencontro: “Lula: onde tudo começou”. O ato está será o primeiro grande evento popular depois da oficialização da chapa Lula-Alckmin, apoiada por sete partidos.

O gramado que forjou a consciência de classe

João Batista Lemos

Batista se lembra de 1980 não como um ano no calendário, mas como uma trincheira de 42 dias. “A greve parou na zero hora do dia 1º de abril”, recorda o ex-operário da Volkswagen e da Mercedes-Benz, que chegou a integrar o clandestino “comitê dos 15” durante a intervenção federal no sindicato. O movimento havia sido cuidadosamente estruturado por Lula para durar: fundo de greve, comissão de mobilização, organização por empresas e uma rede de solidariedade que envolvia igrejas, médicos, movimentos sociais e moradores.

Foi das multidões crescentes que surgiu a ideia de ocupar o estádio. Naquele ano, a Vila Euclides deixou de ser um campo de futebol e tornou-se uma gigantesca assembleia a céu aberto. “O Lula, quando entrava lá atrás, a peãozada pegava ele, carregava nos ombros até o palanque. E ele ia ouvindo a massa. Quando chegava para falar, dizia exatamente o que a massa queria ouvir”, narra Batista, com a emoção de quem viu homens chorarem diante da força da própria organização.

Eram 80 mil trabalhadores em assembleias rotineiras e 150 mil no 1º de Maio, enfrentando a repressão, os helicópteros da polícia e as listas sujas montadas pelas multinacionais em conluio com o Dops. O próprio Batista foi demitido na porta da fábrica, um dia antes de a greve estourar, punido por ter subido na tribuna para falar em nome da base. “Foi uma verdadeira batalha de classe, de enfrentamento dos dois lados”, resume.

Esse é o solo sagrado que Lula pisa ao iniciar a jornada de 2026. Não é nostalgia; é a reafirmação de que a raiz da liderança do maior líder popular do Brasil foi forjada na mais-valia absoluta, na linha de produção fordista e na coragem de peões que desafiaram o império automotivo e o regime militar.

A imagem de Lula sendo carregado nos ombros dos trabalhadores é poderosa porque sintetiza uma mudança histórica: um dirigente sindical falando a uma multidão que, até pouco tempo antes, era tratada pelo regime militar como força a ser controlada, e não como sujeito político.

Salário, jornada e dignidade

A pauta daqueles trabalhadores estava longe de ser abstrata. A inflação corroía os salários, enquanto jornadas que chegavam a 52 horas semanais — e frequentemente ultrapassavam esse limite com horas extras — alimentavam a insatisfação.

Batista recorda três reivindicações centrais: recuperação salarial, estabilidade no emprego e redução da jornada para 44 horas.

Era, em suas palavras, uma situação de “superexploração do trabalho”, combinando jornadas extensas com a intensificação da produção nas linhas industriais.

Mas a luta econômica rapidamente adquiriu dimensão política. O governo militar interveio no sindicato, proibiu assembleias e prendeu dirigentes, entre eles Lula. A repressão passou a fazer parte do cotidiano do movimento.

“São Bernardo virou uma praça de guerra”, recorda Batista.

A Vila Euclides, contudo, era lembrada de maneira diferente. Ali, segundo ele, predominava “o entusiasmo das massas trabalhadoras”.

Da repressão à democracia

O que estava em disputa naquele gramado não era apenas um reajuste salarial. As greves do ABC ajudaram a colocar a classe trabalhadora no centro da cena política nacional e contribuíram para o processo de redemocratização.

O estádio também testemunhou a construção de uma rede de solidariedade. Caminhões chegavam com alimentos para formar cestas básicas destinadas aos grevistas. Igrejas abriram suas portas quando as assembleias foram proibidas. Movimentos sociais e outras categorias profissionais se juntaram à mobilização.

Foi nesse ambiente que Lula se projetou nacionalmente e, pouco depois, o Partido dos Trabalhadores foi criado.

Para Batista, uma das grandes marcas daquele período foi a capacidade de trabalhadores diferentes atuarem como uma força coletiva. “Houve uma coesão dos trabalhadores”, afirma. A greve, segundo ele, conseguiu superar momentaneamente a competição existente entre os próprios trabalhadores.

É justamente essa memória que ele gostaria que as novas gerações que visitarem o estádio, no domingo, conhecessem.

A nova morfologia do trabalho e o resgate da pátria

Mais de quatro décadas separam as greves do ABC do ato do próximo dia 16. O cenário mudou, e Batista, com a agudeza de quem transita da teoria marxista ao chão de fábrica, aponta para a nova morfologia da classe trabalhadora. “Na minha época, a Volks tinha 42 mil trabalhadores. Hoje tem 9.600, e mais 13 mil terceirizados. A automação rígida deu lugar à flexível, à eletrônica, à inteligência artificial”, analisa.

Para o dirigente comunista, o grande desafio da juventude que ocupará as arquibancadas da Vila Euclides é superar a fragmentação imposta pelo neoliberalismo e reencontrar a “classe para si”. “O fascismo utiliza essa miséria da fragmentação para buscar saídas pela direita”, alerta. E é exatamente por isso que o ato de 16 de agosto carrega um simbolismo visual e político inadiável: o resgate da bandeira do Brasil.

Para ele, a classe trabalhadora não desapareceu, mas mudou de composição — e precisa voltar a se reconhecer enquanto classe. Nesse sentido, a Vila Euclides pode funcionar não apenas como memorial, mas como ponte entre gerações.

“Nós temos que ter, dia 16, muita bandeira do Brasil nesse ato. Para mostrar que os trabalhadores são patriotas. Quem defende o Brasil somos nós, não essa elite de bandidos que sequestrou o verde e amarelo”, convoca Batista. O estádio que um dia ostentou o nome do general ditador Costa e Silva antes de ser rebatizado pelo suor operário como “1º de Maio” será, mais uma vez, o palco para dizer a quem pertence a nação.

Um novo capítulo de soberania nacional

O que começa na Vila Euclides em 2026 não é apenas uma campanha eleitoral; é o anúncio de um projeto de país. Para Batista Lemos, o retorno ao ABC é uma “sinalização de classe” de Lula, um reconhecimento de suas raízes para enfrentar os desafios do presente. “O novo capítulo deve ser o da reindustrialização do país em novas bases, acompanhando a revolução técnico-científica, mas tocada pelos trabalhadores, com valorização do trabalho e soberania nacional”, projeta.

Em 1980, a multidão perguntava se era possível enfrentar patrões e um regime autoritário. Em 2026, a pergunta é outra: que projeto de país pode responder à reindustrialização, à tecnologia, à desigualdade e à disputa pela soberania?

Quando Lula subir ao palanque no Estádio 1º de Maio, ladeado por sete partidos e por uma multidão que mescla a geração que enfrentou os porões da ditadura e a juventude da era da inteligência artificial, o eco de 1980 se fará ouvir. A história não termina onde começou; ela se reinventa. E no gramado da Vila Euclides, a classe trabalhadora brasileira estará, mais uma vez, pronta para escrever o futuro.

No velho campo de futebol, a resposta ainda será dada em forma de assembleia.

por cezar xavier