A histórica visita do papa João Paulo II a Cuba, entre 21 e 25 de janeiro de 1998

A história da religião em Cuba não cabe na fórmula fácil de uma Revolução ateia que simplesmente combateu a fé. Tampouco na narrativa inversa de uma Igreja que teria permanecido, desde o primeiro dia, como vítima passiva do novo poder. A relação foi mais contraditória — e justamente por isso mais interessante.

Houve confronto, desconfiança, exclusão e instrumentalização política. Houve também acomodação, autocrítica, diálogo e, finalmente, uma redefinição institucional. Entre uma coisa e outra, permaneceu algo que nenhum decreto conseguiu abolir: a religiosidade da sociedade cubana.

É essa tensão — entre Estado e sociedade, ideologia e cultura, marxismo e fé — que ajuda a compreender a trajetória cubana.

Antes de 1959, religião também era estrutura social

Quando triunfou a Revolução, a Igreja Católica não era apenas uma comunidade espiritual. Tinha escolas, patrimônio, influência social e vínculos históricos com setores das classes dominantes. Numa longa entrevista concedida a Frei Betto, em 1985, que se tornou o bestseller Fidel e a Religião, o líder cubano recordou que grande parte das instituições educacionais privadas de maior prestígio era católica.

Isso é importante para compreender o conflito posterior.

A Revolução não encontrou simplesmente indivíduos que acreditavam em Deus. Encontrou instituições religiosas inseridas numa determinada estrutura de classes e num Estado que pretendia transformar radicalmente as relações sociais.

Fidel sustentou, retrospectivamente, que os primeiros conflitos não decorreram de uma rejeição abstrata ao catolicismo, mas da identificação de setores da hierarquia e das classes privilegiadas com a oposição à Revolução. Segundo sua interpretação, parte significativa do clero era estrangeira e vinculada a posições conservadoras.

Havia, portanto, uma contradição fundamental: a religião era simultaneamente uma experiência espiritual popular e uma instituição social ligada, em parte, às estruturas que a Revolução pretendia superar.

A Revolução e a fabricação do “homem novo”

A transformação socialista alterou profundamente essa relação.

A declaração do caráter socialista da Revolução, em 1961, e a posterior consolidação do Partido Comunista de Cuba produziram uma cultura política na qual o marxismo-leninismo passou a ocupar lugar central na formação ideológica do Estado e do partido.

Nesse contexto, o ateísmo adquiriu inicialmente uma dimensão institucional. O problema não era apenas acreditar ou não em Deus: era saber se uma convicção religiosa poderia coexistir com a identidade política revolucionária.

O próprio Fidel reconheceu, décadas depois, a dimensão conjuntural daquela política. Segundo seu depoimento, a direção revolucionária buscava preservar a unidade diante de um poderoso adversário externo e temia que a religião fosse utilizada como instrumento contra a Revolução. Ele assumiu responsabilidade pessoal pelo rigor daquele período e afirmou que aquela experiência não deveria servir de modelo para outros processos revolucionários.

Aqui aparece uma das contradições centrais da experiência cubana: um processo que pretendia emancipar o indivíduo acabou, em determinados momentos, tratando a convicção religiosa como problema de identidade política.

A história posterior seria, em parte, a revisão dessa contradição.

A fé que o Estado não conseguiu eliminar

Enquanto as instituições religiosas enfrentavam dificuldades, a religiosidade popular continuava existindo.

Cuba tinha — e tem — uma tradição espiritual muito mais complexa que a simples oposição entre catolicismo e ateísmo. O catolicismo popular conviveu historicamente com crenças de origem africana, devoções aos santos, espiritismo e formas sincréticas de religiosidade.

A devoção à Virgem da Caridade do Cobre é um exemplo particularmente expressivo. São Lázaro também ocupa lugar importante no imaginário religioso cubano. Fidel reconhecia, na própria entrevista, a existência dessa religiosidade difusa e a influência das tradições africanas, que se combinaram historicamente com o catolicismo.

É aí que a sociologia ajuda a enxergar aquilo que a política frequentemente não consegue.

Uma religião pode perder instituições, propriedades e influência oficial sem desaparecer da cultura.

A fé não é apenas uma organização. É também memória familiar, ritual, festa, promessa, música, símbolo, nascimento, morte e maneira de interpretar o sofrimento.

O Estado pode nacionalizar uma escola. Não pode nacionalizar facilmente uma avó ensinando ao neto uma oração.

Da exclusão à laicidade

A mudança começou a ganhar forma quando a própria Revolução passou a rever sua relação com a religião.

Fidel presenteia o papa Francisco com um exemplar da edição cubana de “Fidel e a Religião”. Ao fundo, Dalia Soto del Valle, esposa de Fidel (Havana, setembro de 2015). Foto: Alex Castro

No documentário “Vai pra Cuba, Eduardo”, disponível na plataforma do ICL (Instituto Conhecimento Liberta), há um depoimento do Frei Betto, em que ele resume os termos da conversa com Fidel:

— Comandante, eu tenho duas perguntas a lhe fazer. Primeiro, por que o Partido e o Estado Cubano são confessionais?
— Como confessionais? Somos ateus.
— Isso é confessionalidade, comandante. Nós estamos em plena modernidade que exige partidos e estados laicos. Afirmar ou negar a existência de Deus é mera confessionalidade.
— Você tem razão, eu nunca tinha encarado a questão por essa ótica.

O 4º Congresso do Partido Comunista de Cuba, em 1991, retirou o caráter ateu da organização e permitiu a participação de pessoas com convicções religiosas. A reforma constitucional de 1992 consolidou a transformação de Cuba de Estado ateu em Estado laico.

Não se tratou apenas de uma mudança jurídica. Foi uma mudança de concepção.

O Partido deixou de exigir uma identidade filosófica ateia como condição de pertencimento, enquanto o Estado passou a assumir uma posição de neutralidade religiosa.

Essa distinção é fundamental: Estado laico não é Estado antirreligioso.

A Revolução passou, assim, de uma tentativa de restringir a influência institucional da religião para uma concepção segundo a qual a crença poderia coexistir com a cidadania e até com a militância comunista.

Fidel sintetizou essa mudança ao reconhecer, em sua conversa com Frei Betto, que a experiência cubana havia sido determinada por circunstâncias históricas específicas e que não deveria ser tomada como modelo universal.

Quando a religião deixou de ser apenas um problema

A aproximação posterior entre Estado e igrejas deve ser compreendida nesse processo mais amplo de acomodação.

O diálogo com a Igreja Católica foi retomado gradualmente e alcançou um momento simbólico extraordinário com a visita de João Paulo 2º, em 1998. Depois vieram Bento 16, em 2012, e Francisco, em 2015. A sequência de visitas papais tornou visível uma transformação que já vinha ocorrendo institucionalmente.

A Igreja passou de uma posição marcada pelo conflito para uma condição de interlocutora social.

E aqui surge outra dimensão sociológica importante: a religião não desapareceu com a secularização revolucionária; ela mudou de lugar na sociedade.

De adversária potencial, passou progressivamente a ser também mediadora, interlocutora e espaço de organização comunitária.

Essa função ganhou relevância inclusive em questões humanitárias e políticas, como negociações envolvendo presos, nas quais representantes religiosos puderam desempenhar papéis de interlocução. O próprio relato de Fidel registra negociações com representantes da Igreja dos Estados Unidos e a análise de casos de presos que poderiam ser libertados e enviados ao exterior.

O paradoxo cubano

A experiência cubana contém, portanto, um paradoxo histórico.

A Revolução nasceu de uma concepção materialista da história, construiu um Estado socialista e, durante décadas, manteve uma política de forte desconfiança diante das instituições religiosas.

Mas o mesmo processo acabou reconhecendo que a sociedade não poderia ser reduzida à sua ideologia oficial.

A transformação não significou o abandono do marxismo nem a conversão religiosa do Estado. Significou uma espécie de secularização da própria Revolução: o socialismo deixou de precisar que seus cidadãos fossem necessariamente ateus.

Essa distinção ajuda a escapar tanto da propaganda anticomunista — que apresenta toda a história como perseguição religiosa — quanto da narrativa apologética que apagaria os conflitos reais.

Houve discriminação. Houve tensões. Houve erros reconhecidos posteriormente pela própria liderança revolucionária. E houve uma capacidade de revisão institucional que levou Cuba a uma concepção laica do Estado.

A religião como espelho da sociedade

Talvez seja esse o aspecto mais interessante dessa história no centenário de Fidel.

A relação entre Revolução e religião revela, em escala concentrada, uma questão maior do século XX: até onde uma transformação política pode interferir na cultura sem entrar em choque com aquilo que as pessoas carregam dentro de casa?

Cuba tentou responder a essa pergunta primeiro pela ruptura, depois pelo controle, mais tarde pelo diálogo e, finalmente, pela convivência institucional.

A trajetória não foi linear. Como quase tudo na história, avançou aos solavancos, sob a pressão de acontecimentos internos e externos.

E talvez seja justamente por isso que a experiência cubana seja tão instrutiva. Ela mostra que o marxismo pode entrar em conflito com a religião, mas também pode dialogar com ela; que uma Igreja pode ser instituição de poder e, ao mesmo tempo, comunidade dos pobres; que a fé pode ser conservadora, mas também pode assumir uma linguagem de justiça social; e que o Estado pode ser socialista sem precisar ser ateu.

No fim, a velha questão não era simplesmente Deus ou Revolução. Era saber se uma revolução que pretendia transformar a sociedade conseguiria aprender a conviver com aquilo que a sociedade continuava acreditando.

Cuba, depois de décadas de conflito, respondeu que sim. E essa resposta — imperfeita, contraditória e historicamente construída — talvez seja um dos capítulos menos conhecidos da Revolução Cubana.

por cezar xavier