Ato esvaziado mostra dificuldades da chapa “puro-sangue” de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL) não consegue seduzir nem mesmo os apoiadores mais apaixonados da extrema direita. Em ato de largada de sua campanha, neste domingo (16), em Copacabana (RJ), o senador não reuniu nem dez mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap.
Para se ter uma ideia, em 7 de setembro de 2022, seu pai, Jair Bolsonaro, teria colocado 64,6 mil pessoas na mesma praia. Já em 16 de março do ano passado, foi realizado o menor dos atos do ex-presidente no local, com 18,3 mil participantes — ambos os dados foram levantados pela mesma ferramenta de medição da USP/Cebrap.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), somente a cidade do Rio de Janeiro tenha pouco mais do que 4,9 milhões de pessoas aptas a votar neste ano. E, segundo pesquisa Quaest do final de julho, Flávio tem 32% das intenções de voto em primeiro turno. Considerando esses dados, os presentes ao ato não chegam nem a 1% daqueles que declaram sua preferência pelo senador. Obviamente, esses percentuais não representam necessariamente os eleitores mais aguerridos e militantes, mas dão uma dimensão das dificuldades do candidato.
Conforme noticiou O Globo, o esvaziamento suscitou, junto à cúpula do PL, algumas explicações do que poderia ter afetado o ato, que vão desde a falta de lideranças de peso até o espaço demasiado grande reservado para o público e, até mesmo, um suposto pouco tempo de mobilização.
À parte essas questões — que podem fazer sentido e ter o seu peso —, também não dá para desconsiderar que o desempenho aquém do esperado pode sinalizar outros aspectos mais complicados e que, claro, não seriam objeto de crítica aberta por parte dos dirigentes partidários numa disputa desse nível, sobretudo num momento de arrancada das campanhas.
Um deles é que, talvez pelo seu perfil menos inflamado, Flávio tem dificuldade de arregimentar presencialmente o público raivoso que seu pai conseguia atrair com discursos nos quais vociferava mentiras, bravatas e ódio para todos os lados.
Além disso, pode ter relação com o fato de que muitos dos eleitores que herdou de seu pai não são necessariamente pró-Flávio e sim anti-PT — e essas pessoas muitas vezes são ativas nas redes, mas recuadas nas ruas.
Outro sinal está no fato de que, rodeado de problemas ligados à corrupção e aos ataques do clã Bolsonaro à soberania nacional (que resultou no rechaço de boa parte da população) Flávio acabou se tornando radioativo, especialmente para os setores políticos sanguessugas, que vivem do apoio a quem estiver no poder e que costumam ter capacidade para colocar gente nas ruas.
É o caso de boa parte da direita, especialmente a conhecida como Centrão. A chapa presidencial de Flávio, que conta apenas com o próprio partido, é “puro-sangue” não por ter força suficiente para ganhar sozinho, mas porque não conseguiu atrair esses aliados.
Declaração dada na semana passada por Gilberto Kassab, presidente do PSD e vice de Ronaldo Caiado, do mesmo partido, traduz bem o pensamento desse grupo político, para o qual a eleição deverá ser vencida por Lula. O ato de Copacabana, portanto, pode ser um indicativo mais claro desse movimento de debandada.



