Trump flexibiliza acesso a armas e ajuda grupos criminosos que ele diz combater
Embora tente se mostrar comprometido com o combate ao crime organizado, o governo de Donald Trump tem investido em medidas que flexibilizam o acesso às armas de fogo, o que ajuda diretamente a criminalidade, inclusive para muito além do seu território. No Brasil, a maioria das armas legais e ilegais são oriundas dos Estados Unidos, maior fabricante do mundo.
Recentemente, o governo Trump anunciou 34 novas regras para a venda desses artefatos. Trata-se do maior volume de normas emitido pela Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) em 15 anos.
Entre as regras estão a permissão para a compra de armas pelos correios; redução de tempo para vendedores manterem os registros das vendas; fim de iniciativas para retirar o direito de posse de armas de pessoas com condenações não violentas, incluindo casos relacionados a drogas, e maior frouxidão na análise dos antecedentes dos compradores.
As medidas revisam atos tomados durante a gestão de Joe Biden e que seriam, na avaliação de Trump, considerados incompatíveis com a 2ª Emenda da Constituição estadunidense, que garante o direito de a população portar armas.
Apesar de parecer um assunto meramente interno, o fato é que a medida acaba contribuindo para o aumento do contrabando de armas e peças para grupos criminosos de outros países, inclusive o Brasil.
Os Estados Unidos são o maior produtor de armas nas três categorias existentes: as pequenas (como pistolas, revólveres e submetralhadoras), as leves (que são um pouco mais desenvolvidas, como lança-granadas, metralhadoras de calibre mais alto, entre outras) e as de grande porte (aviões-caça, aviões-bombardeiros, tanques de guerra, mísseis etc.).
“Uma maior flexibilização do mercado, principalmente de armas leves e pequenas, tem total impacto no mercado global de armas contrabandeadas e traficadas”, explica Thiago Rodrigues, cientista político e professor no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Ele salienta que os EUA já são a principal origem das armas traficadas. “A facilidade de venda já é muito grande. Uma flexibilização ainda maior significa praticamente uma liberação da venda de armas e uma dificuldade de rastrear a arma da sua produção até a sua venda”, afirma.
Nesse sentido, salienta a diferença entre o mercado de armas e o de cocaína, por exemplo. “Esta droga é ilegal desde a sua origem: a produção de cocaína é ilícita, assim como a sua comercialização e o seu consumo. No caso das armas, não”.
Na prática, argumenta, “o que os Estados Unidos propõem é justamente uma forma de dificultar esse controle, que seria fácil uma vez que sua produção é seriada e as empresas são legais”.
Além da entrada via fronteiras, muitas armas compradas legalmente naquele país são despachadas para cá escondidas em mercadorias comuns. Em 2025, por exemplo, 30 fuzis desmontados foram localizados pela Receita Federal em diferentes tipos de produtos que chegaram ao Brasil.
De acordo com estudo publicado no Journal of Illicit Economies and Development, do Reino Unido, de um total de 1,7 mil fuzis ilegais apreendidos no Sudeste entre 2019 e 2023, 54% tinham origem nos Estados Unidos.
Entre 2019 e 2024, os EUA responderam por 43% das exportações globais de armas, crescimento de oito pontos percentuais ante o período anterior, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. De acordo com a associação que representa os fabricantes de armas, anualmente o setor movimenta mais de US$ 90 bilhões, contabilizando armas, munições e equipamentos.
Paradoxo latente
As medidas tomadas pelos EUA vêm ao mesmo tempo em que Trump ataca países da América Latina com a desculpa de combater o crime organizado. Uma das suas mais recentes cartadas, baseadas nesse discurso falacioso, foi a classificação de grupos criminosos brasileiros como terroristas.
“Há um enorme paradoxo entre o discurso de combate ao crime organizado e a flexibilização do mercado de armas, mostrando que a preocupação real dos Estados Unidos não é o combate ao crime organizado”, argumenta o professor.
Ele acrescenta que o enfrentamento a esses grupos faz parte de um discurso geopolítico apoiado dentro de países da América Latina e nos Estados Unidos “porque parte significativa da população acredita no discurso de repressão militarizada. Mas, esse tipo de repressão, na verdade, gera um grande negócio de venda de armas”.
Isso porque esse tipo de mercado tem outra diferença em relação aos demais. “Ele abastece os dois lados da guerra: as forças de segurança e os grupos do crime organizado. Então, quanto mais guerra houver, obviamente mais interessa ao mercado de armas. E é isso que os Estados Unidos estão fazendo: criando mais incentivos à guerra contra o narcoterrorismo — ou seja, criando mais oportunidades de investimento em guerra — e, ao mesmo tempo, flexibilizando mais seu acesso dentro do país”.
Dessa forma, conclui, “de um lado, os EUA armam os países para supostamente combater o crime organizado; de outro, facilitam para que o dito crime organizado também se arme, fazendo com que essa guerra não acabe nunca”.

