Uma frase imortal de Hamlet ecoa como um presságio sobre os destinos de nações e líderes. “Estar pronto é tudo!”, diz o herói trágico de William Shakespeare, momentos antes do duelo final contra Laertes. Na peça clássica de 1603, o combate de espadas custará a própria vida do príncipe da Dinamarca.

Mas sua máxima – que, na peça, remete à providência divina e ao momento de agir – acabou adquirindo um significado que atravessa séculos: a história não premia os despreparados. Na política, como na tragédia, não basta desejar o poder nem ser escolhido para exercê-lo. O destino das nações depende, em larga medida, da capacidade dos governantes de compreender a realidade, interpretar suas contradições e adaptar-se. “Estar pronto é tudo!”

No Brasil, o projeto presidencial da extrema direita, liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), insiste em marchar no sentido oposto. O diagnóstico não partiu de um adversário de Flávio, mas do presidente nacional de seu partido, Valdemar Costa Neto. Nesta terça-feira (21), em entrevista à CNN Brasil, o dirigente deixou escapar a incômoda verdade sobre o presidenciável do PL.

“O Flávio não estava preparado para ser candidato”, admitiu Valdemar, conhecido pelo histórico de sincericídios. “Ele foi escolhido pelo (ex-presidente Jair) Bolsonaro – e ele não tinha feito uma estrutura e um trabalho antes para ser candidato à Presidência da República”, acrescentou, sem cerimônia.

A declaração revela a natureza artificial e de ocasião da campanha do bolsonarismo. Num cenário global e nacional desafiador, governar um país com a dimensão do Brasil exige formulação, visão de desenvolvimento e capacidade de articulação. Porém, o próprio presidente do PL confirma o que boa parte da opinião pública já apontava: a extrema direita tenta empurrar ao país uma candidatura improvisada, sem estrutura programática prévia e sem o menor preparo técnico ou político para dar rumos à nação.

Preso e inelegível, Jair Bolsonaro indicou o filho 01 à cabeça do projeto presidencial em dezembro de 2025. Da escolha do candidato à confissão do comandante do PL, passaram-se sete meses. “Agora é que nós estamos conseguindo andar nesse assunto”, resignou-se Valdemar. O atraso vem à tona num momento em que Flávio enfrenta elevada rejeição eleitoral. Conforme a última pesquisa Quaest, 57% do eleitorado afirma que não votaria nele.

A confissão de Valdemar

É raro que o presidente nacional de um partido reconheça ao vivo a fragilidade do projeto que ele mesmo tenta viabilizar. Valdemar desmonta a narrativa de que a candidatura bolsonarista é fruto de uma liderança naturalmente consolidada. Seu depoimento não deixa mais dúvida: ela nasceu exclusivamente da vontade do ex-presidente.

O cacique lamenta que o PL corre atrás do tempo perdido para montar alianças, definir estratégias e dar sustentação à campanha. Mas uma eleição presidencial não é estágio de aprendizagem. O Brasil enfrenta desafios complexos, como crescimento econômico, reindustrialização, redução das desigualdades, fortalecimento da democracia, transição energética, desenvolvimento científico, inserção soberana e avanço nos direitos dos trabalhadores.

Ao não citar a trajetória, as propostas ou os compromissos de Flávio Bolsonaro, Valdemar involuntariamente comprova os limites da candidatura. Longe de representar um projeto construído com debate social ou propostas concretas para as necessidades do povo brasileiro, Flávio surge tão somente como uma imposição dinástica, decorrente do arbítrio do clã Bolsonaro. Mesmo em episódios recentes de desgaste político, como o caso BolsoMaster, a condução de Flávio reforçou dúvidas sobre sua capacidade de liderança.

Essa insuficiência também aparece na formulação política. Em vez de apresentar propostas estruturadas para os desafios nacionais, sua pré-campanha tem sido marcada por declarações de forte apelo ideológico e baixo conteúdo programático. Sua pré-campanha é marcada por críticas genéricas ao governo Lula e pela defesa de uma agenda liberal que ignora as complexidades sociais do Brasil. Um exemplo recente e grave foi sua tentativa de desqualificar a Lei Maria da Penha, chamando-a de “pedaço de papel”.

O quadro de improviso não para no discurso. A chapa da extrema direita segue sem vice definido, e Valdemar informou que se reuniria ainda naquela tarde com Flávio e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, para tentar resolver a questão. Tentativa de conserto que, a crer nas reportagens do dia seguinte, não convenceu nem os aliados. Marinho tentou amenizar a fala de Valdemar, alegando que ela teria sido tirada de contexto – o clássico gesto de quem sabe que o estrago já foi feito. Além disso, enquanto Valdemar tentava minimizar o ruído, Marinho afirmou que o pré-candidato “se preparou” nos últimos meses, num esforço vão de maquiar a realidade.

Some-se a isso a novela paralela envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio, hoje afastada da campanha após expor publicamente seus desentendimentos com o senador. O retrato está completo: um projeto de poder sem coesão interna, sem programa consolidado, sem alianças consistentes e sem sequer um vice. A esta altura, o PL negocia coligação com siglas como PP, União Brasil, Republicanos e Podemos em torno da necessidade de evitar o colapso de uma candidatura anunciada como prioridade, mas tratada, na prática, como remendo.

O Brasil sob ameaça

É aqui que Hamlet volta a fazer sentido. O príncipe dinamarquês compreendia que a hesitação e a falta de preparo custam caro – no seu caso, a própria vida. Já numa eleição presidencial – na tragédia nacional que se desenha –, quem paga a conta não é apenas o protagonista da história. É todo um país.

Diferentemente do herói de Shakespeare – que ao menos reconhecia sua provação e buscava, a duras penas, agir com lucidez diante do destino –, o bolsonarismo optou pelo caminho inverso: lançar um nome despreparado e tentar, às pressas, fabricar estrutura depois do fato consumado.

O descompasso da oposição revela um projeto falido antes mesmo de começar. Governar exige exatamente o que, pela boca de seu padrinho político, falta a Flávio Bolsonaro. Se Hamlet ensinou que estar pronto é tudo, o PL nos mostra, com todas as letras, o que acontece quando não se está.