Capa: “A cada nova tecnologia disruptiva, vemos as noções de tempo e espaço, como também outros aspectos essenciais da experiência humana, sendo completamente reestruturados” IIlustração criada por IA

A nova edição da revista Princípios (nº 174, set./dez. 2025) chega ao público em momento estratégico: quando o entusiasmo com os avanços da inteligência artificial (IA) muitas vezes ofusca uma análise mais profunda sobre seus fundamentos sociais e econômicos. Sob o título “Uma visão crítica sobre o ‘admirável mundo novo’ da inteligência artificial”, o editorial já anuncia o tom da publicação: desmistificar a ideia de que a tecnologia é neutra ou autogeradora, revelando as relações de exploração que a sustentam.

A edição marca a segunda parte do dossiê “Inteligência artificial e novas tecnologias disruptivas: um olhar crítico”, consolidando a revista como espaço privilegiado de debate sobre os dilemas do progresso tecnológico a partir do materialismo histórico.

Tecnologia não cai do céu

Um dos méritos centrais desse número é recusar a narrativa fetichista que apresenta algoritmos, chatbots e plataformas como frutos de “gênios” isolados. Como alerta o editorial, “por trás da feitiçaria há um mundo de exploração e devastação no mais das vezes esquecido”. O motorista de aplicativo na décima hora de trabalho, os minérios extraídos no Sul Global para compor redes de alta velocidade, a arquitetura algorítmica que incorpora visões de mundo específicas: tudo isso compõe a materialidade da tecnologia.

Os artigos do dossiê avaliam como as novas tecnologias repercutem sobre aspectos “superestruturais” das dinâmicas humanas: comunicação, educação, lazer, segurança, saúde e modos de vida. Mais do que diagnosticar impactos, a proposta é decifrar contradições para contribuir com um projeto nacional de desenvolvimento que contemple inovação e sustentabilidade sem abrir mão da justiça social.

Cooperação Sul-Sul em pauta

A edição reforça o compromisso com a cooperação internacional entre nações do Sul Global. Destaque para o ensaio de Lang Ping, pesquisador associado ao Instituto de Economia e Políticas Mundiais da Academia Chinesa de Ciências Sociais. O texto é fruto do acordo de cooperação recém-assinado entre Princípios e a revista chinesa Mundo Contemporâneo, ampliando o diálogo crítico para além das fronteiras ocidentais.

Essa abertura internacional não é acessória: em um cenário de disputa geopolítica pela governança da IA, a perspectiva do Sul Global oferece alternativas ao tecnicismo hegemônico, defendendo uma ciência humanista, compromissada com a paz e o progresso humano.

Raça, gênero e classe na era digital

Para além do dossiê principal, a revista articula temas urgentes da agenda progressista. Um artigo analisa as potencialidades e desafios do novo ciberfeminismo, que propõe um ativismo de gênero centrado no letramento digital e na produção tecnológica por mulheres e minorias sociais.

Na temática antirracista, a edição celebra os cem anos de Clóvis Moura com uma reflexão atualizada sobre os conceitos de “quilombagem” e “barragens de peneiramento”, ferramentas analíticas potentes para compreender os dispositivos de exclusão racial que estruturam o Estado brasileiro. A resenha da edição comenta ainda O Pacto da Branquitude, de Maria Aparecida Bento, obra fundamental para pensar as dinâmicas do racismo institucional.

Internacionalismo e serviço público

A revista mantém seu olhar atento às disputas globais. Um artigo examina, à luz dos documentos do Foro de São Paulo, a visão econômica e a orientação programática dessa entidade que reúne partidos e organizações de esquerda da América Latina e Caribe. Outro trabalho debruça-se sobre a Revolução Chinesa a partir do conceito de “acontecimento” em Alain Badiou, analisando como estruturas arcaicas e penetração capitalista moldaram o processo revolucionário.

No plano nacional, um artigo investiga os efeitos da ofensiva do capital sobre o trabalho no serviço público, focando na saúde mental de assistentes sociais que atuam em Centros de Atenção Psicossocial (Caps). A análise conecta precarização, pressão por produtividade e desgaste psíquico, evidenciando como a lógica mercantil penetra mesmo em políticas de cuidado.

Por que ler esta edição?

Princípios #174 é leitura obrigatória para quem busca compreender as transformações tecnológicas contemporâneas sem se render ao determinismo ou ao otimismo ingênuo. Ao articular crítica marxista, perspectivas decoloniais e compromisso com um projeto nacional de desenvolvimento, a revista oferece ferramentas conceituais para pensar a tecnologia como campo de disputa política.

Em tempos de fascinação pelo “novo”, a edição reafirma uma tese essencial: a verdadeira inovação não está apenas no que a máquina pode fazer, mas no tipo de sociedade que escolhemos construir com ela. Como sintetiza a Comissão Editorial, trata-se de defender “uma ciência humanista, compromissada com a paz e o progresso do ser humano, vinculada à causa de uma sociedade mais justa e próspera”.

cezar xavier