Pesquisa revela cela em que militares montaram farsa sobre morte de Herzog
A cela em que o jornalista Vladmir Herzog foi fotografo morto em outubro de 1975, após ser brutalmente torturado, foi identificada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O resultado foi divulgado nesta semana, quando o golpe completa 62 anos.
O caso Herzog é um dos mais emblemáticos da covardia, crueldade e desfaçatez do regime. O local foi palco da infame encenação que os militares armaram para tentar fazer crer que Herzog se suicidara, hipótese rechaçada por familiares, militantes políticos e lideranças religiosas desde que sua morte foi confirmada.
A cela identificada fica na antiga sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), na Rua Tutóia, 921, em São Paulo. Hoje, o edifício fica nos fundos da 36ª Delegacia da capital.
Na avaliação de Rogério Sotilli, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, “essa descoberta é um ganho para a sociedade porque nos traz uma verdade histórica, documentada e preservada. Cada nova evidência contribui para consolidar a memória coletiva, que é um direito nosso, sobre os crimes da ditadura. E reafirma a importância da justiça, da memória e da não repetição”.
Para Deborah Neves, doutora em História, pós-doutoranda na Unifesp e uma das responsáveis pela pesquisa, “localizar materialmente o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite demonstrar, com base em evidências científicas, a materialidade de fraudes cometidas por agentes do Estado”.
Ela completa dizendo que a descoberta é uma forma de “reconhecer o lugar onde se construíram mentiras oficiais que marcaram a história brasileira e que só agora, 50 anos depois, foi possível revelar, graças à preservação garantida pelo tombamento e às pesquisas históricas, arqueológicas e arquitetônicas no espaço, feitas por universidades públicas”.
Além de Deborah, a pesquisa contou ainda com trabalhos de arqueologia forense, coordenados por Cláudia Plens, arqueóloga, professora de Arqueologia Histórica da Unifesp, e de arquitetura, conduzidos e executados pelo arquiteto Alessandro Sbampato, pesquisador da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência (Rebrapesc).
A análise
Para chegar à conclusão sobre o local, foi feita uma análise cruzada de documentos periciais da época, fotografias históricas, plantas arquitetônicas do edifício e evidências físicas preservadas na estrutura do prédio, incluindo elementos construtivos compatíveis com o ponto de fixação do ferrolho visível em imagens de 1975, ainda identificáveis na alvenaria da cela prospectada.
A comparação entre paginação e padrão gráfico dos tacos da cela – registrada nas fotos históricas – e paginação e padrão gráfico ainda existente, encontrada na primeira fase de prospecções arqueológicas, contribuiu para a identificação da cela. A correspondência entre esses elementos permitiu reconstituir espacialmente o ambiente e confirmar o local onde a cena foi montada por agentes do regime.
Além de cumprir papel fundamental no resgate histórico de um dos momentos mais sombrios da história brasileira e sobre o qual há ainda uma série de perguntas não respondidas, a pesquisa também integra o projeto de reconstrução do Memorial Virtual do DOI-Codi, que busca documentar e tornar acessíveis as evidências históricas relacionadas ao período ditatorial.




