Servidores em greve e paralisação estudantil na USP reage em defesa de isonomia e direitos

As universidades estaduais de São Paulo vivem um momento de intensa mobilização. Greves na Universidade de São Paulo (USP) e mobilizações na Universidade Estadual Paulista (Unesp) denunciam o sucateamento estrutural promovido pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A paralisação, que ganhou força após a morte da professora Sandra Regina Campos durante uma aula noturna no Instituto de Artes da Unesp, expõe a fragilidade de um sistema público que opera sem condições mínimas de segurança, infraestrutura e valorização profissional. O governo também é alvo de escrutínio ao dizer que não há verba, enquanto pratica renúncia fiscal bilionária em favor de empresários.

Na tarde desta quinta (23), os servidores da USP decidiram aceitar uma proposta da reitoria, mas condicionaram o fim da greve a um acordo escrito incluindo as demandas dos estudantes, que permanecem paralisados em, ao menos, 105 cursos.

Tragédia evitável escancara ausência do Estado

Na noite de 7 de abril, a professora Sandra Regina Campos, de 66 anos, sofreu um mal súbito durante atividade acadêmica no campus da Unesp na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo. Socorrida apenas por estudantes, ela não resistiu. O Instituto de Artes não contava com serviço de emergência médica, bombeiros ou equipe técnica de saúde no local, embora haja legislação nesse sentido.

Kayki Lins da UEE-SP

“Isso indignou bastante a comunidade e expôs a fragilidade da universidade”, relatou Kayki Lins, diretor do DCE da Unesp e da União Estadual de Estudantes de SP, em entrevista. Para os movimentos estudantis, a morte não foi um acidente isolado, mas consequência direta da política de austeridade que precariza os espaços públicos de ensino. O DCE e as entidades estudantis se preparam para uma greve na Unesp nos próximos dias.

Financiamento defasado: a raiz do colapso

Na avaliação de Bianca Borges, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), em declaração à reportagem, as greves são sintomas de um colapso anunciado: o modelo de financiamento das universidades estaduais paulistas, congelado desde os anos 1990, não acompanhou a expansão das instituições nem o crescimento de suas comunidades universitárias. Ela aponta o governo Tarcísio como responsável direto pelo sucateamento do ensino superior público no estado.

“Essa insatisfação nas universidades é fruto de uma política do governo Tarcísio de Freitas, uma política de financiamento que já não comporta as demandas das universidades estaduais paulistas”, afirma Bianca Borges. USP, Unesp e Unicamp são financiadas pela mesma alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) desde a década de 1990. Desde então, as instituições ampliaram significativamente o número de campi, cursos, estudantes e servidores — sem que o repasse financeiro acompanhasse essa expansão.

O resultado é um déficit estrutural que se traduz em falta de professores concursados, carreiras técnicas desvalorizadas, infraestrutura precária e políticas de permanência estudantil insuficientes. “Existem questões de financiamento a essas universidades que demandam ser ampliadas, porque da maneira como está hoje, não respondem aos desafios que essas universidades têm”, destaca a dirigente estudantil.

Reivindicações centrais: contratações, permanência e estrutura

As pautas unificadas entre USP e Unesp apontam para problemas crônicos:

  • Falta de servidores e docentes: No Instituto de Artes da Unesp, estima-se que 50% dos cargos técnicos estejam vagos. Cursos noturnos, como Licenciatura em Teatro, chegaram a ter apenas um dia de aula por semana por falta de professores.
  • Política de permanência estudantil: Moradias universitárias insuficientes, restaurantes precarizados e bolsas de valor defasado dificultam o acesso e a permanência de estudantes de baixa renda.
  • Infraestrutura básica: Falta de manutenção predial, ausência de protocolos de emergência e terceirização de serviços essenciais comprometem a segurança da comunidade acadêmica.

“O problema do orçamento é real e não afeta somente a Unesp”, reconhece Lins. “Mas reconhecemos também que há condições econômicas para atender às demandas. O que não há é vontade política.”

Orçamento: renúncia fiscal versus investimento público

O debate sobre financiamento das universidades estaduais ganha contornos políticos. O Fórum das Seis — que reúne entidades de docentes e técnicos-administrativos da USP, Unesp e Unicamp — propõe que o repasse às universidades passe a ser calculado com base na Receita Tributária Líquida (RTL) do Estado, e não na cota-parte do ICMS, como ocorre atualmente.

A mudança, segundo os movimentos, garantiria recursos mais estáveis e compatíveis com a arrecadação paulista. “O governo renuncia a bilhões em isenções fiscais para empresas e diz que não há dinheiro para a educação”, critica Lins. “É uma questão de prioridade.”

Enquanto isso, a Pauta Unificada 2026 exige reposição salarial de 15,97% para recuperar o poder de compra perdido desde maio de 2012 — índice calculado pelo IPCA/IBGE. O Cruesp (Conselho de Reitores), contudo, utiliza o IPC-Fipe, índice restrito à capital e com metodologia que subestima a inflação real.

Isonomia e gratificações: estopim da greve na USP

Na USP, a aprovação da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE) — benefício de até R$ 4,5 mil mensais destinado apenas a docentes — desencadeou greve dos servidores técnico-administrativos e paralisação estudantil. A medida, segundo o Sintusp, fere o princípio constitucional da isonomia.

A reitoria propôs, como contrapartida, estender o benefício aos demais servidores, mas com valor rateado — o que resultaria em cerca de R$ 1,6 mil por mês. A proposta será votada em assembleia, mas a insatisfação permanece: “O professor não trabalha sozinho. Os funcionários ficam nos laboratórios, nas aulas. Eles precisam dos trabalhadores para desenvolver suas pesquisas”, afirma Solange Conceição Lopes, diretora do Sintusp.

Gestão da USP: austeridade que sacrifica os vulneráveis

Além do problema de financiamento estadual, Bianca Borges aponta críticas à gestão interna da USP, cuja reitoria implementou políticas de contenção de gastos que, segundo ela, agravam a situação. “É uma política de gestão que não prioriza a permanência estudantil, que não prioriza o atendimento às necessidades dos alunos e dos funcionários”, afirma. Kayki também critica a apatia na gestão da Unesp. Para ele, não é papel dos eleitos aceitar como tácito que não há recursos, mas desenvolver estratégias para lutar por eles.

“É por isso que a Universidade hoje está em greve: porque é vítima do teto de gastos da USP, uma política de austeridade que sacrifica os mais vulneráveis na Universidade”, denuncia Bianca.

Para Bianca Borges, a solução passa por duas frentes: pressão sobre o governo do estado para revisar o modelo de repasse e cobrança interna às reitorias para que priorizem a comunidade universitária em suas decisões orçamentárias. “Não basta ter recurso se a gestão não o aplica onde é mais necessário”, resume.

Governo silencia enquanto mobilização cresce

O governador Tarcísio de Freitas mantém postura de não diálogo com entidades estudantis e sindicais. “O governador tem uma postura de não dialogar, não reconhecer as entidades estudantis”, denuncia Lins. “Por isso, temos crescido a mobilização.”

A estratégia dos movimentos é construir uma jornada de lutas estadual, articulando USP, Unesp, Unicamp, Fatecs e escolas técnicas. “Essa luta não é isolada. Deve ser uma luta em unidade de todos os estudantes, servidores e docentes do estado de São Paulo”, afirma o dirigente estudantil.

O DCE da Unesp convocou reunião para 25 de abril, às 15h, para debater os próximos passos da mobilização. A expectativa é de novas assembleias, atos públicos e pressão direta sobre a Assembleia Legislativa e o Palácio dos Bandeirantes. Enquanto isso, a comunidade acadêmica da USP ocupa as vias do campus com sua luta.

Sem luta, não há conquista

Enquanto o governo estadual prioriza isenções fiscais e gestões gerencialistas, as universidades públicas definham. A morte da professora Sandra Regina não pode ser tratada como caso isolado. Ela é símbolo de um sistema que, por opção política, abandona quem produz conhecimento, forma cidadãos e transforma a sociedade.

Como alerta Bianca Borges, “sacrificar os mais vulneráveis na universidade é sacrificar o futuro do Brasil”. A mobilização crescente indica que estudantes, servidores e docentes não aceitarão calados esse desmonte. A próxima etapa será definir se a luta permanecerá restrita aos campi ou ganhará as ruas — rumo ao Palácio dos Bandeirantes e à Assembleia Legislativa.

cezar xavier