Estudo aborda desafios do jornalismo em tempos de IA e desinformação
A organização internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF) realizou estudo com a Unicamp no qual procurou identificar e analisar os possíveis cenários para o jornalismo eticamente responsável na próxima década, considerando os desafios enfrentados por esse campo em nível global. Para fortalecê-lo frente a esses obstáculos, propõe, entre outros pontos, a maior participação do Estado na regulação desse ambiente, a educação midiática, o enfrentamento à desinformação e o fortalecimento e difusão do método jornalístico.
Intitulada “Futuros do Jornalismo: Cenários e Implicações para o Jornalismo Íntegro de Confiança para os Próximos Dez Anos”, a pesquisa foi feita entre entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026 e conduzia pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com a RSF.
“Com esta pesquisa, esperamos apontar caminhos para convergências e ações concertadas por um amplo conjunto de atores preocupados com o futuro do jornalismo. Ou seja, a vocação deste estudo de cenários, além de um chamado à defesa do jornalismo íntegro de qualidade, é um chamado para que um leque de atores, das mais diferentes posições neste ecossistema informacional, atue junto em torno de caminhos possíveis”, explica, no documento, o diretor do escritório da RSF para a América Latina, Artur Romeu.
Para lidar com os diversos desafios que envolvem a área — tais como a disseminação de notícias falsas, o uso de plataformas digitais como fonte de informação, bem como da inteligência artificia, e a ascensão de governos autoritários — o documento ressalta a importância do Estado como indutor de regulações que lidem com esses aspectos e protejam a atividade.
Segundo Romeu, “ao contrário do que comumente se considerou compreender como papel do Estado no debate público e na circulação de informações em sociedades democráticas – o de não interferir ou operar como censor dos direitos de informação e liberdade de expressão –, os debates realizados ao longo deste projeto apontam em outro sentido.”
Assim, salienta que “poucas saídas e soluções estruturantes para o setor são encontradas à margem de um marco regulatório robusto e de políticas públicas bem estruturadas, que fomentem a sustentabilidade e diversidade da produção jornalística, enfrentem a desinformação e promovam a educação midiática. Daí a expectativa de que este relatório contribua também para reflexões no âmbito dos Três Poderes, ainda mais num ano de eleições gerais no Brasil”.
Cenários possíveis
Para compreender o futuro do jornalismo e lidar com os desafios de hoje e de amanhã, o estudo traça quatro possíveis cenários e suas respectivas formas de enfrentamento.
O primeiro cenário aponta para a consolidação das plataformas digitais “como as principais intermediárias da informação, tornando o ecossistema informacional pouco diverso e concentrado em grandes centros. Nesse ambiente, o setor depende da sua capacidade de adaptação às lógicas algorítmicas e tecnologias de IA para garantir audiência. Grandes conglomerados são os principais beneficiados”.
O segundo cenário traz a possibilidade da combinação de regulação eficaz de plataformas e políticas públicas voltadas para a valorização do jornalismo para criar um ambiente mais equilibrado para a circulação de informação. Neste caso, diz o estudo, “o jornalismo se fortalece como um bem público a ser defendido e há maior diversidade de atores produtores de notícias”.
No terceiro cenário, considerando um ambiente informacional altamente fragmentado, o estudo prevê a proximidade com audiências como forma de promover o crescimento de iniciativas locais, comunitárias e de nicho. No entanto, adverte que “modelos de financiamento baseados em vínculos e identificação garantem a retenção de audiência, mas não garantem, por si só, padrões consistentes na aplicação do método jornalístico”.
O quarto é o cenário mais radical: o fim do jornalismo. Neste caso, diz, “a imprensa perde espaço para sistemas automatizados de produção de conteúdo e para redes de propaganda e desinformação. O jornalismo íntegro e de confiança enfrenta graves dificuldades para manter sua função social e produzir informação valorizada e consumida pelo público”.
Os cenários são traçados não como um alerta catastrofista, mas como uma forma de preparar o setor e a sociedade para lidar, desde já, com os desafios impostos em cada uma dessas situações factíveis e que vêm se desenhando no cotidiano da área informacional.
Enfrentamento
O estudo detalha o que pode acontecer e como lidar com cada uma dessas situações, mas aponta para seis estratégias principais, que considera robustas para que as organizações possam “navegar em qualquer dos cenários ou de possíveis combinações deles no futuro”.
A primeira é tornar o método jornalístico amplamente adotado e difundido. Para tanto, defende “como prática padrão, a comunicação clara dos critérios de apuração, verificação e objetividade do jornalismo, de modo a diferenciar-se de conteúdos automatizados, opinativos e que contêm desinformação”.
O segundo ponto defendido é o enfrentamento à desinformação, por meio da estruturação de “iniciativas permanentes de monitoramento e checagem de conteúdos virais” ou do aprimoramento daquelas existentes, “com o objetivo de identificar informações enganosas e produzir verificações acessíveis ao público”.
A terceira estratégia é fortalecer redes de cooperação, estabelecendo “parcerias entre organizações de jornalismo locais, regionais e nacionais para ampliar o alcance territorial, compartilhar programas de capacitação profissional e estruturar projetos conjuntos de monitoramento de desinformação”.
O estudo também defende a necessidade de diversificar os modelos de sustentabilidade financeira, combinando publicidade (inclusive segmentada), assinaturas, formação de um conjunto de membros, filantropia e editais e fundos públicos, “de modo a construir vínculos de identificação e confiança com a audiência e fortalecer retenção do engajamento”.
Como quinta estratégia, indica a importância de se investir na educação midiática, em parceria com escolas e universidades, capacitando diferentes segmentos da população a reconhecer fontes de jornalismo íntegro e de confiança e compreender o método jornalístico. “A educação midiática deve ter como objetivo construir o letramento midiático, formando cidadãos com conhecimentos básicos sobre o processo de produção do jornalismo íntegro e de confiança e capazes de discernir sobre a confiabilidade dos conteúdos informacionais que consomem e compartilham”, explica.
Por fim, o estudo propõe que sejam desenhadas estratégias para influenciar tomadores de decisão (como políticos e gestores), como forma de fortalecer o ambiente regulatório do jornalismo. Nesse sentido, defende a atuação constante de representantes da área em “fóruns e processos de deliberação sobre normas e leis que protejam e fortaleçam o jornalismo íntegro e de confiança e reduzam os espaços de desinformação”.



