Socialismo é alternativa concreta na luta contra o imperialismo e a ultradireita
A 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos debateu, neste sábado (28), em Porto Alegre, a luta pelo socialismo, contra o fascismo e o imperialismo, mesa promovida pelo PCdoB, pela Fundação Maurício Grabois (FMG) e pela União da Juventude Socialista (UJS). Entre os debatedores, dirigentes de partidos comunistas dividiram suas experiências e apontaram caminhos para superar a extrema direita e construir o sistema socialista.
Participaram dos debares Nádia Campeão, presidenta em exercício do PCdoB; Pietro Allarcon, do PC da Colômbia; João Oliveira, eurodeputado e membro do PC de Portugal; Oscar Andrade, senador e secretário-geral do PC do Uruguai; Marcelo Rodriguez, do PC da Argentina; Alexis Cortés, do PC do Chile; Benigno Péres, cônsul-geral de Cuba no Brasil e Valter Pomar, dirigente da Fundação Perseu Abramo, do PT. A coordenação coube ao diretor da FMG, Ricardo Alemão.
“Temos de apresentar o socialismo como alternativa ao capitalismo, mas não uma alternativa da utopia, do sonho, o que também faz parte, e sim como algo concreto”, disse Nádia.
A dirigente fez essa colocação ao discorrer sobre a profunda crise do capitalismo e o estágio atual de ascensão do fascismo como resposta a esse declínio, salientando que a luta pelo socialismo é uma forma real de derrotar a extrema direita e superar esse grave cenário.
“Nós, comunistas, temos o método, a tradição, de analisar o mundo apontando suas contradições, seja entre capital e trabalho; seja as interimperialistas, que ficaram mais evidentes neste segundo mandato do Trump e envolvem, de um lado, o imperialismo e de outro as nações que lutam por projetos soberanos e autônomos; seja entre capitalismo e socialismo”, explicou.

Hoje, acrescentou, “a contradição central é com o imperialismo, notadamente o estadunidense, associado ao governo de Benjamin Netanyahu em Israel. O atual epicentro da ofensiva imperialista estadunidense coloca todas as demais nações em contradição com isso — porque afinal, estamos todos sob ataque”. Isso porque no segundo mandato de Donald Trump, “o fascismo e o imperialismo foram elevados a outro patamar, de maneira que a ofensiva neofascista está instalada nos EUA, o país mais poderoso do sistema capitalista”.
Nesse quadro complexo, Nádia salientou que “nossa frente anti-imperialista, antifascista tem um alvo muito claro”. Ao mesmo tempo, defendeu que “a contradição entre o capitalismo e o socialismo caminha junto com essa contradição imediata da ofensiva dos EUA e seus objetivos de neocolonização”.
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Ela também salientou que tal ofensiva — que envolve diretamente fatores geopolíticos, de domínio de fontes de energia e do Oriente Médio, além da recuperação do poderio tecnológico — tem um alvo claro: confrontar a China. “O objetivo é a China pela China? A questão é que a China é socialista”, enfatizou.
De acordo com a dirigente, “a luta pelo socialismo tem de ter esse sentido que estamos discutindo, inclusive porque o capitalismo já atingiu sua etapa mais desenvolvida. E um dos resultados é a crise climática, que coloca toda a vida em risco. A hiper-exploração dos recursos naturais e do consumo pelo capitalismo são fatos irrefutáveis e o próprio sistema capitalista já mostrou que não tem condições de resolver porque é comandado justamente pelos elementos que levaram a essa crise — a exploração, a busca pelo lucro, ou seja, jamais vai resolver isso. Da mesma forma, resulta desse estágio do capitalismo fenômenos como a xenofobia, o racismo, a misoginia etc., que também precisam ser combatidos”.
O socialismo como alternativa real
A superação do cenário atual passa, na avaliação de Pietro Allarcon, do PC colombiano, pela eleição de governos populares e de esquerda na América Latina. “Para nós, o importante é que no marco dos processos eleitorais e dentro desse contexto de luta de classes — porque luta eleitoral é luta de classes — tenhamos votos e vitórias. Isso golpeia o imperialismo de frente”.
Ele salientou que desde a Colômbia até o Brasil — dois importantes países da América do Sul que terão eleições presidenciais neste ano — “temos de ir construindo uma possibilidade estratégica de unidade” na qual “a defesa da paz e do bem-estar do nosso povo estejam no centro”.
João Oliveira, do PC de Portugal, salientou que “hoje o fascismo é usado como um instrumento para conter o descontentamento, a revolta dos povos que, perante à crise estrutural do capitalismo, à agudização das injustiças e desigualdades, naturalmente podem transformar esse descontentamento em ação revolucionária, o que coloca ao imperialismo o risco da perda do controle da situação”.
Ele ponderou que “o socialismo é realmente a alternativa ao capitalismo e é a luta pelo socialismo que nos vai conduzir à derrota do fascismo e do imperialismo”.
Nesse sentido, alertou que “devemos denunciar algumas armadilhas, entre elas a ideia de que o neoliberalismo pode ser uma alternativa ao fascismo”. Ele reforçou que esse movimento é perigoso para a classe trabalhadora e para os povos “porque aprisiona as forças que verdadeiramente podem libertá-los, que são as forças socialistas”.
Para ele, “só vamos verdadeiramente derrotar o imperialismo e o fascismo e apontar para o socialismo se fizermos essa luta através da luta de classes; a ideia de apagar o confronto entre o capital e o trabalho como uma possibilidade de alcançar soluções que possam colocar a superação do capitalismo é uma perigosa ilusão que no passado já mostrou as consequências que pode ter para os povos”.
Oscar Andrade, do PC do Uruguai, reafirmou que “o império dos EUA é historicamente racista e supremacista: foi assim com seus povos originários e foi assim em relação ao México, por exemplo”.

Ele acredita também que a atual reação agressiva estadunidense em nível global tem relação direta com o atual “momento de declive” de seu poderio, ao qual se somam os resultados da grave crise ambiental. “O fato é que o planeta não aguenta mais esse sistema”.
Marcelo Rodriguez, do PC da Argentina, falou sobre a experiência de estarem vivendo sob o governo de um presidente subserviente a Trump, como Javier Milei, e salientou: “se de fato queremos derrotar historicamente o fascismo e o imperialismo, o que temos de derrotar é o capitalismo e construir o sistema socialista; se não, eles sempre voltarão de uma ou outra forma”.
Além disso, apontou que a articulação da extrema direita estadunidense com governos dessa mesma feição na América Latina para supostamente combater o tráfico na região por meio do intervencionismo militar tem o objetivo de impor um novo projeto de colonização. “Temos em curso um novo Plano Condor”, disse, em referência à aliança dos EUA com ditaduras da região nos anos 1960-70.
Alexis Cortes, do PC do Chile, também ponderou que o fascismo surge em momentos e decomposição política, social e econômica do capitalismo. “Como bem falou (Antonio) Gramsci, este é o momento dos monstros, do claro-escuro em que o fascismo aparece como o rosto nu do caráter mais bárbaro do capitalismo”.
Esse caráter, agregou, “é uma resposta capitalista à crise provocada pelo próprio capitalismo, através da qual procura-se canalizar o mal-estar, a raiva, a frustração que provocam o neoliberalismo, radicalizando as suas causas e, ao mesmo tempo, tentando culpar os mais vulneráveis por esses problemas”.
Ele também chamou atenção para as características comuns ao fascismo através dos tempos: “o culto a um suposto passado glorioso, acompanhado de um desprezo à intelectualidade e do negacionismo científico, além da exploração de sentimentos primitivos como o medo, o apelo à misoginia, a afirmação patriarcal. Mas, também, um forte apelo ao que seria uma ordem natural, como forma de justificar e naturalizar as desigualdades, além da afirmação de um nacionalismo bastante particular, um nacionalismo subordinado, vassalo — a exemplo de Eduardo Bolsonaro pedindo sanções contra o próprio país”.
Janela de oportunidade
O último a falar foi o professor Valter Pomar, da Fundação Perseu Abramo e do PT. Ele iniciou discorrendo sobre a trajetória do movimento socialista e as dificuldades que enfrentou ao longo da história.
Para Pomar, o fato de não ter ocorrido revolução socialista em nenhum país de capitalismo avançado — como previa o marxismo clássico — “significa dizer que eles mantêm os meios parar sabotar, atacar, infiltrar e no limite fazer a roda da história girar para trás. Foi o que aconteceu não apenas no período 1989/1991 mas também agora. O que estamos vendo é isso: o poderio dos EUA sendo mobilizado junto com a cumplicidade europeia e japonesa, para tentar fazer a roda da história girar para trás e com êxito”.
Como forma de enfrentar essa situação, ele acredita que é preciso, entre outros pontos, “continuar insistindo na necessidade estratégica de derrotar o capitalismo nos países centrais (EUA, UE, Japão). É um erro tirar isso do horizonte”.
Pomar também salientou que os movimentos de esquerda têm uma missão desafiadora na América Latina e no Brasil porque “onde pode haver uma expansão do campo socialista hoje no mundo, em primeiríssimo lugar, é aqui, por incrível que pareça”.
Ele explicou que “temos aqui a possibilidade de fazer um deslocamento na correlação de forças em escala mundial, mas para isso é preciso, como já foi dito, vincular a luta contra o neoliberalismo, contra o fascismo e o imperialismo com a luta pelo socialismo contra o capitalismo. Se não, não vamos deslocar a correlação de forças a nosso favor”.
Pomar defendeu que é preciso “aproveitar a janela histórica que está se abrindo com o declínio do império estadunidense” e pontuou que se essa janela se fechar, “teremos um longo período onde a possibilidade de se fazer mudanças estruturais estará reduzida”.
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