Cavaliere assina a posse como prefeito, aplaudido por Paes e pelos vereadores — Foto: Divulgação

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), renunciou nesta sexta-feira (20) para disputar o governo do estado nas eleições 2026. A transmissão do cargo para o vice Eduardo Cavaliere (PSD) marca uma guinada na política local e acende a disputa pelo Palácio Guanabara, hoje ocupado pelo governador Cláudio Castro (PL), aliado da família Bolsonaro.

Para Rodrigo Lua, presidente municipal do PCdoB, as eleições de outubro são “fundamentais para o Brasil e para o Rio de Janeiro”. Segundo o dirigente, há uma frente ampla que busca “conquistar a reeleição de Lula à presidência e a derrota da extrema direita no governo do estado”.

“A saída de Eduardo Paes da prefeitura e a construção de sua pré-campanha para governador é, ao mesmo tempo, a possibilidade da construção de um palanque forte para Lula em nosso estado, somada à perspectiva de uma candidatura competitiva que possa apontar novos rumos e vencer o bolsonarismo no estado onde o ovo da serpente nasceu”, avalia Rodrigo.

O PCdoB participa do governo municipal desde janeiro de 2025, estando à frente do IPP (Instituto Pereira Passos), com Elias Jabbour, e da CDS-Rio (Coordenadoria de Diversidade Sexual), com Diana Conrado. Demonstrando autonomia e coerência, os comunistas não deixaram de criticar a relação tensa da gestão com os servidores municipais. “Houve aumento da carga horária de trabalho dos professores sem aumento de salário, além da manutenção da contratação dos profissionais de saúde do município por OSs (Organização Social), e não por concurso público”, afirma Rodrigo.

Mas, na visão do PCdoB, os avanços no Rio são claros. Além de participar da “frente ampla e democrática que, junto ao governo Lula, vem reconstruindo o Brasil e a cidade do Rio de Janeiro”, Paes realizou importantes entregas e ampliou os investimentos nas zonas Norte e Oeste. Rodrigo destaca as conquistas no transporte público e na mobilidade urbana, especialmente o BRT (Bus Rapid Transit, ou Transporte Rápido por Ônibus). “O corredor de BRT que liga Deodoro ao Terminal Gentileza reduziu enormemente o tempo de deslocamento dos trabalhadores pela Avenida Brasil.”

Crise institucional e oportunidade política

Para Daniel Iliescu, presidente do PCdoB-RJ, a desincompatibilização de Paes é “um movimento importante pelo tabuleiro da luta política no país”. Segundo ele, Paes é “uma das maiores lideranças que apoia o presidente Lula no Sudeste”.

Iliescu descreve o Rio como vivendo “uma crise institucional talvez sem precedentes”, com o governador Cláudio Castro sob risco de cassação e possível renúncia. “Um arranjo de forças aqui que está muito associado ao que tem de pior na sociedade do Rio, especialmente o crime organizado”, afirmou, citando ligações comprovadas com o Comando Vermelho e histórico de relações com milícias.

“O Rio está à deriva, sem projeto econômico, sem projeto de desenvolvimento, com um dos menores pisos regionais de salário do Brasil, com um dos menores índices do IDEB, com a saúde pública com índices igualmente vergonhosos”, criticou. Para Iliescu, a candidatura de Paes representa “a possibilidade de finalmente termos um governo, um projeto de desenvolvimento para o estado associado ao projeto de país”.

Tensão produtiva para avançar a agenda progressista

Na avaliação da deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ), a candidatura de Paes representa “a congregação de uma série de interesses progressistas republicanos, desde aqueles mais liberais até aqueles marxistas ou que se posicionam com firmeza no campo da esquerda”.

Para Dani, trata-se de reconhecer “a importância de termos uma liderança eleitoral do campo progressista, ainda que mais liberal, como Eduardo Paes, disposto a construir um arco de alianças mais amplos”. E acrescenta: “É preciso fazer dessa disposição um espaço de tensão, no melhor sentido do termo, para que nós possamos colocar a nossa agenda ou pontos importantes do nosso programa”.

Dani Balbi caracteriza o governo Cláudio Castro como expressão do “triunfo de uma forma de organização política muito particular do Brasil, mas com contornos mais dramáticos no Rio: lideranças cartelizadas que dominam territórios”. Segundo ela, “sua política econômica e sua condução das estruturas de governo dão mostras de insuficiência, de falta de projeto, de uma forma de governar distante da preocupação em atender às demandas do povo”.

O maior desafio, na visão da parlamentar, é temporal e político: “Quanto tempo eles ocuparam a máquina e o quanto moldaram a política do estado à maneira como disputam territórios? E quão a classe trabalhadora está mais resistente à nossa organização, à nossa disputa de consciência?”.

Dani reconhece ainda “uma certa fascistização ou inclinação extremamente conservadora da população no Brasil e no Rio”. Por isso, define a estratégia: “Expor as fragilidades e o caráter antipopular do governo Cláudio Castro, ao mesmo tempo em que tentamos atrair elementos da classe trabalhadora, disputar consciência e furar bloqueios para que nosso projeto de Estado chegue a essas parcelas da população”.

Transição e legado de Paes

Em seu último despacho, Paes destacou que deixa “uma cidade muito mais desenvolvida, menos desigual e mais inclusiva”. Entre marcas de suas quatro gestões (4.827 dias no total), estão a demolição do Elevado da Perimetral, a revitalização da Zona Portuária, a criação de parques nas zonas Norte e Oeste e o programa Reviver Centro. A prefeitura também lançou recentemente a Força Municipal, com 600 guardas armados, para atuar na segurança pública.

Cavaliere, de 31 anos, passa a ser o mais jovem prefeito carioca desde a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, em 1975. Ele assume com a missão de reduzir as filas de consultas e cirurgias na saúde pública e enfrentar queixas recorrentes sobre iluminação, buracos e ocupação irregular de calçadas. 

Com a renúncia de Paes, o Rio entra em nova fase eleitoral. A disputa pelo governo fluminense, agora com Cavaliere na prefeitura e Paes na corrida estadual, tende a polarizar o debate entre o projeto de frente ampla apoiado por Lula e a continuidade do bolsonarismo representado por Cláudio Castro. Para o PCdoB-RJ, o caminho é claro: construir alianças sem abrir mão do programa, denunciar o modelo excludente e disputar consciências para transformar o Rio.

por cezar xavier