Ronaldo Leite da CTB participou da comissão organizadora da II Conferência Nacional do Trabalho instalada pelo governo

O Teatro Celso Furtado, no complexo do Anhembi em São Paulo, recebe nesta terça-feira (3), às 19h, a solenidade de abertura da 2ª Conferência Nacional do Trabalho (CNT). Com a presença confirmada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o evento marca o retorno de um dos principais espaços de construção coletiva de políticas públicas para o setor, interrompido por uma década.

A conferência, que segue até o dia 5 de março, reúne cerca de 700 delegados eleitos nas etapas estaduais realizadas ao longo de 2025, consolidando um processo participativo que envolveu mais de 2.800 representantes em todo o país.

Na prática, porém, o encontro assume peso político maior: ocorre em meio à retomada da mobilização sindical e ao avanço da pauta contra a escala 6×1, que ganhou novo fôlego nas etapas estaduais.

Tripartismo com limites

Ronaldo Leite, secretário-geral da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), ressalta ao Portal Vermelho a importância estratégica do momento: “A 2ª Conferência Nacional do Trabalho é um momento importante para a classe trabalhadora. É ali que governo, empregadores e trabalhadores se sentam para debater os rumos das políticas públicas do trabalho”.

Segundo ele, mesmo com as limitações inerentes a um espaço de negociação tripartite, a conferência recoloca no centro do debate nacional a necessidade de reconstruir uma agenda de valorização do trabalho.

Ele ressalta que a CTB integra a comissão organizadora nacional, ao lado das demais centrais sindicais, e participa com delegados eleitos nas etapas preparatórias.

Documento de consenso — e disputa política

Pelo regimento, o documento final da conferência trará apenas os consensos construídos entre as três bancadas. No entanto, os anais registrarão todas as propostas apresentadas, inclusive aquelas que não obtiverem acordo.

Segundo Ronaldo Leite, é nesse registro que o movimento sindical pretende marcar posição.

“O documento final refletirá apenas os consensos, mas os anais vão registrar todos os debates e propostas. É ali que estarão temas centrais defendidos pelo movimento sindical, como o enfrentamento à escala 6×1, a retomada e ampliação de direitos, o fortalecimento da negociação coletiva e a valorização do salário mínimo.”

Para ele, a conferência recoloca no centro da agenda nacional a necessidade de reconstruir uma política de valorização do trabalho. Entre os temas centrais levados pelos delegados estão a igualdade salarial, a regulação do trabalho por plataformas digitais e o debate sobre a ultratividade das normas coletivas.

Os debates abordarão não apenas questões imediatas, mas também a preparação do Brasil para as transformações tecnológicas, digitais e ecológicas que moldam o futuro do trabalho. A expectativa do movimento sindical é que a presença do presidente Lula na abertura sinalize o comprometimento do Planalto com as pautas estruturantes da classe trabalhadora, transformando os consensos da conferência em ações concretas de governo.

A escala 6×1 no centro do debate

O fim da escala 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso — emergiu como uma das principais bandeiras nas etapas estaduais. A proposta, defendida como urgente para combater o adoecimento laboral e promover dignidade, ganhou novo fôlego nas discussões estaduais e será o centro da bancada dos trabalhadores na capital paulista. 

A CTB destaca que a redução da jornada sem redução salarial não é apenas pauta histórica, mas resposta às transformações tecnológicas e à intensificação do trabalho. A discussão sobre jornada é central. O Brasil precisa enfrentar a lógica de superexploração e reorganizar o tempo de trabalho diante das mudanças tecnológicas e produtivas.

Diferentemente de edições anteriores, a chegada à etapa nacional é marcada por uma articulação robusta das centrais sindicais. A CTB, juntamente com a CUT e a UGT, atuou na comissão organizadora e promoveu reuniões preparatórias em estados como São Paulo, Amazonas, Paraíba e Alagoas para alinhar uma plataforma unificada de reivindicações.

A discussão foi além da jornada, com a aprovação de propostas que incluem a revogação de pontos da reforma trabalhista e a retomada da industrialização como eixo de desenvolvimento. 

Reconstrução institucional e futuro do trabalho

A programação da conferência aborda quatro eixos principais:

  • negociação coletiva e relações de trabalho;
  • qualificação profissional e futuro do trabalho;
  • políticas públicas de emprego e renda;
  • proteção, saúde e segurança no trabalho.

O pano de fundo é a tentativa de reconstrução institucional após uma década sem a realização da conferência nacional.

Para Ronaldo Leite, o momento exige ir além do diagnóstico.

“Precisamos recolocar o trabalho no centro do projeto nacional de desenvolvimento. Isso passa por direitos, proteção social, valorização salarial e fortalecimento das instituições públicas do trabalho.”

Sinal político

Com a presença de Lula na abertura e forte mobilização das centrais sindicais, a II Conferência Nacional do Trabalho assume também caráter simbólico: representa a reativação de um espaço de pactuação social interrompido por dez anos.

Embora o tripartismo imponha limites aos resultados imediatos, o avanço da pauta contra a escala 6×1 e a retomada do debate sobre direitos indicam que a conferência pode funcionar como catalisador de uma nova etapa de pressão social.

Nos próximos três dias, mais do que um documento final, estará em disputa o rumo das políticas públicas para o mundo do trabalho em um cenário de transformações tecnológicas, mudanças demográficas e redefinição das relações produtivas no país.

Um processo democrático de base

A etapa nacional é o desfecho de um amplo processo de mobilização social. Entre setembro e dezembro de 2025, as 27 unidades da federação realizaram conferências estaduais e distritais que resultaram em centenas de propostas consolidadas. 

Ao final dos três dias de intensos debates, a CNT deverá entregar ao país um conjunto de diretrizes para a promoção do trabalho decente, servindo como bússola para a ação estatal e para o fortalecimento do diálogo social em um momento decisivo para a economia brasileira.

por cezar xavier