Neste sábado, 21 de março, ocorreu a cerimônia de boas-vindas aos membros da Caravana Nossa América a Cuba, na sede do ICAP Foto: Ricardo López

Uma delegação do PCdoB retornou ao Brasil nesta semana após uma semana de atividades políticas e solidárias em Cuba. Em entrevista do aeroporto do Panamá, onde fazia escala, Amanda Harumy, da Comissão de Relações Internacionais do Partido, relatou a gravidade do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e os esforços internacionais para furar o cerco à ilha caribenha.

A Caravana Nossa América para Cuba, que reuniu cerca de 600 pessoas de 33 países, – representando forças populares, progressistas, revolucionárias, de esquerda e humanistas -, levou cerca de 20 toneladas de ajuda material para a ilha. Fazer parte do comboio não foi isento de chantagens e ameaças, como o cancelamento dos vistos norte-americanos de muitos.

Crise material, resistência política

Amanda Harumy, Comissão de Relações Internacionais do PCdoB

“Existem sanções que já duram 60 anos, mas hoje há uma sanção física: nada entra na ilha”, afirmou Amanda. Segundo ela, o corte no fornecimento de combustível pela Venezuela, após 3 de janeiro, e o impedimento de ajudas humanitárias da Rússia e do México agravaram uma crise energética que impacta desde a iluminação pública até serviços básicos como coleta de lixo e funcionamento de universidades.

Apesar das dificuldades, a dirigente destacou que o povo cubano mantém a consciência política: “Eles dizem: somos um povo revolucionário, estamos sob ataque imperialista”. Para Amanda, é fundamental diferenciar a crise material da falência do projeto socialista: “Cuba não é uma sociedade colapsada. Os direitos, os conceitos e os fundamentos socialistas ainda existem”.

Ajuda humanitária nas malas e nos barcos

Photo: Ricardo López

A delegação levou medicamentos, máscaras, seringas, alimentos, lâmpadas solares e power banks. “Foi emocionante ver que essas doações já estão chegando aos hospitais”, disse Amanda. Ela destacou ainda o envio de placas fotovoltaicas, que chegarão por via marítima: “O sol eles não podem bloquear. Hoje, 50% da eletricidade em Cuba vem de energia solar, com cooperação tecnológica chinesa, mas precisamos ajudar mais para garantir autonomia elétrica”.

A Flotilha Nuestra América para Havana, que partiu do México com alimentos, medicamentos e mais placas solares, deve chegar à ilha nos próximos dias. “Ela não vai resolver todos os problemas, mas vai furar o bloqueio e mostrar que, com vontade política, é possível romper o cerco ilegal”, avaliou.

Articulação internacional e pressão no Brasil

A Conferência Internacional de Solidariedade a Cuba, organizado por diferentes redes do campo progressista internacional, reuniu representantes de mais de 30 países, incluindo 150 jovens dos Estados Unidos, o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn e o político espanhol Pablo Iglesias. “Muitos movimentos sociais nos EUA que defendem Palestina e Cuba são perseguidos internamente pelo governo Trump. Precisamos reverter essa narrativa”, afirmou Amanda.

Do lado brasileiro, participaram o deputado Orlando Silva e o vereador Gustavo Petta, além de outras lideranças como Bianca Borges e Manuela Mirella. A delegação já se articulou com o embaixador do Brasil em Cuba para pressionar por ações concretas do governo federal. “O Brasil está enviando 20 mil toneladas de alimentos, mas a logística de distribuição esbarra na falta de combustível. A questão energética é central”, alertou.

Solidariedade como arma política

Para Amanda, a missão em Cuba se conecta diretamente ao cenário político brasileiro. “Esse ataque a Cuba, à Venezuela, à América Latina faz parte de uma política externa de Trump. Isso vai estar presente no nosso debate eleitoral e na luta contra a extrema direita bolsonarista”, concluiu.

A dirigente reforça que a solidariedade não pode se limitar a gestos pontuais: “Precisamos articular ajuda humanitária governamental, cooperação energética e diplomacia ativa. Defender Cuba é defender a soberania da América Latina”.

por cezar Xavier