A relação entre a educação, ciência e tecnologia e o combate à extrema direita e pela soberania foi tema, neste domingo (29), de mesa da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, em Porto Alegre. Entre os palestrantes, professores, lideranças sindicais e estudantis mobilizadas para fortalecer essa frente de luta. 

A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Márcia Barbosa, abriu a mesa, destacando que “este é um momento muito difícil da história do mundo porque ao mesmo tempo em que fomos conseguindo avanços importantes na equidade de gênero e raça, na garantia do lugar de fala para muitas pessoas que não tinham — esta universidade, por exemplo, mudou e hoje tem 50% dos estudantes vindos de escola pública e 1/4 de cotas raciais — o mundo está se apropriando da tecnologia para atacar todas essas conquistas e isso é muito sério”. 

Márcia Barbosa. Foto: reprodução

Para Márcia — uma das maiores cientistas do país, reconhecida internacionalmente — “um pedaço da culpa de ter essas tecnologias nas mãos da extrema direita é culpa da universidade também. Eu, por exemplo, sou uma física teórica. Eu construo programas de computador — esses famosos algoritmos. Pessoas como eu têm zero aula de ética, de ciências sociais, de direitos humanos. A gente acha que está construindo isso pela ciência, sem pensar que ciência é essa. E como a gente não pensa que ciência é essa, é muito fácil usar dinheiro para bancar pessoas como eu para produzir esses algoritmos”. 

Ela prosseguiu dizendo que “está na hora de a gente trazer formação para quem constrói esses algoritmos, para quem produz esse conhecimento. E isso tem que começar lá na educação básica”. 

A reitora também lembrou que por causa de ideias disseminadas pela extrema direita, como “escola sem partido” e a “ideologia de gênero” — que, salientou, “não existe como ciência, é fake news, é anticiência” — os professores e professoras estão com medo de falar. “A função de cada um e cada uma de nós que tem acesso à escola é fortalecer esses professores”. 

Ela alertou, ainda, para os efeitos desse contexto sobre novos avanços que estão por se tornar presentes em âmbito global, como a computação quântica, a comunicação quântica, a biologia sintética. “Nós não só não estamos prestando atenção a quem faz esse conhecimento como não está dando instrumentos para a regulação. Então precisamos regular sim, por lei, as redes sociais e a ciência que a gente está produzindo mundialmente”. 

Educação e soberania

Bianca Borges. Foto: reprodução

Presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges enfatizou que “não existe soberania para o nosso país sem educação, sem ciência, sem tecnologia. E também não existe soberania possível para os países do Sul global sob a intervenção do imperialismo. O que está em disputa hoje no mundo não é só orçamento e recursos naturais, é quem manda e quem obedece”. E, acrescentou, “sabemos que os EUA, um império decadente, não morrerá em silêncio”. 

Bianca chamou atenção para a grave situação de Cuba, “que vive hoje uma guerra sem bombas porque as guerras de hoje não acontecem apenas por meio do poderio militar, mas também com sanções econômicas, com bloqueio tecnológico e de combustível, com pressão política, com controle dos dados e dos algoritmos, da energia e da indústria”. 

A líder estudantil também abordou a prioridade da direita e da extrema direita à frente do país e como agem na política, especialmente no Congresso Nacional, inviabilizando ações que poderiam fazer o país avançar em seu desenvolvimento. 

“Quando o país secundariza o investimento em ciência e tecnologia, isso significa um alinhamento à dependência que nos torna escravos do sistema imperialista e dessa hegemonia da ordem mundial. Quando a universidade é sucateada porque tem mais recursos para pagar emenda parlamentar do que para financiar a educação pública do nosso país, também não é ao acaso, é alinhamento a um projeto. Quando um estudante não consegue permanecer na universidade — e hoje amargamos níveis de evasão universitária superior a 50% em muitas carreiras — isso não é falha: é uma exclusão organizada”. 

Foto: reprodução

Bianca continuou dizendo que isso acontece porque quem sustenta esse projeto no Brasil, quem detém a hegemonia política e no Congresso Nacional e governos locais é “uma elite que nunca acreditou no seu próprio povo”. 

Nesse sentido, salientou que “toda vez em que a extrema direita assume o poder, em todos os momentos de ascensão do fascismo, o primeiro alvo são as universidades, a educação, seja por meio da asfixia orçamentária, seja por meio das intervenções políticas nas nomeações dos reitores”. 

Ela também defendeu a necessidade de “superarmos a concepção vigente utilitarista de que a educação só serve para formar cargos técnicos, de que só serve para acharmos um emprego melhor. A educação é sim fundamental para termos uma vida de mais dignidade, mas a universidade que queremos é, sobretudo, uma universidade que promova a emancipação, que se volte para pensar os desafios da nossa sociedade”. 

A mesa contou ainda com intervenções da ex-senadora Gloria Ramirez, da Federação Colombiana de Professores; Hugo Iasque, da Internacional da Educação; Cláudio Mendonça, presidente da  Andes; Wellinton Silva, presidente do Proifes e Jairo Bolter, da Adurgs. Como debatedores, participaram Fátima Silva, presidenta da CNTE; Rozane Zan, presidenta do Cpers e Sandro Pimentel, coordenador de Educação da Fasubra Sindical. A mediação coube à deputada estadual Sofia Cavedon (PT-RS). 

Para assistir a íntegra do debate, clique aqui.