Colapso de reservatório em Mairiporã expõe crise na Sabesp pós-privatização
Imagem de uma etapa da construção do novo reservatório de água Capoavinha, em Mairiporã, que rompeu matando um operário, deixando feridos e estragos aos moradores
O rompimento do reservatório Capoavinha, em Mairiporã (SP), na manhã desta quarta-feira (11), reacendeu o debate sobre a gestão dos serviços de saneamento em São Paulo. Enquanto as investigações técnicas apuram as causas do acidente que deixou um trabalhador morto e ao menos nove feridos, a entrevista ao Portal Vermelho de Helena Maria da Silva, vice-presidente do Sintaema (Sindicato dos trabalhadores em água, esgoto e meio ambiente do estado de São Paulo), traz à tona elementos que conectam a tragédia a um contexto mais amplo de privatização e desmonte estrutural da Sabesp.
Para a direção do sindicato, o episódio também reacende críticas ao processo de privatização da Sabesp conduzido pelo governo do estado de São Paulo, liderado por Tarcísio de Freitas.
Helena Maria da Silva afirma que, desde a mudança no modelo de gestão, trabalhadores têm denunciado queda na qualidade dos serviços e aumento de problemas operacionais.

“Todo dia aparece notícia de falta d’água, água suja, acidentes ou problemas operacionais. A situação piorou muito depois da privatização”, afirmou.
Segundo o sindicato, o setor também enfrenta mudanças nas condições de trabalho, com cortes de direitos e reestruturações internas que, na avaliação da entidade, impactam diretamente a capacidade operacional do sistema.
Tragédia mobiliza investigação e reação sindical
As informações oficiais apontam que o reservatório — com capacidade para 2 milhões de litros, ainda em fase de testes — se rompeu durante o processo de enchimento. A enxurrada invadiu residências do bairro Capoavinha, danificou dez veículos e provocou a morte de um funcionário de empresa terceirizada, encontrado sem vida dentro de um contêiner.
A Prefeitura de Mairiporã evacuou e decretou situação de emergência em dois bairros atingidos. O Corpo de Bombeiros mobilizou 13 viaturas, com apoio da Defesa Civil e do Samu. A Sabesp informou que acionou equipes de assistência social e se comprometeu a ressarcir os prejuízos. A Polícia Civil investiga a hipótese de que um trator em manobra tenha atingido a base da estrutura.
Diante da gravidade do episódio, o Sintaema acionou o Ministério Público do Trabalho para que seja aberta uma diligência destinada a investigar as causas do acidente e verificar eventuais falhas de segurança.
A entidade acompanha o caso desde as primeiras horas após o desastre e afirma que a apuração rigorosa é fundamental para esclarecer responsabilidades e evitar novos episódios semelhantes.
A voz dos trabalhadores: críticas à privatização
A dirigente sindical Helena Maria da Silva estabelece uma conexão direta entre o acidente e a política de privatização implementada pelo governo Tarcísio de Freitas. “O prejuízo à população não é só do rompimento do reservatório, toda essa política de privatização que a gente vem sofrendo”, afirma.
Para a vice-presidente do Sintaema, a deterioração dos serviços é visível no cotidiano: “É todo dia mesmo, tem uma notícia desagradável de acidente, de morte, de falta d’água, de água suja, água fedorenta”. Embora não tenha laudo técnico das causas do rompimento, ela sustenta que o contexto de privatização criou condições propícias para falhas.
“A gente ainda não sabe a causa do acidente. Mas é um negócio muito estranho. Já pedimos diligência para o Ministério do Trabalho para que se investigue o que realmente aconteceu”, afirmou.
Imagens enviadas ao sindicato mostram a força da água arrastando veículos e invadindo residências próximas ao reservatório. A enxurrada provocada pelo rompimento atingiu diretamente ao menos três casas e deixou moradores em situação de emergência.
Segurança do trabalho sob ataque
Um dos pontos mais críticos mencionados pela sindicalista refere-se ao desmonte da estrutura de segurança. Helena relata que o SESMIT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho) da empresa “mandou quase todo mundo embora”. Engenheiros e técnicos de segurança, com anos de experiência, teriam sido dispensados.
“Os novos que eles contrataram agora, dois meses, três meses, por mais que sejam capacitados, formados, eles ainda não têm a experiência, o conhecimento do saneamento para poder efetivamente atuar”, avalia. A dirigente menciona a demissão de “quase 6 mil pessoas em dois anos” — “metade da empresa” — como fator que teria comprometido a qualidade dos serviços.
“Hoje você não vê mais técnico de segurança acompanhando as obras como antes. Isso faz muita falta”, disse. Para o sindicato, a ausência desses profissionais em obras de grande porte pode aumentar o risco de acidentes, especialmente em estruturas complexas como reservatórios e sistemas de abastecimento.
Investigação em andamento: o que se sabe
Enquanto o Sintaema acionou o Ministério Público do Trabalho solicitando diligência para apurar as causas, as investigações oficiais seguem em paralelo. A Arsesp, agência reguladora estadual, vai apurar as causas técnicas. A Sabesp afirma que iniciou “rigorosa investigação interna”.
O governador Tarcísio de Freitas, o mesmo que vendeu a empresa estatal, classificou o acidente como “inaceitável” e declarou: “ou foi falha de projeto ou de execução, e as duas coisas são inaceitáveis”. A fala do governador reconhece a gravidade do episódio, mas não avança sobre responsabilidades — o que contrasta com a posição mais assertiva do sindicato.
Para o Sintaema, o próximo passo é garantir transparência nas investigações conduzidas pelas autoridades trabalhistas, regulatórias e policiais.
Impacto na população e nos trabalhadores
A reportagem registra os danos materiais: casas invadidas, móveis perdidos, veículos arrastados. Moradores relatam “um barulho semelhante a uma explosão” e descrevem cenas de destruição. A solidariedade às vítimas é unânime entre poder público e entidades.
Já a análise sindical amplia o foco: “A qualidade do serviço tem caído por conta de falta realmente de profissionais, de pessoas que efetivamente conhecem e sabiam fazer o serviço”. Helena reconhece a “boa vontade” dos novos contratados, mas questiona a transferência de conhecimento técnico em um contexto de rotatividade acelerada.
Os dados objetivos — vítimas, cronologia, ações institucionais — são essenciais para a transparência e a responsabilização. Já as análises críticas, fundamentadas na experiência sindical, contribuem para o debate público sobre modelos de gestão e políticas de saneamento. O Sintaema tem legitimidade para denunciar condições de trabalho e pressionar por fiscalização. Cabe às autoridades, porém, apurar com rigor técnico as causas do acidente fatal.
por cezar xavier




