Brasília -04/02/2026 Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de assinatura do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. Palácio do Planalto. Brasília (DF) – Brasil. Foto: Fabio Rodrigues

Em edição especial desta quinta-feira (5), o programa Entrelinhas Vermelhas se dedicou a um dos temas mais urgentes da realidade brasileira: a explosão da violência contra as mulheres. Com uma média de quatro feminicídios por dia no país, a discussão sobre o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio — assinado há cerca de um mês pelos três poderes da República — ganhou centralidade, mas não como solução única.

Às vésperas do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a conversa dos jornalistas Inácio Carvalho e Priscila Lobregatte com Flávia Calé, secretária nacional de Mulheres do PCdoB, revelou que o combate à violência de gênero exige transformações estruturais que ultrapassam a esfera penal.

Emergência global, raízes locais

A ONU declarou recentemente o feminicídio como uma emergência global. No Brasil, essa crise se alimenta de uma formação histórico-social marcada pelo patriarcado colonial e escravista. “A violência contra as mulheres se constituiu como fator cultural e forma de subjugação historicamente”, analisa Flávia Calé. Para ela, o cenário atual é agravado pelo avanço da extrema direita e pela ideologia misógina que se propaga nas redes sociais.

O capitalismo em crise, segundo a entrevistada, busca recolocar as mulheres em posição de superexploração — do trabalho remunerado e do trabalho reprodutivo não pago. “É uma ideologia contra as mulheres que se associa à ascensão do fascismo, não só no Brasil, mas mundialmente”, alerta. 

Nesse contexto, o Pacto Nacional é bem-vindo, mas insuficiente: enfrentar a cultura do estupro e a violência cotidiana exige mobilização social permanente e envolvimento ativo dos homens na desconstrução de comportamentos machistas.

Regulação das mídias: questão civilizatória

Um dos pontos mais enfáticos do debate foi a necessidade urgente de regulação das plataformas digitais. Flávia Calé classificou a medida como “civilizatória”, dada a capacidade das redes de mediar — e empobrecer — as relações sociais. “Existe uma atuação subterrânea nessas redes: pedofilia organizada, comunidades redpill, propagação de ódio às mulheres”, denuncia.

Essas dinâmicas não apenas violentam mulheres e meninas, mas também capturam jovens para discursos extremistas e sistemas de desafios que culminam em violência real. A entrevistada lembra que agendas misóginas têm sido instrumentalizadas eleitoralmente, influenciando até mesmo pleitos municipais. 

“Isso interfere na democracia. Não é à toa que temos cada vez mais parlamentares reacionários assumindo postos de decisão sobre a vida das mulheres”, argumenta.

Representação política e violência de gênero

Apesar de as mulheres representarem mais de 52% da população brasileira, ocupam menos de 20% das cadeiras do Congresso Nacional. A sub-representação política é tanto causa quanto consequência da violência de gênero no espaço público. 

Flávia Calé destaca que a violência política contra mulheres — assédio moral, sexual, interrupção da fala, ameaças de morte — funciona como mecanismo de intimidação para mantê-las afastadas dos espaços de poder.

“A mensagem é: vocês podem vir, mas vão ter que aturar. E se não aguentarem, voltam para o seu lugar”, sintetiza. Para reverter esse quadro, é preciso não apenas aprimorar a legislação eleitoral — com cotas, financiamento obrigatório e combate a candidaturas laranjas —, mas garantir seu efetivo cumprimento e construir alianças entre mulheres para uma agenda unitária de transformação.

Economia do cuidado e valorização do trabalho

A discussão sobre violência contra as mulheres não se esgota na esfera criminal. Flávia Calé trouxe para o centro do debate a economia do cuidado: o trabalho reprodutivo — com crianças, idosos, pessoas com deficiência — é estruturante para a sociedade, mas sistematicamente desvalorizado e não remunerado. “Uma pesquisadora comparou o cuidado com crianças ao trabalho de um engenheiro de motores de avião: o risco de erro fatal é similar. Mas os salários? Nada”, ilustra.

Medidas como o fim da escala 6×1, a redução da jornada sem redução salarial e a licença-parental equivalente para todos os gêneros são apresentadas como eixos de uma política de valorização que impactaria diretamente a vida das mulheres — maioria dos chefes de família e mães solo no país. “Não se trata de abrir mão do cuidado com os filhos. Trata-se de transformar esse cuidado em direito, não em privilégio”, enfatiza a secretária nacional de Mulheres do PCdoB.

Mulheres na ciência: maternidade como teto de vidro

Na academia, a maternidade ainda funciona como barreira invisível à consolidação de carreiras. Flávia Calé, que presidiu a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), relatou conquistas recentes — como a inclusão da licença-maternidade nas normas de todas as 59 áreas do conhecimento da pós-graduação —, mas alertou para desafios persistentes.

“A idade de produção acadêmica coincide com a idade reprodutiva. Muitas mulheres abrem mão da maternidade para ter uma carreira. Isso é justo? A escolha deve existir, mas não pode ser uma imposição estrutural”, reflete. A inserção de cotas raciais na pós-graduação é apontada como passo fundamental para garantir que mulheres negras e indígenas também ocupem espaços de produção de conhecimento.

8 de Março: anti-imperialismo, democracia e trabalho

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Flávia Calé apresentou os três eixos que orientam as mobilizações deste 8 de Março: luta anti-imperialista, defesa da democracia e valorização do trabalho. “A guerra imperialista atinge as mulheres em cheio. São as mais vulneráveis, as que sofrem violência direta”, afirma, citando Palestina, Irã, Venezuela e Cuba como exemplos de como conflitos geopolíticos impactam a vida das mulheres.

No plano interno, a luta antifascista e democrática é apresentada como condição para avançar em direitos. “As mulheres têm sido força de contenção contra projetos reacionários. Precisamos isolar o bolsonarismo e mobilizar o campo popular para uma agenda de transformações”, defende. 

Por fim, o fim da escala 6×1 e a valorização do trabalho de cuidado aparecem como demandas concretas para enfrentar a superexploração capitalista que recai sobre as mulheres.

Unidade na diversidade

O debate do Entrelinhas Vermelhas deixou claro que não há solução única para a crise de violência contra as mulheres no Brasil. O Pacto Nacional é um passo importante, mas precisa ser acompanhado por políticas públicas estruturantes, regulação democrática das mídias, ampliação da representação política feminina e reconhecimento econômico do trabalho de cuidado.

Como sintetizou Flávia Calé, a luta das mulheres é estrutural: contra o capitalismo, contra o imperialismo, contra o fascismo e pela valorização da vida. “Sem os homens respeitando nossa pauta, não avançamos. Quem promove a violência são os homens. Se pararem de promover, acabou”, concluiu. 

O 8 de Março chega, assim, não como data comemorativa, mas como convocação à unidade na diversidade — e à ação.

por cezar xavier