Ao longo deste domingo (15), a sensação entre lideranças sociais consultadas pelo Portal Vermelho era de que o ex-presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, não partia — apenas mudava de lugar. “Renato Rabelo, herói do povo brasileiro, presente sempre!”, afirmou a socióloga Angela Guimarães, hoje à frente da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial na Bahia. Aos 83 anos, silenciou-se uma das vozes mais persistentes da esquerda brasileira. Renato morreu no Hospital Albert Einstein, onde estava internado.

Para Angela, ex-presidenta da Unegro (União de Negras e Negros pela Igualdade), Renato foi “o grande dirigente e construtor do PCdoB nos tempos de democracia”, alguém cuja “sensibilidade, generosidade e capacidade de escuta” serviram de bússola para novas gerações.

O Grupo Raça, por meio de seu presidente, Maurício Pestana, lamentou a perda de uma “referência de sabedoria e estratégia política”. “A morte de Renato Rabelo representa uma perda irreparável para a política nacional e para todos aqueles que tiveram a honra de conhecê-lo. Renato deixou uma marca indelével na história do partido e do país, liderando com sabedoria, firmeza e dedicação”. Pestana ainda acrescenta que Renato foi “um conselheiro político de alto gabarito”.

O imprescindível

Há palavras que se repetiram nas homenagens: firmeza, generosidade, formação, juventude.

“Renato é um imprescindível”, declarou Vanja Andrea, presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM). “Uma vida dedicada à formação de lutadores e lutadoras para a construção de um mundo mais justo.” Ela lembrou que o dirigente sempre estimulou a participação das mulheres, ampliando espaços e fortalecendo a organização feminina dentro e fora do partido.

No mesmo tom, Silvana Conti escreveu que Renato “atravessou o tempo como quem semeia o futuro”. A liderança feminista recordou o jovem líder estudantil, a clandestinidade após o AI-5, o exílio, a reconstrução partidária e a sucessão de João Amazonas na presidência do PCdoB, em 2001. “Sua vida foi construção coletiva. Foi firmeza. Foi compromisso histórico.”

Paz, soberania e internacionalismo

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) destacou outra face do dirigente: a dimensão internacionalista. Em nota, o Cebrapaz afirmou que Renato considerava “estratégica a luta pela paz sob uma perspectiva anti-imperialista” e que seu apoio foi decisivo para a fundação da entidade.

“Renato vive!”, concluiu a nota, lembrando sua atuação na defesa da soberania nacional e da solidariedade entre os povos.

Mestre das juventudes

Entre estudantes e jovens lideranças, o sentimento era de orfandade política.

A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, emitiu nota se despedindo de “uma das suas maiores lideranças políticas”. A UNE lembra que Renato foi militante da Juventude Universitária Católica e posteriormente da Ação Popular. Em 1965 foi eleito presidente da União dos Estudantes da Bahia e logo depois vice-presidente da UNE. “Dedicou seus anos em vida à luta coletiva, sendo um dos principais dirigentes e ex-presidente do Partido Comunista do Brasil. Que sigamos a luta de Renato para a construção de um Brasil livre, soberano e independente. Renato presente, hoje e sempre!”

Vinicius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), afirmou que a perda não é apenas partidária, mas nacional. “Renato sempre colocou as necessidades do Brasil acima de qualquer outra coisa.” Lembrou sua defesa permanente da ciência e da tecnologia como motores do desenvolvimento e da redução das desigualdades. “Eu tenho certeza que ele se despede da vida, mas vai muito feliz por saber que a gente tem conseguido cumprir os objetivos políticos de derrotar a extrema direita, de colocar o Brasil no centro do debate”. 

Hugo Silva, presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), resumiu a impressão de quem o escutava: “Renatão era o maior entre nós. Não por critérios rasos, mas por valores inegociáveis. Todas as oportunidades que tive de escutá-lo, ele sempre destacou o papel dos estudantes secundaristas na construção de um novo mundo, sempre colocando a esperança e o jeitinho brasileiro no centro. E é esse o sentimento que eu sempre vou carregar dentro de mim: que éramos vistos pelo maior intelectual comunista vivo que eu já conheci”.

Rafaela Elisiário, presidenta nacional da União da Juventude Socialista (UJS), considera Renato um revolucionário como poucos no Brasil, que abriu caminhos para muitos e muitas. “Deixou essa semente plantada no coração e nas mentes de inúmeras pessoas. Para a juventude, em especial, ele representa esperança e ousadia de quem sempre foi capaz de apresentar as ideias mais avançadas, justas e belas. Nosso compromisso é honrar seu legado, é dar continuidade à sua luta, é manter acesa a chama da luta revolucionária no Brasil, é amar nosso povo como Renato amou.”

O homem que formava

Se houve um traço comum nas memórias, foi o de formador.

Angela Guimarães falou de sua “capacidade de construção de consensos”. Vanja Andrea destacou o incentivo constante às mulheres comunistas. Getúlio Vargas Júnior, da presidente da Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), evocou a imagem do dirigente que empolgava plateias inteiras, mas que, no diálogo pessoal, era “ponderado e tranquilo”.

“Em diversos congressos da Conam, que a gente construiu nesses últimos 25 anos, ele falava sempre que a gente precisava compreender que não ia filiar ao Partido uma pessoa forjada, formada. Que a gente tinha que lapidar as lideranças que estavam na ponta, fazendo as lutas sociais, e esse era o papel do Partido: aproximar a pessoa das nossas pautas, ganhar as pessoas ideologicamente”. 

Os educadores perdem nas suas trincheiras de luta um militante sempre comprometido. Foi como se manifestou a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

“Nas trincheiras da educação, desde muito jovem, envolveu-se intensamente no movimento estudantil em plena ditadura militar — experiência que moldou sua compreensão sobre o papel essencial da escola e da universidade pública como espaços de formação crítica e de exercício da cidadania”, diz a nota.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) referiu-se a Renato como “um gigante do Brasil”. Manifestou seu pesar destacando-o como “um defensor das causas populares e um exemplo inabalável de dignidade revolucionária”, além de um grande e leal amigo.

“Da resistência ferrenha contra a ditadura militar à consolidação da democracia, sua atuação como dirigente do PCdoB foi fundamental para unificar a esquerda brasileira. Foi um dos arquitetos da unidade popular, sempre compreendendo que a força do povo reside na sua capacidade de organização e na clareza ideológica”, afirma a nota.

Entre tantas histórias, ficou a ideia de que Renato Rabelo foi menos um chefe e mais um construtor de quadros, menos um orador de ocasião e mais um estrategista paciente.

Sua morte encerra uma biografia iniciada em Ubaíra, na Bahia, e amadurecida nos embates mais duros da história recente do Brasil. Mas, nas palavras repetidas ao longo deste domingo, o que se despede é o homem; o legado permanece.

por Cezar Xavier