Flávio Bolsonaro “esquece” moderação e reforça uso da mentira em TV francesa
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstrou, mais uma vez, seu despreparo e o uso da mentira como método para engabelar o eleitorado. Em entrevista nesta segunda-feira (9) ao CNews, emissora francesa alinhada à direita, o pré-candidato à presidência da República “esqueceu” a promessa de se apresentar como um versão mais moderada do bolsonarismo – como se isso fosse possível.
Mesmo tendo conhecimento dos avanços que o Brasil vem acumulando desde 2023 — das melhorias na economia à retomada de importantes políticas públicas —, Flávio declarou que o “Brasil não aguenta mais quatro anos” de um governo que ele classificou como sendo de “extrema esquerda”.
Ele também mentiu ao chamar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de “um grande violador dos direitos humanos” e afirmar que o julgamento do seu pai — condenado com outros por tentativa e golpe de Estado — teria sido uma “armação”.
Sem ameaçar abertamente, voltou a tratar do impeachment de ministros do Supremo, desejo que vem sendo acalentado pela extrema direita, que pretende apostar boa parte de suas fichas na eleição do maior número possível de senadores.
“Pela legislação brasileira, somos nós, senadores, que podemos fazer o impeachment de ministros da Suprema Corte brasileira. Portanto, eu sobrevivi até este momento. Em razão do presidente (Jair) Bolsonaro estar inviabilizado de concorrer, ele me indicou para que [eu] pudesse concorrer à Presidência contra o atual presidente da República”, tentou explicar.
Flávio ainda atacou o presidente da França, dizendo que o país europeu também “não aguenta mais um mandato de extrema incompetência como o de Emmanuel Macron”.
Em outro momento, ao falar da Amazônia, investiu em mais uma afirmação fraudulenta. Segundo ele, o bioma teria sido “preservado durante o governo do presidente Bolsonaro” e que agora estaria sofrendo “três anos com recorde de queimadas”.
Mentira como método
A ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo tem como um de seus pilares o uso da mentira de maneira deslavada, mas que repetida à exaustão, especialmente via redes sociais, cria uma impressão de verdade — como disse o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, movimento admirado e por vezes abertamente defendido por seguidores do bolsonarismo.
Por isso, cada fala de Flávio traz a necessidade de um contraponto, a bem da verdade factual. O senador faz parecer que o Brasil enfrenta problemas que, antes, na gestão de seu pai, teriam sido equacionados. Ao contrário, houve uma piora sensível em praticamente (se não todos) os indicadores naqueles quatro anos de desgoverno.
Aos fatos. Para citar apenas alguns exemplos, sob a presidência de Bolsonaro, o Brasil amargou um dos piores índices (terceiro lugar) de mortes e contaminações por Covid-19 de todo o mundo.
A gestão criminosa — ou omissa, para dizer o mínimo — da pandemia deixou um rastro de mais de 700 mil mortes, das quais ao menos 300 mil poderiam ter sido evitadas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Para ficar ainda mais cristalino: embora tenha cerca de 3% da população mundial, o Brasil teve em torno de 13% do total oficial de mortes pela doença.
Na economia, o país também patinava. Apesar de contar com juros mais baixos, a inflação era alta, assim como o desemprego. Medições feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) apontam para uma inflação média entre 27% e 30% na soma do mandato da extrema direita. Hoje, a projeção é que Lula feche seus quatro anos com uma inflação menor do que 20% no quatriênio — se confirmado, será a menor inflação acumulada em quatro anos desde o Plano Real.
Durante o mandato de Bolsonaro, o desemprego variou entre 9% e 15% — no penúltimo ano do terceiro mandato de Lula, ficou em 5%, patamar que já é considerado pleno emprego.
Naquele cenário cuidadosamente construído pelo bolsonarismo, tornou-se comum o noticiário mostrar filas de pessoas esperando para poder conseguir ossos para a própria alimentação, ou catando restos de comida em lixos. Em 2021, o Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU, após ter saído em 2014.
Políticas públicas que vinham trazendo melhorias à vida da população — como o Bolsa Família, o Farmácia Popular e o Minha Casa, Minha Vida (MCVM), entre outras — foram desmontadas, desvirtuadas ou extintas (caso das políticas voltadas às mulheres, à juventude, aos negros e aos LGBTs).
O Bolsa Família foi transformado em Auxílio Brasil, sem as condicionantes estabelecidas pelo formato anterior, e passou a ser um antro de fraudes. Vale lembrar que o valor de R$ 600 que passou a ser pago foi resultado da pressão da esquerda para que os brasileiros tivessem o básico para a sobrevivência durante a pandemia (Bolsonaro cogitava um abono de apenas R$ 100).
Cortes feitos pelo governo Bolsonaro praticamente inviabilizaram a manutenção do Farmácia Popular tal como era. Ao mesmo tempo, o MCMV foi transformado em um arremedo de programa habitacional, com baixíssimos índices de entrega. O SUS também sofreu cortes bilionários, inclusive durante a pandemia.
Em seu mandato, o desmatamento bateu recordes, especialmente na Amazônia, e viu-se a invasão de diversos pontos da região, inclusive áreas indígenas, por garimpo ilegal — crimes para os quais o governo Bolsonaro fazia vista grossa, quando não incentivava diretamente com a política do “passar a boiada”.
Em 2022, por exemplo, apontou para a maior alta (60%) no desmatamento da Amazônia durante o governo Bolsonaro. Já no período Lula 3, o desmatamento tem apresentado tendência de queda em todo de 42%.
Fraudes e corrupção
Isso tudo sem falar no “libera geral” das armas de fogo (que têm alimentado o crime organizado); nos casos de corrupção, desvios e fraudes — que os seguidores do bolsonarismo fingem não ver.
Dentre os exemplos, estão a fraude no INSS (iniciada ao menos em 2020 e apenas investigada a partir do governo Lula, em 2023); a apropriação e venda ilegal de joias e presentes luxuosos dados à Presidência da República, cujos valores giram em torno de R$ 6 milhões, segundo investigações da Polícia Federal; as denúncias envolvendo superfaturamento e irregularidades nas negociações da vacina Covaxin, para a Covid-19; a farra das emendas de relator, que originaram o orçamento secreto; o controle na liberação de recursos do Ministério da Educação por pastores aliados, entre muitos outros.
Todos esses fatos, somada à patética atuação da família Bolsonaro no plano internacional, transformaram o Brasil em motivo de chacota e o colocaram na posição de pária no concerto das nações, imagem que só foi desfeita com o retorno de Lula e a volta de uma diplomacia ativa e altiva, com respeito à própria soberania e dos demais países.
Quanto às acusações contra Moraes e o STF, ficou claro, ao longo do processo, que Bolsonaro e seu entorno durante o governo (inclusive militares de alta patente) trabalharam arduamente para descredibilizar o sistema eleitoral e se manter no poder, mesmo após a vitória de Lula em 2022, processo que culminou na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. A ação julgada é farta em materiais que mostram, passo a passo, como foi toda a trama golpista.
O julgamento e condenação dos culpados seguiu os trâmites legais, conforme apontaram magistrados e especialistas, com amplo direito à defesa. O cumprimento da pena está sendo conduzido com atenção aos problemas de saúde apresentados por Bolsonaro e pelo general Augusto Heleno.
Qualquer pesquisa em sites de busca e veículos de comunicação desmonta os argumentos de Flávio e companhia. E isso porque nem foram abordados aqui fatos nada abonadores envolvendo o senador, conforme investigações e reportagens feitas nos últimos anos. Mas, sabedores de que seus eleitores se alimentam justamente do ódio e da mentira e que boa parte parece sofrer de grave dissonância cognitiva, os bolsonaristas jogam para a plateia ainda que o preço seja sacrificar a verdade. A entrevista à tevê francesa é apenas um aperitivo do que esperar da disputa presidencial deste ano.




