Entrelinhas Vermelhas discute Gaza como laboratório da nova ordem mundial

A edição especial desta quinta-feira (5) do Entrelinhas Vermelhas, exibida nos canais do Portal Vermelho no YouTube e no Spotify, propôs um mergulho analítico na questão palestina, articulando geopolítica, direito internacional e luta política. Sob mediação de Inácio Carvalho, o programa reuniu o professor Ronaldo Carmona, especialista em Direito e Geopolítica Internacional e docente da PUC-SP; o professor e analista internacional Reginaldo Nasser; e Yoav Goldring, dirigente do Partido Comunista de Israel.
Mais do que um debate conjuntural, a edição se propôs a analisar Gaza e a Palestina como síntese de conflitos históricos, coloniais e geopolíticos que extrapolam a região e interpelam a ordem global construída após a Segunda Guerra Mundial.
ONU esvaziada e transição da ordem mundial
Ronaldo Carmona destacou a perda de autoridade do sistema multilateral, em especial do Conselho de Segurança da ONU. Para ele, a organização vive hoje uma “ficção institucional”, incapaz de impor cessar-fogo ou coibir violações graves do direito internacional.
Segundo o professor, essa paralisia está ligada à transição da ordem mundial: não há mais uma potência hegemônica capaz de impor regras estáveis, nem um consenso mínimo entre as grandes potências. Nesse contexto, resoluções da ONU assumem caráter sobretudo simbólico, com eficácia “próxima de zero”, dadas as divisões entre os membros permanentes.
China, Rússia e o novo tabuleiro geopolítico
Carmona avaliou que, fora do sistema multilateral formal, China e Rússia exercem peso substantivo na disputa global. A aliança entre os dois países, segundo ele, constitui o “grande pesadelo” da geopolítica norte-americana, pois reúne os dois principais polos de poder da Eurásia.
O analista lembrou que a guerra na Ucrânia deve ser entendida como um conflito por procuração entre Rússia e OTAN, e que a condenação sino-russa aos ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã revela fissuras profundas na arquitetura de poder construída após a Guerra Fria.
Gaza, colonialismo e a lógica da força
Ao tratar da ofensiva israelense em Gaza, Carmona foi categórico ao afirmar que se trata de um genocídio inserido numa longa história de colonialismo por povoamento. Para ele, a estratégia do governo Netanyahu está ancorada na ideia do “Grande Israel”, que rejeita qualquer solução para a questão palestina e aposta na expansão territorial contínua.
O professor destacou a assimetria extrema de forças: de um lado, Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos e potências ocidentais; do outro, a Palestina, sem Estado, sem proteção efetiva e sem capacidade de dissuasão. Nessa correlação, afirmou, “não há freio”, o que explica a brutalidade da ofensiva e a destruição sistemática de Gaza.
A memória dos povos e o limite da repressão
Carmona alertou ainda para o erro estratégico de Israel ao apostar na eliminação permanente da resistência palestina. Segundo ele, a memória coletiva dos povos impede que massacres e destruição sejam apagados: novas gerações tendem a retomar a luta, ainda que sob outras formas.
O analista observou também um fenômeno paradoxal: enquanto governos ocidentais mantêm apoio a Israel, cresce a mobilização popular em países como Itália, França, Austrália e Estados Unidos, revelando uma crise das democracias representativas, cada vez mais distantes das ruas.
A leitura regional de Reginaldo Nasser
O professor Reginaldo Nasser reforçou a análise estrutural do conflito, destacando que a retórica de “combate ao Hamas” encobre uma política mais ampla de limpeza étnica, visível tanto em Gaza quanto na Cisjordânia. Para ele, os ataques de colonos, a destruição de casas e plantações e a expansão dos assentamentos demonstram que o objetivo vai além da segurança: trata-se de inviabilizar qualquer possibilidade de Estado palestino.
Nasser sublinhou que a Cisjordânia se tornou um dos maiores obstáculos à solução de dois Estados, justamente pela fragmentação territorial produzida pelos assentamentos, apoiados direta ou indiretamente pelo Estado israelense.
A visão do Partido Comunista de Israel
Yoav Goldring trouxe ao debate a perspectiva de setores da esquerda israelense. Segundo ele, o Partido Comunista de Israel defende há décadas a criação de um Estado palestino soberano, nas fronteiras de 1967, com retirada total dos assentamentos, Jerusalém como cidade de duas capitais e uma solução justa para o direito de retorno dos refugiados, conforme resoluções da ONU.
Goldring destacou que cerca de 20% da população de Israel é composta por árabes palestinos, submetidos a um regime de discriminação que ele classificou como apartheid. Para o dirigente, a luta não é pela negação da autodeterminação israelense, mas contra a definição de Israel como um Estado exclusivo dos judeus, em detrimento da igualdade de direitos.
Palestina como síntese das lutas globais
Ao longo da edição, consolidou-se a ideia de que a Palestina é mais do que um conflito regional: é um laboratório da nova ordem — ou desordem — mundial. A repressão às manifestações pró-Palestina em países ocidentais, contrastando com o crescimento da mobilização popular, evidencia também a crise das democracias liberais representativas.
Como sintetizou Carmona, a questão palestina “condensa” as grandes lutas do nosso tempo. E, como ressaltaram os convidados, enquanto não houver pressão política efetiva e mobilização internacional, o conflito seguirá expondo, de forma brutal, a falência da ordem mundial construída no pós-Segunda Guerra.
Nesse sentido, Entrelinhas Vermelhas não apenas analisou o conflito, mas situou Gaza como hipérbole das contradições do capitalismo global, do colonialismo persistente e do esgotamento das estruturas políticas construídas no pós-guerra. Uma edição que reforça a Palestina como epicentro simbólico e material das lutas do século XXI.
por Cezar Xavier




