Contra o genocídio econômico, movimentos se mobilizam em defesa de Cuba
Movimentos sociais se solidarizam com Cuba contra o bloqueio dos EUA ao petróleo para o país
O governo dos Estados Unidos deu mais um passo agressivo em sua histórica campanha de asfixia contra Cuba. Nesta quinta-feira (26), às 17h, o programa Entrelinhas Vermelhas dedica uma edição especial para dissecar a nova rodada de medidas impostas pelo presidente Donald Trump, que visam estrangular o fornecimento de energia na ilha e aprofundar o isolamento econômico.
Com a participação da cientista política Ana Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, e do economista norte-americano David Adler, coordenador da Internacional Progressista, o debate transcende a denúncia diplomática para revelar os mecanismos concretos do que especialistas já classificam como um “genocídio econômico”.
Assista à íntegra do programa:
A doutrina Trump e o cerco energético
A análise do programa parte de um fato concreto e alarmante: a emissão de novas ordens executivas que autorizam o confisco de navios — inclusive privados — que tentem levar petróleo a Cuba. Segundo Ana Prestes, essa medida não é isolada, mas parte de um contexto mais amplo de reaplicação da Doutrina Monroe sob uma ótica moderna e brutal.
“O aperto maior sobre Cuba faz parte de um foco do Departamento de Estado sobre a América Latina e o Caribe”, explica ela, citando também a pressão sobre a Venezuela e acordos militares com países vizinhos como estratégia de cerco regional.
David Adler complementa a análise destacando a natureza tridimensional dessa potência imperial: o controle hegemônico do comércio internacional, a exclusão de Cuba do sistema financeiro global (dólar) e a militarização do bloqueio.
“Não é somente um bloqueio comercial. Agora, os Estados Unidos estão confiscando barcos que querem prover petróleo, mostrando que essa multipolaridade que muitos imaginavam é, na prática, desafiada por um ‘bluff’ [blefe] total de força unilateral”, afirma Adler. O impacto direto no cotidiano cubano é severo, agravando apagões, dificultando o transporte e comprometendo serviços essenciais de saúde e educação.
Solidariedade como arma de resistência
Diante da ofensiva, a resposta organizada da sociedade civil global ganha centralidade no debate. O programa detalha a iniciativa da Internacional Progressista de organizar um comboio de solidariedade, batizado de “Nuestra América”, com chegada prevista para Havana no dia 21 de março. Diferente de ações puramente diplomáticas, esta mobilização busca romper o cerco físico e político.
“Estamos chamando partidos, sindicatos e movimentos sociais para convergir em Havana, seja por via marítima ou aérea, levando ajuda humanitária como painéis solares, medicamentos e alimentos”, descreve Adler. A estratégia visa não apenas entregar suprimentos críticos, mas, principalmente, quebrar o isolamento imposto por Washington, demonstrando que “Cuba não está só”.
Ana Prestes reforça que, no Brasil, entidades como a UNE (União Nacional dos Estudantes), a CTB (Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e diversos comitês de solidariedade já articulam a arrecadação de recursos e a formação de delegações para marcar presença neste ato histórico.
O paradoxo da multipolaridade e a resiliência cubana
Um dos pontos mais didáticos da conversa é a reflexão sobre o cenário geopolítico atual. Apesar da condenação quase unânime do bloqueio na Assembleia Geral da ONU (com 188 países contra os EUA e Israel), a conversão desse apoio diplomático em ação concreta ainda enfrenta obstáculos. Adler aponta a distância entre a “palavra e a ação” na política internacional, criticando a paralisia de mecanismos multilaterais como a Celac e a Unasul, enquanto potências regionais e globais hesitam em furar o bloqueio de forma decisiva.
Contudo, a resiliência do povo cubano permanece como o pilar central da resistência. Os convidados discutem como a Revolução Cubana conseguiu forjar uma consciência coletiva baseada na solidariedade e no valor da vida humana, permitindo que a população suporte décadas de privações sem sucumbir à submissão.
“É preciso celebrar a resistência, mas também lembrar que os cubanos têm o direito de viver em paz, sem precisar ser sempre os mais resilientes”, pondera Adler, defendendo o direito ao desenvolvimento soberano.
O Entrelinhas Vermelhas encerra a edição com um chamado urgente: a defesa de Cuba não é apenas uma questão de política externa, mas uma trincheira fundamental na luta contra o imperialismo e pela soberania dos povos do Sul Global.
Como conclui Ana Prestes, “todo ataque a Cuba é um ataque às causas mais justas da humanidade”, e a vitória da soberania popular na ilha depende da mobilização imediata e contínua da solidariedade internacional.
(por Cezar Xavier)




