Blocos vermelhos mostram que carnaval também é resistência
Bloco Tô no Vermelho – Claudio Gonzalez
A edição desta quinta-feira (12) do programa Entrelinhas Vermelhas mergulha na história de dois blocos que traduzem, em ritmo e ironia, a presença histórica da esquerda no carnaval brasileiro.
O ponto de partida são imagens de arquivo dos Meninos da Albânia, fundado em Maceió em 1986, no calor da redemocratização. O nome, criado como tentativa de deboche por adversários políticos após a eleição municipal de 1985, foi ressignificado pela militância do PCdoB e transformado em estandarte carnavalesco.
A provocação virou bloco. E o bloco virou marco da retomada do carnaval de rua na capital alagoana, com desfiles no Banho de Mar à Fantasia e na sexta pré-carnavalesca, combinando sátira política, músicas autorais e crítica social.
Samba, marchinha e crítica social
O programa recebe Enio Lins, um dos articuladores dos Meninos da Albânia, e Railídia Carvalho, cantora, jornalista e fundadora do bloco paulistano Tô no Vermelho, que completa 15 anos em 2026.
Ambos reforçam que carnaval e esquerda “dão samba” — e frevo, coco, marchinha. Desde os anos 1940, comunistas participam ativamente da cultura carnavalesca, seja na organização de escolas de samba no Rio, seja na criação de blocos com identidade política espalhados pelo país.
Nos Meninos da Albânia, a marca sempre foi a composição própria ligada à conjuntura. Em 1986, o bloco levou às ruas músicas como “Cometa Constituinte”, alusiva à Assembleia Nacional Constituinte, e “Emissário Submarino”, crítica bem-humorada a problemas ambientais em Maceió.
Já o Tô no Vermelho construiu sua trajetória em São Paulo com marchinhas que ironizam o autoritarismo, defendem soberania nacional e denunciam desigualdades. A mais recente, “Aqui não é Brasil Laranjão”, satiriza Donald Trump e a extrema direita, reafirmando a tradição da crítica política no carnaval.
Entre mercado e cultura popular
A conversa também expõe as transformações estruturais do carnaval. O processo de profissionalização, iniciado com a consolidação das escolas de samba como grandes espetáculos, redefiniu custos, exigências técnicas e ocupação do espaço público.
Segundo Enio, os Meninos da Albânia enfrentaram não censura política, mas “censura de mercado”: a pressão por formatos mais comerciais, alinhados ao modelo de trios elétricos e grandes patrocínios, acabou inviabilizando o bloco após duas décadas de desfile.
Railídia aponta dinâmica semelhante em São Paulo. A mercantilização do carnaval de rua, combinada à política de editais restritivos e à criminalização de blocos “clandestinos”, impõe obstáculos adicionais às iniciativas independentes, sobretudo nas periferias.
Enquanto grandes eventos patrocinados concentram visibilidade e recursos, blocos comunitários dependem de rifas, doações e trabalho voluntário para permanecer nas ruas.
Cultura como disputa política
O debate deixa claro que o carnaval é também território de luta simbólica. Letras, enredos e performances funcionam como instrumentos de memória e crítica.
Se na década de 1980 a pauta era a Constituinte e os desdobramentos da redemocratização, hoje entram em cena temas como soberania, direitos sociais e enfrentamento à extrema direita.
Ao recuperar trajetórias, marchinhas e episódios históricos, a edição desta quinta reafirma que, no Brasil, a folia nunca esteve dissociada da política. Entre serpentinas e sátiras, blocos vermelhos seguem lembrando que ocupar as ruas é, também, disputar narrativas.
por Cezar Xavier




