Três anos após o 8 de Janeiro, manifestações reafirmam: Sem anistia!
Brasília (DF), 08/01/2026 – Manifestação durante a cerimônia relativa aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e assinatura do veto integral ao PL da Dosimetria, em frente ao Palácio do Planalto. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
O dia 8 de janeiro voltou a ocupar o centro do debate político nacional nesta quinta-feira (8), três anos após a tentativa de golpe de Estado que marcou a história recente do país. Atos em Brasília e em dezenas de cidades reafirmaram a defesa da democracia, a necessidade de punição aos responsáveis e a rejeição a qualquer forma de anistia aos envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes, em 2023.
As manifestações tiveram caráter político e simbólico, com forte presença de parlamentares, lideranças estudantis e representantes de partidos e movimentos do campo democrático e popular.
Nesta mesma quinta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou na íntegra o Projeto de Lei da Dosimetria, que previa a redução das penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente preso, de outros envolvidos na chamada “trama do golpe”.
Encerradas as atividades em Brasília, o presidente Lula desceu a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de ministros e representantes dos Três Poderes, em um gesto simbólico de unidade institucional, diante de uma instalação formada por vasos de flores que desenhavam a palavra “democracia”.


Parlamentares reforçam caráter golpista dos ataques
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) destacou que os acontecimentos de 8 de janeiro não podem ser relativizados. “Há três anos, o Brasil assistiu a uma tentativa criminosa de rasgar a Constituição e ferir mortalmente a democracia. Não foi protesto, foi golpe; não foi desinformação, foi crime organizado”, afirmou. Para ela, o julgamento e a punição dos responsáveis reafirmam que “no Estado Democrático de Direito não há espaço para a violência política nem para o autoritarismo”.
No mesmo sentido, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) ressaltou que a democracia resistiu à ofensiva golpista. “Hoje completamos três anos do dia em que a democracia brasileira resistiu. Golpistas invadiram e depredaram as sedes dos Poderes, sob ordens de Bolsonaro. Pouco menos de três anos depois, a justiça foi feita”, disse, alertando que a vigilância precisa ser permanente. “O grito em todo o país é um só: sem anistia para golpistas.”
Veto ao PL da Dosimetria como marco democrático
Em Brasília, as manifestações coincidiram com o ato institucional de veto ao Projeto de Lei da Dosimetria, promovido pelo governo federal. A proposta reduzia penas e flexibilizava a progressão de regime para condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito.
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O deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) classificou o veto como uma vitória da democracia. “É um ato de repúdio total à tentativa de golpe militar. O veto à lei da dosimetria é mais uma vitória da democracia brasileira. Para nunca mais repetir. Sem anistia”, afirmou.
Extremismo não pode ser esquecido nem perdoado
O deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) destacou que os ataques de 2023 foram planejados e dirigidos. “Teve plano. Teve comando. A democracia resistiu por um triz. Por isso, o 8 de janeiro jamais deve ser apagado da memória. Jamais deve ser perdoado. Golpe nunca mais”, declarou.
Na mesma linha, o deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA) afirmou que o episódio simboliza tanto a agressão quanto a capacidade de reação das instituições. “Foi o dia em que a democracia brasileira foi agredida covardemente, reagiu e venceu a tentativa de golpe. Viva a democracia. Sem anistia”, disse.
Juventude e entidades reforçam defesa da democracia
A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, definiu o 8 de janeiro como um marco de vitória democrática. “Hoje é o dia da vitória da democracia brasileira. A democracia triunfa com memória e triunfa com justiça”, afirmou, ao celebrar o veto presidencial ao PL da Dosimetria. Segundo ela, a democracia “se constrói com justiça e com reparação”.
Entidades como as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, centrais sindicais e partidos de esquerda lideraram as mobilizações, que também incorporaram pautas internacionais, como a defesa da soberania dos povos latino-americanos e críticas às ações militares dos Estados Unidos na região.
Manifesto em Defesa da Democracia, da Justiça e da Soberania Nacional

Um manifesto lançado na capital paulista foi lido em um ato na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). “Três anos após frustrada tentativa de golpe de Estado e do plano de assassinato de um presidente da República eleito, seu vice e de um ministro da Suprema Corte, o dia 8 de janeiro é a data nacional de celebração da vitória da democracia, pois a memória é fundamental para que novos atos desse tipo não sejam tolerados”, diz o texto.
O Manifesto em Defesa da Democracia, da Justiça e da Soberania Nacional foi escrito em conjunto pelo grupo de advogados Prerrogativas, pelo setorial jurídico do Partido dos Trabalhadores de São Paulo e pelo Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP. O documento recebeu apoio de movimentos sociais, partidos políticos e advogados.
“Pela primeira vez em nossa história, nós, brasileiras e brasileiros, pudemos presenciar, após um julgamento justo e legalmente realizado pelo Supremo Tribunal Federal, a prisão pelos crimes de atentado ao Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado de todos aqueles que colaboraram, executaram e organizaram as tentativas frustradas de ruptura institucional”, continua o texto.
O documento ainda faz referência à atual conjuntura internacional, marcada pelas agressões dos Estados Unidos contra a Venezuela.
“O dia de hoje marca primeiramente uma festa cívica e histórica em defesa da democracia. Deve, porém, ser também uma data na qual todos nós, brasileiras e brasileiros, redobramos as atenções diante de toda e qualquer ameaça interna ou externa ao estado democrático de direito brasileiro e à nossa soberania nacional”.
Antes da leitura do documento, o ex-deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia (União Brasil) causou um tumulto em uma das entradas do Salão Nobre, onde o evento foi realizado. Ele e seus parceiros foram retirados do recinto aos gritos de “recua, fascista, recua”.
Atos em todas as regiões do país
As manifestações ocorreram ao longo do dia em capitais como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e Belém, além de diversas cidades do interior. Em comum, os atos reafirmaram o compromisso com a memória do 8 de janeiro, a defesa das instituições democráticas e a rejeição a qualquer tentativa de reabilitar politicamente os responsáveis pela tentativa de golpe de 2023.

Centrais sindicais e movimentos sociais fizeram um ato em defesa da democracia na Cinelândia, região central do Rio de Janeiro. Para os sindicalistas presentes, de diversas correntes, a data simboliza a necessidade de vigilância permanente e também destacaram o papel das condenações como exemplo histórico.
Foi criticada em discursos qualquer iniciativa de perdão aos envolvidos. Militantes e lideranças de movimentos sociais defenderam que Lula vetou o projeto, mas ele deve voltar para o Congresso, exigindo mobilização nas ruas para pressionar o parlamento “contra esse benefício aos que querem roubar a democracia”.

Manifestantes, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais se reuniram na praça Fuad Noman, no Centro de Belo Horizonte. Com cartazes a favor do veto do presidente Lula ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, o protesto também contou com bandeiras e faixas em defesa da Venezuela e contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em Recife, o ato pró-democracia aconteceu na Rua Sete de Setembro, no Centro. A manifestação começou por volta das 15h e seguiu pela movimentada Avenida Conde da Boa Vista. Aos gritos de ‘sem anistia’, os manifestantes também se mostraram contra o bombardeio do governo dos Estados Unidos, em Caracas, na Venezuela, ocasião em que foi sequestrado Nicolás Maduro.

Em Natal, a mobilização ocorreu a partir das 15h em frente ao Midway Mall, no cruzamento das avenidas Nevaldo Rocha e Salgado Filho, na zona Sul da capital potiguar. Em postagens nas redes, organizadores e apoiadores divulgaram mensagens com defesa do Estado Democrático de Direito e o lema “golpe nunca mais”, enquanto participantes se reuniram no local com faixas e palavras de ordem.
por Cezar Xavier




