Entrelinhas Vermelhas traz política monetária e juros altos ao centro da crítica
Ato “Menos juros, mais empregos” em 18 de março de 2025. Foto: CTB
A nova edição do Entre Linhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (29) pelo Portal Vermelho no YouTube e no Spotify, colocou a economia no centro do debate político nacional. Conduzido por Inácio Carvalho, o programa reuniu um time de peso — entre eles Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Nogueira Batista Júnior, Orlando Silva, Marcelo Manzano e Sérgio Gabrielli — para discutir juros, autonomia do Banco Central, justiça tributária, política industrial e o avanço do capitalismo das big techs.
Ao longo de mais de uma hora, o programa construiu uma crítica consistente ao atual arranjo macroeconômico brasileiro, apontado como um dos principais fatores de bloqueio ao crescimento, à redução das desigualdades e à soberania nacional.
Autonomia do Banco Central sob ataque
Logo no início, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo questionou o conceito de autonomia do Banco Central, argumentando que a instituição se afastou do controle democrático sem se tornar, de fato, independente. Para ele, o BC foi “capturado pelo mercado financeiro”, passando a responder mais às expectativas do setor rentista do que às necessidades sociais e ao programa eleito nas urnas.
Belluzzo lembrou que, historicamente, bancos centrais tiveram papel ativo na promoção do bem-estar social no pós-guerra, algo abandonado nas últimas décadas. Na sua avaliação, o atual modelo tende a levar a economia a uma recessão profunda, cujo custo social poderá forçar, mais adiante, uma reforma estrutural do sistema.
Juros altos, dívida pública e concentração de renda
Paulo Nogueira Batista Júnior aprofundou a crítica ao destacar os efeitos colaterais dos juros elevados. Embora reconheça algum impacto no controle inflacionário via câmbio, ele ressaltou que a taxa de juros no patamar atual desacelera a economia, pressiona fortemente a dívida pública e aprofunda a concentração de renda.
Segundo o economista, a despesa com juros já consome cerca de 9% do PIB, beneficiando sobretudo ricos e super-ricos detentores de ativos financeiros. Trata-se, segundo ele, de um “paraíso do rentista”, que ainda fragiliza o país ao permitir a fuga rápida de capitais em momentos de instabilidade.
Justiça tributária e disputa no Congresso
O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) abordou a agenda da justiça tributária, defendendo a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a taxação dos super-ricos. Para ele, o sistema tributário brasileiro é regressivo e penaliza trabalhadores que já pagam impostos elevados sobre consumo, enquanto grandes fortunas se beneficiam de brechas legais.
Orlando criticou duramente o poder do lobby financeiro e empresarial no Congresso, apontando que a resistência à tributação de lucros e dividendos é um “escândalo” que trava o financiamento de políticas públicas e o cumprimento do programa eleito pela população.
Compras públicas e política industrial
Marcelo Manzano destacou o papel estratégico das compras governamentais como instrumento de desenvolvimento, rebatendo críticas neoliberais. Para ele, o Estado é capaz de induzir mercados, estimular setores estratégicos e garantir demanda — como já ocorre no SUS e na agricultura familiar.
O economista também avaliou a política da Nova Indústria Brasil como um avanço ao ser orientada por “missões” e necessidades sociais, e não apenas por interesses setoriais. Ainda assim, alertou que o sucesso da neoindustrialização depende fortemente de mudanças na macroeconomia, sobretudo na política de juros e câmbio.
Big techs, energia e soberania
Sérgio Gabrielli trouxe ao debate a transformação do capitalismo contemporâneo com a ascensão das big techs. Segundo ele, em pouco mais de uma década, as maiores empresas do mundo deixaram de ser industriais ou petroleiras para se tornarem plataformas de dados, comunicação e inteligência artificial.
Gabrielli chamou atenção para o enorme consumo de energia e recursos naturais dos data centers, além do poder dessas empresas sobre fluxos financeiros, meios de pagamento e controle da informação. Nesse contexto, citou o PIX, os sistemas alternativos ao SWIFT e as iniciativas dos BRICS como disputas centrais pela soberania econômica no século XXI.
Um programa que articula economia e democracia
Ao final, o Entrelinhas Vermelhas reforçou a ideia de que o debate econômico não é técnico nem neutro, mas profundamente político. Juros, orçamento, tecnologia e tributação aparecem como campos de disputa entre projetos de país antagônicos.
A edição desta quinta-feira se consolida como uma síntese crítica da semana do Portal Vermelho, ao articular economia, poder e democracia, e ao defender que sem enfrentar o rentismo, a financeirização e a captura do Estado, o Brasil seguirá condenado a ciclos de estagnação e desigualdade.
por Cezar Xavier




