O comunista António Filipe foi deputado em 11 legislaturas e é uma das figuras mais consensuais do partido

A candidatura de António Filipe às eleições presidenciais portuguesas de janeiro de 2026 se apresenta como a única assumidamente de esquerda no pleito, com os “valores de Abril” e a defesa intransigente da Constituição da República Portuguesa como pilares centrais. Lançado pelo Partido Comunista Português (PCP), Filipe propõe uma Presidência ativa, capaz de barrar medidas que considera lesivas aos trabalhadores e aos serviços públicos.

Sua plataforma rejeita frontalmente o neoliberalismo, defendendo investimentos em saúde, habitação, educação e valorização salarial. “Não queremos um Presidente decorativo, mas um garante dos direitos fundamentais”, afirma Luísa Moura, socióloga e mandatária da campanha no Brasil em entrevista ao Portal Vermelho.

Em Portugal, o presidente tem ação restrita ao delegar o governo executivo ao primeiro-ministro, podendo trocá-lo, dissolver o Parlamento e vetar leis. Diferente de sistemas puramente parlamentaristas (onde o papel é cerimonial) ou presidencialistas (onde o presidente chefia o Governo), o papel do Presidente português é de moderação, fiscalização e representação.

A socióloga Luiza Moura

Segundo Luísa Moura, a marca distintiva da candidatura de António Filipe às eleições presidenciais de 2026 é a defesa intransigente dos valores da Revolução de Abril (conhecida também como Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura do Estado Novo) e do cumprimento da Constituição da República Portuguesa. A proposta afirma-se como alternativa clara às candidaturas de direita.

Trajetória que dá lastro ao projeto do PCP

Com mais de três décadas de atuação parlamentar — desde 1989 — e formação jurídica sólida (licenciado, mestre e doutorando em Direito), António Filipe traz para a disputa presidencial uma trajetória marcada pela coerência com os princípios comunistas. Membro do Comitê Central do PCP desde 1992, já foi vice-presidente da Assembleia da República e participou de diversas comissões técnicas, consolidando-se como uma das vozes mais experientes do arco parlamentar.

Sua personalidade firme e assertiva, aliada à proximidade com as lutas sociais, busca ampliar o alcance da candidatura além da base tradicional do partido. “Sou do PCP, não escondo e não vou entregar o cartão”, diz Filipe, ao mesmo tempo em que se propõe a unir democratas progressistas contra o avanço da direita e da extrema direita.

A socióloga destaca que a longa experiência parlamentar de António Filipe confere solidez institucional à candidatura. Jurista, o candidato reforça a centralidade da Constituição no discurso comunista e projeta a imagem de um PCP preparado para intervir com rigor técnico e coerência política.

Para Luísa, a personalidade de António Filipe combina firmeza ideológica e proximidade social. O candidato comunista defende um presidente ligado à vida real das pessoas, capaz de unir democratas na luta contra a direita e a extrema direita, sem abdicar dos princípios históricos do PCP.

Habitação, saúde e poder de compra dominam o debate

Em um cenário de instabilidade política após as legislativas antecipadas de 2025, os principais temas da campanha giram em torno da crise da habitação, do colapso do Serviço Nacional de Saúde (SNS), da erosão do poder de compra e da ética na política. A imigração também ganhou destaque, com debates acalorados sobre a lei da nacionalidade e segurança nas fronteiras.

Filipe critica duramente a dependência do turismo como motor econômico e propõe uma reindustrialização focada na agricultura, pesca e produção nacional. “O futuro dos jovens não pode ser a emigração forçada ou empregos sazonais”, alerta.

Quanto à União Europeia, o PCP defende uma ruptura com as imposições neoliberais e federalistas do bloco, propondo uma “Europa de Estados soberanos”. Embora não defenda formalmente um “Portugal fora da UE”, rejeita tratados como o Acordo UE-Mercosul e critica o orçamento europeu por priorizar armamento em vez de investimentos sociais.

Relação crítica com a União Europeia e a Otan

A entrevista ressalta a posição do PCP de ruptura com as imposições da União Europeia, em defesa da soberania nacional. O partido critica o euro, os tratados europeus e o aumento dos gastos militares no âmbito da Otan, propondo uma política externa orientada pela paz, pelo multilateralismo e pela cooperação entre Estados soberanos.

Uma alternativa econômica ao modelo do turismo

António Filipe propõe uma mudança estrutural na economia portuguesa, reduzindo a dependência do turismo e investindo na produção nacional, na reindustrialização e na valorização dos salários. A ideia central é combater a precariedade e a emigração forçada de jovens, fortalecendo o mercado interno e os serviços públicos.

Desinformação e defesa da democracia

Luísa Moura alerta para o avanço da desinformação no processo eleitoral português, com uso de inteligência artificial e narrativas falsas sobre imigração e fraude eleitoral. Para enfrentar a erosão democrática sem cair no autoritarismo, a candidatura defende o fortalecimento das instituições, da sociedade civil e da educação democrática.

Diante do crescimento de campanhas de desinformação — incluindo deepfakes e interferência externa —, a candidatura insiste na necessidade de fortalecer a resiliência democrática. Para isso, aposta na aplicação rigorosa da legalidade, na independência dos poderes e na proteção do pensamento crítico.

“A democracia se defende com mais democracia, não com exceções”, ressalta Moura, destacando a importância da educação cívica e da participação popular como antídotos contra discursos extremistas.

O legado do PCP em disputa

Por fim, a socióloga avalia que a candidatura de António Filipe reafirma o legado histórico do PCP na defesa do trabalho, dos serviços públicos e da justiça social. Mesmo diante de dificuldades eleitorais recentes, o partido aposta na mobilização política como forma de resistência e de afirmação dos valores de Abril no atual ciclo político português.

Apesar da perda de influência eleitoral nos últimos anos — com a Coligação Democrática Unitária (a aliança política de esquerda) enfrentando derrotas em antigos redutos —, o PCP insiste em manter viva sua identidade ideológica. A candidatura de António Filipe é vista como um esforço de resistência, buscando mobilizar trabalhadores, jovens e pensionistas em torno de propostas concretas: salário mínimo de 1.050 €, aumento de 75 € nas pensões, fim de pedágios e defesa da escola e saúde públicas.

Num momento em que a direita avança e a fragmentação política se aprofunda, o partido aposta que, ainda que sua presença na corrida presidencial reacenda o debate sobre justiça social, soberania e os ideais de Abril — garantindo que a esquerda se fortaleça do mapa político português.

Leia a íntegra da entrevista com Luiza Moura:

Que marca distintiva a candidatura do PCP traz ao atual quadro eleitoral e em que difere das restantes candidaturas à Presidência da República?

A marca distintiva da candidatura de António Filipe às eleições presidenciais portuguesas de 2026 é a defesa intransigente dos “valores de Abril” e do cumprimento da Constituição da República Portuguesa. 

Apoiada pelo Partido Comunista Português (PCP), sua campanha se posiciona como uma alternativa de esquerda focada nos pilares da Defesa da Constituição, que propõe uma presidência ativa que garanta o respeito pelos direitos fundamentais e impeça medidas que considere lesivas aos trabalhadores.

Faz oposição ao neoliberalismo. Define-se por uma linha de “inconformismo” contra as políticas neoliberais de governos recentes, defendendo o investimento em serviços públicos (saúde e habitação) e a valorização de salários.

Filipe também defende a representatividade da Esquerda. Sua candidatura busca ocupar um espaço político que, segundo o candidato, estava órfão de representação, visando agregar eleitores democratas e progressistas que não se sentem representados nas candidaturas de direita.

Também defende o pilar da soberania e justiça social, pois enfatiza a independência nacional, a igualdade e a justiça social como elementos centrais de seu projeto para o país. 


Como a trajetória e a personalidade de António Felipe agregam ao projeto eleitoral do PCP?

A trajetória e a personalidade de António Filipe agregam ao projeto do Partido Comunista Português (PCP) principalmente através da sua vasta experiência parlamentar, conhecimento jurídico e uma postura pública firme e coerente com os ideais do partido, o que reforça a imagem do PCP como uma força política séria e comprometida. 

António Filipe é descrito como detentor de uma experiência parlamentar “sem igual em Portugal”, tendo sido deputado desde 1989 e ocupado cargos de destaque, como Vice-Presidente da Assembleia da República e membro de diversas comissões parlamentares. Essa longevidade e expertise agregam credibilidade à capacidade do PCP de atuar dentro das instituições democráticas, defendendo suas posições com conhecimento técnico e processual. 

Sendo jurista, licenciado, mestre e doutorando em Direito, António Filipe contribui com um profundo conhecimento em questões constitucionais e de política parlamentar. Isso permite ao PCP fundamentar solidamente suas propostas e intervenções, especialmente na defesa da Constituição da República Portuguesa, um pilar da identidade do partido.

Filipe manteve sempre um vínculo acadêmico, lecionando Direito e publicando livros. A sua formação e a sua atividade política consistente, como membro do Comitê Central do PCP desde 1992, demonstram uma dedicação de longa data aos ideais comunistas e antifascistas, o que transmite confiança e solidez ao eleitorado do PCP. 

António Filipe é conhecido por posições firmes e, por vezes, polêmicas que espelham a linha política do PCP em política internacional e nacional. A sua personalidade assertiva em temas sensíveis demonstra a coragem do partido em manter-se fiel aos seus princípios, mesmo quando confrontado com o mainstream político.

Filipe insiste na ideia de um presidente próximo da “vida real das pessoas” e que lute por justiça social. Essa postura reforça a imagem do PCP como um partido que se preocupa com os problemas concretos dos cidadãos (direitos laborais, saúde, educação, etc.), e não apenas com questões teóricas.

Apesar de se assumir inequivocamente como comunista (“Sou do PCP, não escondo e não vou entregar o cartão”), ele apresenta-se como um candidato capaz de unir os democratas na luta contra a direita e a extrema direita. Esta faceta da sua personalidade busca alargar a base de apoio para além dos militantes do PCP, agregando valor ao projeto político mais vasto da Coligação Democrática Unitária (CDU).


Quais os grandes temas desta eleição? Pode-se dizer que o aumento do custo de vida, especialmente da habitação e da energia, tornou-se uma das principais preocupações dos portugueses? A segurança e a imigração comparecem como temas centrais? Como o PCP responde a isso?

As eleições presidenciais de janeiro de 2026 em Portugal (primeiro turno em 18 de janeiro) ocorrem após um período de intensa instabilidade política, incluindo legislativas antecipadas em 2025 que resultaram num parlamento fragmentado. 

Os grandes temas que dominam os debates entre os 11 candidatos são:

• Crise da Habitação: O custo dos aluguéis e a dificuldade de compra de casa, especialmente para jovens, continuam a ser uma preocupação central devido ao descompasso entre os salários e os preços do mercado imobiliário;

• Imigração e Segurança: Este tema ganhou enorme relevância, com debates intensos sobre a “lei da nacionalidade” e o controle de fronteiras;

• Saúde e SNS: O estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS), marcado pela falta de médicos, greves de profissionais e longos tempos de espera, é apontado como um dos problemas mais urgentes pela população;

• Economia e Poder de Compra: O baixo crescimento da produtividade, a carga fiscal e a necessidade de aumentar o poder de compra dos portugueses face à inflação são pontos-chave nos programas eleitorais;

• Corrupção e Ética Política: Após sucessivas crises governativas e escândalos envolvendo altos cargos públicos nos últimos anos, o combate à corrupção e a regeneração das instituições democráticas tornaram-se bandeiras centrais.


O PCP mantém uma posição crítica em relação à atual orientação da União Europeia. Que tipo de relação Portugal deve construir com a UE para defender os seus interesses econômicos e sociais?

O Partido Comunista Português (PCP) propõe para Portugal uma relação de ruptura com as imposições da União Europeia (UE), defendendo a soberania nacional frente ao que considera ser um projeto federalista, neoliberal e militarista. 

As principais diretrizes da proposta do PCP em 2026 são:

• Fim das Imposições Europeias: O partido defende que o país deve libertar-se da pressão dos tratados europeus e das regras do Mercado Único, que considera prejudiciais ao desenvolvimento nacional;

• Crítica à Moeda Única: O PCP mantém que a adesão ao Euro é uma das causas dos problemas econômicos de Portugal, defendendo a recuperação do controle sobre os instrumentos de política monetária e financeira;

• Cooperação Internacional Alargada: Propõe uma alternativa baseada numa “Europa de Estados soberanos e iguais em direitos”, focada na cooperação, no progresso social e na paz, em vez da integração atual que privilegia grandes interesses econômicos e multinacionais;

• Oposição a Acordos de Livre Comércio: Recentemente, em janeiro de 2026, o partido reafirmou a sua rejeição ao Acordo UE-Mercosul, argumentando que este prejudica a agricultura e a produção nacional;

• Orçamento e Investimento: Critica o Orçamento da UE para 2026, afirmando que este ignora as necessidades reais dos povos e prioriza o armamento e os interesses do grande capital, propondo, em vez disso, que os fundos europeus sirvam para financiar infraestruturas públicas essenciais, como o novo aeroporto de Lisboa.

Embora não use formalmente o termo “saída” como uma proposta imediata de referendo único (como o Brexit), o PCP defende o direito de Portugal decidir o seu próprio caminho, o que inclui a desvinculação de diretrizes da UE que colidam com a Constituição e os interesses nacionais. 


O PCP critica frequentemente o modelo de desenvolvimento baseado no turismo e nos fundos europeus. Qual seria a sua visão alternativa para a economia portuguesa?

A visão alternativa de António Filipe propõe uma mudança de paradigma que afasta a economia portuguesa da dependência excessiva do turismo, focando-se na diversificação produtiva e na melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Em sua campanha e intervenções recentes em janeiro de 2026, António Filipe defende os seguintes pilares:

• Produção Nacional e Setores Primários: Filipe critica a monocultura do turismo e advoga por um “investimento público sério” nos setores produtivos, como a pesca e a agricultura. Recentemente, em janeiro de 2026, ele destacou a necessidade de uma “atenção especial” aos pescadores para revitalizar a economia local fora dos centros turísticos;

• Economia a Serviço das Pessoas: O candidato afirma que “os indicadores econômicos devem refletir a vida real dos portugueses”. Para ele, uma economia baseada apenas no turismo gera empregos precários e baixos salários; por isso, propõe uma alternativa focada na valorização de salários e pensões como motor de crescimento interno;

• Combate à “Emigração Forçada”: Filipe defende que o futuro dos jovens não pode passar apenas pelo setor de serviços ou pela emigração. Ele propõe criar condições para que as novas gerações tenham empregos qualificados em áreas industriais e tecnológicas em Portugal, reduzindo a dependência da sazonalidade turística;

• Soberania e Investimento Público: A alternativa proposta envolve priorizar investimentos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e na Habitação em vez de gastos militares ou benefícios exclusivos a grandes grupos do setor turístico, visando uma infraestrutura que sirva à população residente e não apenas ao fluxo sazonal de visitantes.

Essa abordagem busca equilibrar a balança comercial através da reindustrialização e do fortalecimento do mercado interno, vendo o turismo apenas como uma atividade complementar e não como o “pilar de sobrevivência” da nação.


Após décadas de perda de influência parlamentar, o PCP enfrenta desafios de renovação. Como vê o futuro do PCP e da esquerda portuguesa nos próximos anos?

O futuro do Partido Comunista Português (PCP) e da esquerda portuguesa nos próximos anos aponta para desafios significativos e a necessidade de reestruturação, num contexto de crescimento da direita e da extrema direita em Portugal. 

O PCP enfrenta uma tendência de perda de influência na sociedade portuguesa, que pode agravar-se, em parte, devido aos resultados políticos negativos da “geringonça” (a aliança de esquerda que apoiou o governo do PS a partir de 2015), que beneficiaram majoritariamente o Partido Socialista (PS).

O partido mantém-se firme em propostas como a aposentadoria aos 40 anos de descontos e aumentos salariais, além de defender a recuperação da soberania monetária como condição para o desenvolvimento soberano do país.

O PCP, assim como o Bloco de Esquerda, tem enfrentado resultados eleitorais difíceis, com a direita a tomar bastiões antes considerados comunistas. Nas eleições legislativas recentes, a bancada parlamentar da CDU (coligação que integra o PCP) sofreu perdas.

Analistas e membros do partido reconhecem a necessidade de o PCP se adaptar aos novos tempos e reconquistar eleitores, renovando-se, especialmente jovens adultos e trabalhadores, que têm votado em partidos de extrema direita, como a Iniciativa Liberal ou o Chega. 

Em suma, os próximos anos serão cruciais para o PCP e a esquerda portuguesa, que precisarão de se reinventar e encontrar novas formas de mobilização para recuperar o terreno perdido face ao avanço das forças políticas de direita.


Em termos de política externa, como o alinhamento de Portugal com a Otan e as atuais posições da União Europeia em conflitos internacionais devem comparecer no debate eleitoral?

No debate eleitoral português de 2026, com foco nas eleições presidenciais de janeiro e nas legislativas de maio, o alinhamento com a Otan e a União Europeia (UE) permanece como um pilar central, embora enfrente novos desafios devido à instabilidade geopolítica global. 

Portugal continua a ser um dos países mais pró-UE e pró-Otan, com cerca de 83% da população apoiando a permanência na Aliança Atlântica.

Os partidos PSD e PS mantêm o compromisso inegociável com a Otan e o aprofundamento da Política Comum de Segurança e Defesa da UE. 

O posicionamento varia conforme o espectro político, especialmente quanto à intensidade do investimento militar e à soberania:

A centro-direita (Aliança Democrática – AD) defende o reforço da parceria UE-Otan e o aumento do orçamento da Defesa para atingir 2% do PIB até 2029. Recentemente, expressou cautela quanto à previsibilidade dos EUA sob a administração Trump, sugerindo a consideração de alternativas europeias para equipamento militar.

A centro-esquerda (PS) apoia a defesa da Ucrânia e a reforma interna da UE, mas enfatiza que o aumento dos gastos militares não deve comprometer o Estado Social.

A extrema direita (Chega) propõe atingir os 2% do PIB já em 2026. Embora defenda o “elo transatlântico” (EUA), mantém uma postura eurocética, opondo-se ao federalismo europeu e defendendo uma “Europa de nações soberanas”.

A esquerda (Bloco de Esquerda e PCP) mantém-se como as vozes críticas. O PCP é abertamente anti-Otan e eurocético, enquanto o Bloco de Esquerda já defendeu a saída de Portugal da Otan no passado. 


Que papel Portugal pode desempenhar na promoção da paz, do multilateralismo e do respeito ao direito internacional diante da força imperialista dos EUA, hoje?

Portugal deve focar seu papel internacional na diplomacia, no multilateralismo e na luta pela paz, buscando um assento no Conselho de Segurança da ONU. O debate sobre o legado imperial permanece vivo: em 2024 e 2025, o governo português reconheceu formalmente a necessidade de reparações históricas pela escravidão e pelo período colonial. Além disso, o país busca redefinir sua relevância geopolítica através do aproveitamento de recursos estratégicos, como o lítio, dentro de um contexto de transição energética global. 


Há um crescente discurso anti-sistema e de desconfiança nas instituições. Como combater essa erosão democrática sem cair no autoritarismo ou na defesa incondicional do status quo?

Para combater a erosão democrática em 2026 sem adotar práticas autoritárias — evitando o chamado “estado de exceção permanente” — especialistas e instituições recomendam o fortalecimento da resiliência institucional e do engajamento cívico. 

As principais estratégias incluem defesa da Constituição de Abril, fortalecimento da sociedade civil e engajamento e mecanismos de resiliência social.

  1. Defesa da Constituição de Abril

• Aplicação da Legalidade: Utilizar investigações diligentes e decisões judiciais amparadas em provas robustas para punir atos antidemocráticos, reforçando que ataques à democracia têm consequências legais severas;

• Independência de Poderes: Garantir que o Judiciário e o Legislativo funcionem como contrapesos reais, evitando a captura institucional por lideranças populistas. 

2. Fortalecimento da Sociedade Civil e Engajamento

• Participação Ativa: Incentivar o engajamento cívico e a renovação política por meio do voto consciente em representantes comprometidos com os valores democráticos;

• Proteção ao Pensamento Crítico: Defender jornalistas, artistas e acadêmicos contra o assédio jurídico e a perseguição online, garantindo que o dissenso não seja criminalizado;

• Educação para a Democracia: Promover a transparência nas tomadas de decisão e criar canais de feedback abertos para reduzir a manipulação da opinião pública. 

3. Mecanismos de Resiliência Social

• Combate à Desinformação: Implementar estratégias para mitigar a manipulação digital e o uso de “robôs” que visam desacreditar instituições e políticas públicas;

• Políticas de Estado: Manter a presença do Estado na garantia de direitos fundamentais e financiamento de políticas públicas, o que é visto como um meio de proteção contra o avanço de discursos extremistas;

• Firmeza Diplomática: Manter o alinhamento com nações democráticas e organismos internacionais (como a ONU) para dissuadir tendências autocráticas regionais e globais. 

É fundamental utilizar os instrumentos de proteção da democracia para combater seus inimigos, sem que esses instrumentos se transformem em ferramentas de arbítrio.


As práticas de desinformação na manipulação da extrema direita nas plataformas digitais preocupam o processo eleitoral português?

A prática da desinformação no processo eleitoral português intensificou-se nos últimos anos, especialmente com a proximidade das Eleições Presidenciais de 2026 e as recentes legislativas de 2024 e 2025. Atualmente, o país enfrenta narrativas manipuladas, uso de inteligência artificial e tentativas de interferência externa. 

As campanhas de desinformação em Portugal têm focado em temas polarizadores e na integridade do sistema. Narrativas falsas sobre candidatos imigrantes em eleições autárquicas e conteúdos que ligam crime a minorias têm sido amplamente identificados pelo Observatório Europeu das Mídias Digitais (EDMO). Circulam alegações sem provas sobre fraudes em mesas de voto e boicotes em consulados, muitas vezes destinadas a semear desconfiança no sistema de contagem. Relatórios de 2024 e 2025 indicam a presença de campanhas financiadas internacionalmente e narrativas explorando incidentes locais (como o “apagão” elétrico de 2024) para influenciar o voto. 

Para o ciclo eleitoral de 2026, as autoridades portuguesas monitoram o avanço de deepfakes e áudios falsos. Vídeos hiperrealistas de políticos dizendo frases nunca ditas são uma preocupação central para a integridade das campanhas. O uso de enquetes não científicas em redes sociais tem sido utilizado por figuras políticas para alegar lideranças que não se refletem nas sondagens oficiais. 


Se eleito Presidente da República, qual seria a primeira prioridade do mandato de Antonio Felipe? Qual o legado simbólico o PCP gostaria de deixar com esta candidatura?

O legado do PCP no atual ciclo político, consolidado pela candidatura presidencial de António Filipe em janeiro de 2026, centra-se na reafirmação de um projeto de esquerda focado na defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores e na justiça social. Sob a liderança de Paulo Raimundo, o partido busca transformar as campanhas eleitorais em momentos de mobilização social e resistência contra o que define como “políticas de direita”. 

Os principais pilares desse legado e as propostas centrais da candidatura incluem valorização do trabalho e direitos sociais, mobilidade e custo de vida, afirmação ideológica e “Abril” e resistência eleitoral.

A Valorização do Trabalho e Direitos Sociais prevê aumento salarial. O partido propôs a elevação do salário mínimo nacional para 1.050 € já em janeiro de 2026, visando reforçar o poder de compra. Defende um aumento mínimo de 75 € para todos os pensionistas e a atualização das pensões em pelo menos 5%, combatendo a pobreza que atinge 22% dos idosos. Em relação aos serviços públicos, o legado foca na proteção do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da escola pública, propondo a valorização das carreiras de médicos e professores para resolver a falta de profissionais. 

A Mobilidade e Custo de Vida pretende a eliminação de pedágios, com uma proposta de isenção de pedágios em diversas autoestradas para garantir o direito à mobilidade, especialmente onde o transporte público é insuficiente. Luta pela eliminação de taxas no ensino superior. 

A Afirmação Ideológica e “Abril” quer reforçar a identidade de esquerda. A candidatura de António Filipe é apresentada como a única “assumidamente de esquerda” na corrida presidencial de 2026, com o objetivo de romper com o rotativismo político. O legado pretende manter vivos os valores da Revolução de Abril, focando na democracia, liberdade e na oposição aos interesses dos grandes grupos econômicos. 

A Resistência Eleitoral pressupõe que, apesar de reconhecer dificuldades e uma redução na expressão eleitoral em pleitos recentes (como nas autárquicas de 2025), o PCP enfatiza a sua capacidade de resistência, mantendo-se como uma força ativa no poder local e na Assembleia da República para confrontar projetos da direita e extrema direita. 

por Cezar Xavier