Bandeira do Brasil | Foto: José Cruz/Agência Brasil

O professor da Escola Superior de Guerra (ESG) e analista militar, Ronaldo Carmona, avaliou que a criminosa intervenção de Donald Trump na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, se insere numa tentativa de ressuscitar os retrógrados conceitos da antiga Doutrina Monroe, do século 19, segundo os quais a América Latina é sua área de influência e é rejeitada a presença de outras potências na região.       

“Essa ação militar norte-americana na Venezuela foi o ato inaugural da Nova Doutrina Monroe, que foi expressa no documento chamado Estratégia de Segurança Nacional, que veio a público no início de dezembro”, denuncia Carmona em entrevista para a revista Exame.

Para o professor, a ação norte-americana foi uma mensagem “de que qualquer tentativa de oposição ao objetivo declarado” dos Estados Unidos “não será tolerada”.

Questionado sobre o papel do Brasil nesse contexto, o analista afirma que o país “deve persistir no caminho da autonomia, da soberania e da independência”.

“O país não deve se curvar, de maneira alguma, aos objetivos americanos de colocar o Brasil e a América Latina a serviço de seus interesses geopolíticos. Nossa tradição diplomática, iniciada ainda no governo Vargas, na Segunda Guerra Mundial, é a do não alinhamento, e deve seguir nessa toada. O Brasil é grande demais para se subordinar a outra potência”, enfatizou Carmona.

“Do ponto de vista estratégico, o Brasil almeja se tornar uma potência e ser um dos polos de poder mundial em um cenário de multipolarização do mundo. Precisamos continuar manobrando nesse sentido”, defende.

Ele criticou os setores dentro do país que defendem a subserviência do Brasil aos interesses norte-americanos.

“Há setores expressivos da sociedade brasileira que defendem um abandono dessa posição clássica [autonomia e soberania] e uma subordinação aos interesses americanos. Isso não atende ao interesse nacional”, observou o professor.

Carmona argumenta ainda que o “Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, um dos maiores territórios, com inúmeras riquezas e grande população”. “Um país com essas características jamais pode “jogar na segunda divisão”. Precisa atuar em defesa de seus próprios interesses que, nesse cenário mundial, diz respeito à defesa de um mundo multipolar que lhe permita desenvolver o seu projeto nacional com maior autonomia e independência”.

Carmona também integra o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e foi chefe de planejamento do Ministério da Defesa.

Fonte: Página 8