Ataque à Venezuela escancara fragilidade da integração regional
Brasilia DF 08/01/2026 Ato em Defesa da Democracia – Sem Anistia para Golpistas e Pelo Veto ao PL da Dosimetria, também defende soberania da Venezuela. Fotos Públicas: Alessandro Dantas
A nova edição do Entrelinhas Vermelhas analisa como um fato sem precedentes a ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela no início de 2026, que incluiu bombardeios e a captura do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores. Para a cientista política e secretária de Relações Internacionais do PCdoB, Ana Prestes, trata-se de uma ruptura histórica na política externa norte-americana, ao inaugurar um ataque militar direto de grande escala na América do Sul.
Para Ana, o episódio “representa uma mudança qualitativa na forma como os Estados Unidos passam a tratar a América Latina, deixando claro que não reconhecem limites ao uso da força quando seus interesses estratégicos estão em jogo”.
Assista a íntegra da entrevista:
O “narcoterrorismo” como construção política
Um dos pontos centrais do debate é a crítica à narrativa do “narcoterrorismo”, utilizada por Washington como justificativa para sanções, processos judiciais e ações militares. Ana Prestes lembra que a própria Justiça norte-americana recuou das acusações mais graves contra Maduro.
“Essa história do cartel dos sóis [cartel de los Soles] nunca se sustentou juridicamente. Ela cumpriu um papel político: criar um inimigo criminal para justificar o que, na prática, é uma ação de guerra”, afirmou.
Segundo ela, o discurso do combate às drogas é instrumentalizado para enquadrar governos soberanos como ameaças globais, abrindo caminho para intervenções diretas.
Lei norte-americana acima do direito internacional
O programa destaca ainda a denúncia feita no Conselho de Segurança da ONU sobre a aplicação extraterritorial da legislação dos Estados Unidos. Para Ana Prestes, esse movimento consolida uma lógica perigosa para toda a região.
“Os Estados Unidos estão dizendo, na prática, que a lei deles vale para o mundo inteiro, especialmente para a América Latina. Isso significa que qualquer país pode ser tratado como quintal estratégico”, disse.
Essa postura, segundo ela, enfraquece organismos multilaterais e normaliza a violação da soberania nacional.
Trump entre o discurso da paz e a prática da guerra
A edição também analisa a contradição entre a retórica de Donald Trump, que se apresenta como líder contrário a guerras, e sua atuação concreta. O ataque à Venezuela é apresentado como prova de que a lógica do confronto permanece central.
Leia mais: China, Rússia e ONU reagem à ofensiva dos EUA na Venezuela e em alto-mar
“Trump se vende como negociador, mas negocia com mísseis. É uma diplomacia da força, em que o petróleo e o controle geopolítico falam mais alto do que qualquer princípio democrático”, avaliou Ana Prestes.
Riscos regionais e efeitos eleitorais
A entrevista projeta impactos diretos sobre a América do Sul, em especial em um cenário de fragilidade da integração regional. A ausência de mecanismos como a Unasul é apontada como fator que dificulta respostas coletivas à ofensiva norte-americana.
Ana Prestes alertou que o ataque à Venezuela também tem dimensão política continental: “Há uma tentativa clara de intimidar governos e influenciar processos eleitorais. Não é só sobre a Venezuela, é um recado para toda a região”.
Brasil sob pressão diplomática
O papel do Brasil é tratado com tom crítico. Embora reconheça iniciativas diplomáticas recentes, a analista avalia que o momento exige maior protagonismo.
“O Brasil não pode se limitar a notas diplomáticas. Se não houver liderança regional agora, a América Latina corre o risco de voltar a ser cenário de intervenções abertas”, afirmou Ana Prestes.
Mobilização e soberania como resposta
Encerrando a análise, ela defende que a resposta à ofensiva dos EUA passa pela articulação política regional, pela mobilização social e pela disputa de narrativas.
“Estamos diante de um império em crise, que reage com violência. A nossa resposta precisa ser mais democracia, mais soberania e mais integração latino-americana”, concluiu Ana Prestes.
por Cezar Xavier




