Cría Cuervos, o filme de Carlos Saura que eternizou a melancolia infantil de Ana Torrent e a angústia de Geraldine Chaplin

Madri, verão de 1975. Enquanto o ditador Francisco Franco definha em seu leito de morte, Carlos Saura filma em silêncio uma menina de oito anos descendo escadas sombrias. Ana Torrent, com olhos que parecem guardar séculos de silêncio, encontra o pai morto na cama — um oficial militar franquista, nu e abandonado por sua amante. Ninguém grita. Ninguém chora. A câmera desliza como um fantasma, registrando o momento em que um regime inteiro expira sem cerimônia. Filmado nos últimos suspiros da ditadura, “Cría Cuervos” não esperaria muito para ser lançado: estreou em janeiro de 1976, quarenta anos após o início da Guerra Civil, como um epitáfio cinematográfico para quatro décadas de opressão.

Há cinquenta anos, Cría Cuervos chegava aos cinemas mostrando que a denúncia política não precisa gritar para ser devastadora. Em plena Espanha ainda submetida aos últimos suspiros do franquismo, o diretor escolheu o caminho menos óbvio: a intimidade doméstica, o silêncio, a memória fragmentada e o olhar de uma criança. Ali, no espaço privado, Saura expôs a engrenagem moral de uma ditadura que se sustentava tanto pela repressão explícita quanto pela normalização do autoritarismo no cotidiano.

O franquismo dentro de casa

O filme não mostra quartéis nem comícios. Mostra uma família. Um pai militar morto, uma mãe ausente, tias rígidas, criadas submissas. O regime aparece diluído nos gestos, na disciplina, no medo e na autoridade incontestável. É essa transposição do político para o doméstico que torna Cría Cuervos tão corrosivo: o franquismo não é apenas um sistema de poder, mas uma pedagogia do silêncio transmitida entre gerações.

Saura compreendeu que as ditaduras sobrevivem menos pela força contínua e mais pela internalização de seus valores. Ao revelar esse mecanismo, o filme se transforma numa autópsia moral do regime.

Naquela mansão burguesa cercada por muros espessos, Saura construiu um microcosmo da Espanha franquista. Persianas venezianas que imitavam grades de prisão. Uma piscina vazia, símbolo de prazeres abortados. O ruído estridente das sirenes da cidade invadindo o silêncio artificial do lar — como se o mundo exterior recusasse ser contido.

Memória, luto e veneno

Era ali, naquele bunker doméstico, que o diretor ensinava uma lição crucial para todos os artistas sob censura: quando as palavras são proibidas, a metáfora se torna arma. A mãe agonizante (Geraldine Chaplin) era a Espanha sufocada; o pai traiçoeiro, o machismo do regime; a avó muda em sua cadeira de rodas, a memória coletiva amordaçada. E Ana, com seu bicarbonato de sódio que acreditava ser veneno, representava a nova geração aprendendo, na sombra, a desobediência.

O desejo infantil de eliminar a figura opressora traduz uma pulsão coletiva sufocada por décadas. O luto não é apenas familiar; é histórico. A Espanha de Cría Cuervos chora seus mortos e, ao mesmo tempo, tenta imaginar como se livrar dos fantasmas que ainda governam a vida cotidiana.

A narrativa fragmentada, marcada por idas e vindas temporais, antecipa debates contemporâneos sobre memória, trauma e herança autoritária — temas hoje centrais em sociedades que revisitam passados ditatoriais.

“Cría cuervos y te sacarán los ojos” — crie corvos e eles arrancarão seus olhos. O título do filme, extraído de um ditado popular espanhol, funcionava como uma profecia silenciosa. Enquanto Franco morria em novembro de 1975, Saura já filmava a vingança simbólica: a filha que, na imaginação, envenena o pai autoritário. Não era revolução armada, mas psicológica — a mais perigosa para qualquer ditadura, pois nasce dentro dos lares, nos olhares das crianças que observam em silêncio os adultos hipócritas.

A genialidade estava em fazer a censura ver apenas um drama familiar melancólico, enquanto o público decifrava a alegoria. Como escreveu Paul Julian Smith décadas depois: “O ideal franquista estava tão corrompido que eles não perceberam que a representação como denúncia possui um apelo perverso”.

A herança dos olhares infantis

Cinco décadas depois, a influência de Saura é visível em uma arte política que rejeita o discurso direto e aposta na sutileza. Cineastas, escritores e artistas visuais continuam recorrendo à infância, à memória e ao espaço íntimo para falar de violência de Estado, colonialismo, racismo e autoritarismo.

A técnica de Saura tornou-se manual de resistência artística global. Guillermo del Toro confessou que “O Labirinto do Fauno” nasceu da estrutura de “Cría Cuervos”: usar os olhos de uma criança para processar horrores políticos.

Até Pedro Almodóvar, em “Fale com Ela”, prestou homenagem ao mestre escalando Geraldine Chaplin, a musa de Saura, como professora de balé neurótica. A lição perdurou: quando o poder tenta controlar a narrativa, a arte resiste pela ambiguidade, pela fusão entre realidade e fantasia, pelo direito de deixar perguntas sem resposta.

Cría Cuervos ensinou que a denúncia mais potente é aquela que se infiltra, que desconcerta, que permanece. Não oferece respostas fáceis nem catarse imediata. Oferece incômodo.

Um filme que não envelhece

Se Cría Cuervos permanece atual, é porque as formas de dominação que ele expõe não desapareceram — apenas mudaram de linguagem. Autoritarismos seguem operando pelo controle simbólico, pela naturalização da violência e pela pedagogia do medo.

Hoje, enquanto regimes autoritários ressurgem com roupagens digitais e algoritmos de censura, a lição de Saura ganha urgência renovada. Não são mais muros de concreto que isolam as casas, mas bolhas informativas e leis de “segurança nacional” que cerceiam a criação.

Artistas de todas as partes redescobrem a linguagem codificada: metáforas que escapam aos algoritmos de moderação, alegorias que passam despercebidas aos censores burocráticos. O corvo de Saura voou além das fronteiras da Espanha — tornou-se símbolo universal daqueles que, diante da opressão, escolhem não calar-se, mas falar em código, sabendo que toda ditadura, por mais poderosa, é surda à poesia.

No último plano de “Cría Cuervos”, as irmãs saem para o primeiro dia de aula após o verão. Ana, que durante meses planejou suicídios e envenenamentos, agora corre pelo jardim. O disco de Jeanette toca “Porque te vas” — uma canção alegre sobre despedidas dolorosas.

É aí que Saura nos entrega sua mensagem definitiva: a resistência não é um grito, mas um sussurro que persiste; não é uma explosão, mas o gesto cotidiano de uma criança que, mesmo traumatizada, ainda dança.

Cinquenta anos depois, os corvos continuam voando. E os olhos dos tiranos, por mais vigilantes, jamais os enxergarão chegando.

Por Cezar Xavier