Orlando Silva blinda recursos e expande fontes da PEC da Reparação
O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), relator da PEC do Fundo de Reparação Racial, durante sessão na Câmara dos Deputados em 25 de novembro de 2025. — Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) detalhou nesta terça-feira (25) o conjunto de alterações feitas no relatório da PEC 27/2024, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR). Entre os principais ajustes, o relator ampliou as fontes de financiamento e reforçou a obrigatoriedade da destinação dos recursos, medida que busca impedir contingenciamentos.
Segundo Orlando, duas novas fontes foram incorporadas ao fundo:
- valores provenientes de condenações por racismo, além de indenizações individuais;
- recursos de condenações a empresas por trabalho análogo à escravidão.
“Não é possível, diante de séculos de atraso, submeter a reparação à lógica fiscalista de bloqueio de verbas”, afirmou o relator.
Outras fontes — como doações nacionais e internacionais e futuras receitas definidas em lei — foram preservadas. Orlando decidiu ainda manter em aberto, para regulamentação posterior, a natureza jurídica do fundo, a fim de garantir flexibilidade de gestão.
Conselho deliberativo e novos parâmetros constitucionais
Outra mudança estrutural foi a criação de um conselho deliberativo, e não apenas consultivo, para gerir o FNREPIR. A medida, segundo o relator, amplia a transparência, o controle social e a avaliação das ações financiadas.
Orlando Silva também propôs um capítulo específico sobre Promoção da Igualdade Racial na Constituição, com princípios e diretrizes gerais:
- intersetorialidade;
- fortalecimento institucional;
- enfrentamento da sub-representação política, entre outros.
A PEC também eleva o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) a patamar constitucional, equiparando-o a sistemas como SUS e SUAS. A adesão ao Sinapir seguirá como requisito para que estados e municípios recebam recursos.
Pedido de vista adia votação para 2 de dezembro
A votação, prevista para esta terça, foi adiada após pedido de vista do deputado Helio Lopes (PL-RJ).
A sessão contou com a presença da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e de lideranças da Marcha das Mulheres Negras, que pressionavam pela deliberação imediata.
A presidente da comissão, Benedita da Silva (PT-RJ), fez forte apelo: “Foi árduo chegar até aqui. Peço que possamos votar hoje este projeto.” Mesmo assim, Lopes manteve o pedido, alegando divergências ideológicas.
A nova tentativa de votação ocorrerá na primeira semana de dezembro.
Raízes históricas e diagnóstico da desigualdade racial
O relatório dedica um amplo capítulo à formação histórica do racismo no Brasil, mostrando como a transição do trabalho escravo ao trabalho livre negou aos libertos acesso à terra, à educação e aos meios de produção. Para Orlando Silva, esse arranjo manteve o racismo como “elemento estruturante do Estado e da sociedade”.
O texto relembra ainda que: a ditadura militar transformou a negação do racismo em política oficial de Estado; a Constituição de 1988 marcou um ponto de inflexão, ao reconhecer o racismo como crime e incorporar a igualdade material como princípio.
Apesar de marcos importantes — como o Estatuto da Igualdade Racial e as ações afirmativas — o relator destaca que faltaram recursos para muitas políticas se consolidarem.
Dados mostram a persistência da desigualdade racial
O relatório reúne dados recentes que escancaram a distância entre brancos e negros no Brasil:
- 80% do décimo mais pobre da população é negro (Ipea).
- Em 2022, a renda média de pessoas brancas era 87% maior que a de pessoas negras.
- 82% das mortes decorrentes de ação policial atingem pessoas negras (Anuário 2025).
- No sistema prisional, 68,7% das pessoas encarceradas são negras, ante 29,9% de brancas (Sisdepen).
Para o relator, esses números evidenciam a urgência de um instrumento permanente de enfrentamento às desigualdades.
Ambiente político favorável é inédito, diz relator
Orlando Silva afirma que, pela primeira vez, existe consonância entre esquerda, centro e setores da direita em torno da agenda de igualdade racial. Segundo ele, o debate agora se apoia em evidências, e não apenas em posicionamentos ideológicos.
A PEC propõe um fundo com vigência inicial de 20 anos, aportado com R$ 1 bilhão anuais da União, fora das metas fiscais. Outras fontes incluem condenações por racismo e trabalho escravo, doações e contribuições de programas públicos e privados.
O fundo financiará iniciativas de:
- inclusão produtiva;
- empreendedorismo negro;
- combate ao racismo estrutural;
- proteção de religiões de matriz africana;
- políticas para comunidades quilombolas.
Bancada negra acumula vitórias recentes
Criada em 2023, a bancada negra já conseguiu aprovar medidas importantes:
- nova Lei de Cotas no ensino superior;
- feriado nacional do Dia da Consciência Negra;
- cota racial nos fundos eleitorais;
- 30% das vagas de concursos públicos reservadas para negros, indígenas e quilombolas.
A PEC da Reparação é agora a prioridade central do grupo.
“Medida necessária e histórica”, resume Orlando Silva
O deputado defende que a PEC consolida avanços e “aprofundará o compromisso do país com a justiça social, o empoderamento negro e a reparação histórica”.
A decisão final da comissão especial no dia 2 de dezembro será decisiva para o futuro da proposta — e para o significado político deste novembro marcado pela 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras e pela maior mobilização antirracista do período recente.
por cezar xavier

