Marina Duarte debate 20 de novembro, reparação e desafios da igualdade racial
Presidente da Unegro-BA, Marina Duarte é vice-presidenta do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR)
A edição desta quinta-feira (20) do Entrelinhas Vermelhas coloca no centro do debate o Dia da Consciência Negra, data que celebra a resistência histórica do povo negro e reforça as lutas contemporâneas por direitos, memória e reparação. A convidada do programa é Marina Duarte, vice-presidenta do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e coordenadora nacional da Unegro, que analisa os avanços, retrocessos e desafios das políticas antirracistas após duas décadas da institucionalização dessa agenda no Brasil.
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Durante a conversa, Marina revisita marcos históricos — da Marcha Zumbi 300 anos, em 1995, à criação da antiga Seppir nos anos 2000 — e destaca a reconstrução das políticas de igualdade racial após anos de desmonte. Para ela, o momento atual exige não apenas retomada, mas reposição e aprofundamento dessas políticas, com destaque para o debate sobre reparação.
Assista a íntegra da entrevista:
PEC da Reparação ganha força nacional: “É preciso consolidar um fundo permanente”
Um dos eixos centrais da entrevista é a PEC 27, conhecida como PEC da Reparação, relatada pelo deputado Orlando Silva. Marina afirma que a proposta tem ganhado capilaridade política e popular graças ao esforço de mobilização do movimento negro e da comissão especial da Câmara.
Segundo ela, a reparação não é apenas simbólica: “Precisamos de um fundo de reparação que financie políticas permanentes”, afirma, destacando áreas essenciais como educação antirracista, saúde da população negra, políticas de juventude e combate ao genocídio dos jovens negros.
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Para Marina, a aprovação da PEC seria um divisor de águas capaz de estruturar o futuro das políticas de promoção da igualdade racial no país.
Segurança pública e genocídio da juventude negra: o que diz o movimento negro
Outro tema de destaque é o debate sobre segurança pública, intensificado após recentes chacinas e megaoperações no país. Marina denuncia o “projeto de morte” que incide historicamente sobre a juventude negra e critica a lógica das operações militarizadas.
Ela aponta que pesquisas mostram que jovens que entram no crime dizem querer sair — mas o Estado não oferece caminhos. O movimento negro defende uma abordagem que articule políticas sociais, educação, cultura, assistência e oportunidades reais. “Segurança pública não existe isolada”, diz Marina.
Mulheres negras: da base da pirâmide ao centro da luta política
A entrevistada também analisa como mulheres negras seguem sendo a parcela mais vulnerabilizada da população — com salários muito inferiores aos dos homens brancos, alta sobrecarga de trabalho e violência estrutural.
Ela destaca que mulheres negras sustentam famílias, comunidades e espaços de cuidado, mas continuam invisibilizadas. Para mudar essa realidade, diz Marina, é urgente ampliar o acesso das mulheres negras aos espaços de poder e garantir políticas que enfrentem simultaneamente racismo, sexismo e desigualdades de classe.
Educação antirracista, intolerância religiosa e heroínas apagadas da história
Em um dos momentos mais fortes do programa, Marina denuncia a persistência da intolerância religiosa contra povos de matriz africana, mesmo com garantias legais. Ela relaciona o racismo religioso ao racismo estrutural que atinge corpos, territórios e tradições.
A educadora também reforça que a transformação profunda do país passa pela educação: sem alterar o currículo e efetivar as Leis 10.639 e 11.645, heroínas como Dandara, Luiza Mahin, Maria Felipa e Teresa de Benguela seguirão ausentes das escolas — e a população negra continuará sem referências essenciais para construir sua identidade e seu futuro.
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Uma agenda política para o futuro
O Entrelinhas Vermelhas desta semana coloca em evidência que o 20 de novembro não é apenas memória, mas projeto político. Reparação, combate ao racismo estrutural, segurança pública cidadã, valorização das mulheres negras e educação antirracista formam, juntas, a espinha dorsal de uma agenda de país.
Com participação profunda e contundente de Marina Duarte, o programa reafirma: não há democracia plena sem igualdade racial — e construir essa igualdade é tarefa urgente e coletiva.
(por Cezar Xavier)

