Colunista do FT diz que o Brasil oferece lições para vencer as negociações TACO. “Políticos globais precisam entender que a diplomacia da Casa Branca é movida a melodrama e instinto

A colunista Gillian Tett, da revista britânica Financial Times, afirmou nesta sexta-feira (28) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva “venceu” a ofensiva tarifária lançada pelo presidente americano, Donald Trump. Em um artigo irônico, Tett diz que o recuo dos EUA — que retiraram as sobretaxas de 40% impostas em agosto — expôs novamente um padrão recorrente do republicano: “Trump Always Chickens Out”, [Trump sempre se acovarda] ou simplesmente “TACO”.

“Como se diz ‘TACO’ em português?”, provoca Tett logo na abertura do texto, sugerindo que muitos brasileiros fariam a pergunta agora “com um sorriso”. O apelido viralizou entre usuários brasileiros nas últimas semanas, à medida que crescia a especulação de que Trump voltaria atrás no tarifaço.

EUA revertem sobretaxas após escalada diplomática

Nas últimas duas semanas, Washington retirou tarifas extras sobre mais de 400 produtos brasileiros, incluindo café, carne bovina, cacau, frutas e itens alimentícios diversos. A ampliação das exceções ocorreu após reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

O tarifaço havia elevado a taxação total a 50% em retaliação, segundo a Casa Branca, a ações do governo brasileiro que ameaçariam a segurança nacional dos EUA — entre elas investigações envolvendo Jair Bolsonaro e decisões do STF sobre as big techs.

“O recuo confirma: em bom português, Lula venceu”, conclui Tett. Para ela, a postura firme de Brasília reforçou a imagem interna do presidente brasileiro e mostrou que a pressão americana não funcionaria.

“Valentões respondem à força”, diz Tett

A autora afirma que o episódio deixa três lições para outros países. A primeira diz respeito ao ambiente político interno dos EUA: com inflação persistente e queda na confiança do consumidor, reduzir preços agrícolas tornou-se urgente para Trump. A reversão tarifária, argumenta Tett, serviu como gesto direto para tentar aliviar o custo de vida.

A segunda lição envolve a dinâmica de enfrentamento. “Valentões geralmente respondem à força”, escreve a colunista. Assim como China e outras nações, o Brasil teria mostrado que resistir — em vez de ceder — pode produzir resultados mais eficazes contra o estilo agressivo de Trump.

Casa Branca age por táticas, não por estratégia

O terceiro ponto discutido pelo FT é a necessidade de separar táticas de objetivos ao analisar o comportamento da Casa Branca. Tett afirma que Trump costuma misturar impulso pessoal, cálculo político e disputas internas, produzindo movimentos erráticos — da política comercial ao caso Jeffrey Epstein, passando por decisões sobre Ucrânia.

Citando Steve Bannon, ela lembra que o presidente frequentemente recorre a “bullying, ameaças, melodrama, mudanças bruscas de política, favoritismo e anúncios para inundar a zona”. Esses gestos chamativos seriam táticas, não metas duradouras, o que permite reviravoltas rápidas quando um movimento se torna politicamente custoso.

O padrão TACO e a lógica dos recuos

Para Tett, os movimentos de Trump seguem um padrão claro: quando uma medida arrisca elevar preços, prejudicar aliados ou gerar desgaste político, ela é descartada sem cerimônia. É o fenômeno do “TACO”, diz a autora — avanços dramáticos seguidos de recuos igualmente teatrais.

A colunista lembra que, na mesma semana em que reverteu tarifas para o Brasil, Trump também mudou o tom em relação ao novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que havia chamado de “comunista” dias antes. A guinada repentina reforçaria o caráter tático, não estratégico, de suas ações.

Um sinal para outros países

Gillian Tett conclui que o episódio envia uma mensagem importante para governos ao redor do mundo: “reis raramente são tão todo-poderosos quanto parecem”. No caso brasileiro, escreve, Lula deu o recado — e venceu uma disputa que parecia assimétrica, mas revelou os limites da agressividade de Washington.

por cezar xavier