O Imperialismo em sua forma mais crua
A eugenia é um conceito que defende a seleção genética humana com o objetivo de “melhorar” a espécie, o que historicamente levou à eliminação ou marginalização de determinados grupos sociais. No Brasil, quem são essas pessoas? Negros, pobres, aqueles que sequer podem ser classificados como classe trabalhadora, pois vivem à margem do sistema produtivo. Como afirma Sueli Carneiro (2003), “o racismo é a forma mais cruel de eugenia contemporânea, pois opera por meio da omissão estatal e do silenciamento social diante da morte sistemática da população negra”.
O extermínio sistemático da juventude negra não é aleatório. O sistema capitalista investe pesado na manutenção da desigualdade entre as classes sociais. Como analisa Silvio Almeida (2019), o racismo estrutural organiza as instituições e as relações sociais, perpetuando a exclusão histórica de populações negras. Afinal, a quem interessa que os jovens negros, moradores de comunidades pobres, nasçam e morram precocemente, sem jamais terem qualquer oportunidade de escolha?
Diariamente, ouvimos notícias de chacinas nas cidades brasileiras. A escassa comoção diante desses corpos, muitas vezes encontrados mutilados, nos obriga a refletir sobre a direção que estamos tomando enquanto sociedade. Embora os direitos fundamentais da pessoa humana garantam a dignidade, resta perguntar: quem está garantindo, minimamente, o direito à vida desses jovens que morrem todos os dias?
Segundo dados da Agência Senado (2023), “entre 2021 e 2023, o Brasil registrou 15.101 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes, uma média de 13,5 mortes por dia”. Isso significa que “um jovem negro morre a cada 23 minutos no Brasil”, sendo a faixa etária de 15 a 19 anos a mais afetada. Conforme aponta a historiadora Lilia Schwarcz (2015), no Brasil Colônia a expectativa de vida de uma pessoa escravizada era de 25 anos. Considerando que um jovem negro morador da periferia atualmente vive, em média, até os 20 anos, podemos afirmar que a vida do povo negro hoje é mais breve do que no período escravocrata.
A ausência de perspectivas para a juventude negra nos deixa perplexos diante da imensidão desse genocídio desenfreado, que tem roubado o futuro de toda uma geração. Como destaca Abdias do Nascimento (1989), “o silêncio da sociedade diante dessa tragédia é ensurdecedor”. Esse silêncio não apenas retarda o desenvolvimento social, como também promove a desumanização, privando esses jovens, mesmo os que sobrevivem, de qualquer esperança ou perspectiva de futuro.
Não importa se esses corpos são alvejados dentro de carros, sobre pontes ou a caminho da escola, se ainda estão no despertar infantil ou na revolta adolescente: são pessoas que carregam, em si, um alvo. Colocado por um sistema opressor, racista e eugênico. Cabe-nos, enquanto sociedade, refletir e questionar: a pena de morte foi institucionalizada no Brasil ou o imperialismo, em sua forma mais crua, triunfou?
Referências
- AGÊNCIA SENADO. Mortes violentas de crianças e adolescentes no Brasil. Brasília, 2023. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias. Acesso em: 28 ago. 2025.
- ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.
- CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: BLACK WOMEN IN BRAZIL. São Paulo: Selo Negro, 2003.
- NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1989.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.