(Parte 1)

Há inegavelmente uma crise que se destaca de outras tantas cíclicas e contumazes que a ordem imperial-capitalista mundial tem produzido ao longo do tempo.  Exploração, opressão, brutalidade e violência ganham escala com a ascensão e fiasco do neoliberalismo arrogante.  As classes dominantes se veem impelidas a rasgar suas máscaras e fantasias “democráticas” e resvalam, mesmo em suas metrópoles, ao autoritarismo fascista, racista, belicista e excludente, ao mesmo tempo em que caminhos de superação, paz e esperança tomam corpo no “Sul Global” e confrontam, por inevitável, a ordem decadente.

Temos feito – os comunistas, a esquerda como um todo, em plano mundial – um visível esforço de Resistencia popular, com importantes avanços, mas também com algumas derrotas e dificuldades de velho e de novo tipo.  O mundo do trabalho busca avidamente compreensão do que acontece, entendimento sobre os novos desenhos das formações econômico-sociais e seus mecanismos de exploração e opressão sobre os povos e o planeta.  Temos alcançado percepções aparentemente lúcidas sobre os mecanismos de exploração e opressão que caracterizam o capitalismo atual em crise e desenhamos estratégias, táticas, saídas, discursos, bandeiras de luta importantes e lúcidas, sobretudo algumas mais específicas.

Mas, vira e mexe, nos esbarramos em dificuldades em engrenar um crescimento político cumulativo capaz de alterar o quadro de modo substancial, maturar condições objetivas e subjetivas, respondendo objetivamente aos anseios de liberdade das massas oprimidas e exploradas.  E caímos no velho e surrado esquema da “correlação de forças”, entenda-se, sobretudo, no plano da luta institucional do Estado burguês-oligárquico, dependente, de ordenamento democrático quebrado, incoerente e corrompido.  Escolhemos focar a luta no plano dos espaços concedidos controlados e corrompidos pelas classes dominantes e o Imperialismo.  Conseguimos alguns avanços na democratização do Estado burguês, mas longe do suficiente para uma competição política livre e plena, ou seja, efetivamente democrática.  Balanço autocrítico necessário, indispensável.  Do jeito que tem sido, seguiremos tolhidos, amordaçados, caluniados e sujeitos a processo “sanfona” em que podemos crescer ou encolher inapelavelmente conforme contextos sobre os quais temos tido pouco ou nenhum controle.

Programa.  Temos dificuldades políticas.  E essas precisam ser analisadas a partir de nossas leituras e definições básicas sobre nossa realidade, o quadro da luta de classes no Brasil, e, consequentemente, pelas expressões político-programáticas que temos adotado.  A nosso ver, interpretar que as questões etno-raciais são componentes complementares, e não centrais, no quadro das contradições principais de nossa Sociedade, é um equívoco comprometedor que fragiliza nossa base discursiva, sobretudo, para a grande maioria do povo e das regiões do Brasil.  A contradição expressa nas heranças eurocêntricas, ocidentais persistentes, do trinômio colonialismo, escravidão e esbulho-exclusão, que são fundantes da formação brasileira, é, por assim dizer, íntima e diretamente conectada à contradição Nação x Imperialismo, que, por sua vez, carece de um tratamento claro e explícito em nosso discurso.  Há outras questões conexas a estas.  

Propostas bem delineadas, lúcidas, a nosso ver, como o NPND, que assume corretamente a centralidade da chamada “questão nacional” e incorpora uma concepção renovada da construção de um Estado democrático popular de horizonte socialista, têm tido alguma dificuldade em repercutir e mobilizar mais amplamente o povo e a Nação.  Bandeiras de luta pertinentes desse tipo tem enorme potencial para render avanços políticos capazes de produzir isolamento progressivo das classes dominantes e da direita serviçal ao Imperialismo, proporcionando avanços políticos para os trabalhadores e toda a nação. 

Em outras palavras, para darmos andamento à luta pelo socialismo, livres da sombra da correlação de forças, sem uma democratização efetiva do sistema político atual, depender apenas de voto e sucesso eleitoral, em dissociação com ampla mobilização, conscientização e organização das massas populares não nos garante um crescimento consistente e persistente.  O que nos dá vantagem em correlação de forças é povo organizado e vigilante.  E tudo isso depende intrinsecamente de um programa-discurso assertivo de alta pertinência, afinado, implícita e explicitamente, com os “anseios populares” e o desenvolvimento da luta de classes, não só na nossa sociedade como nos planos continental e  internacional.

Comunicação.  Precisamos entender a sério que comunicação não é só sobre “como” comunicar, mas, primordialmente sobre “o que” transmitir.  E, para o processo político libertador, revolucionário, é essencial termos um discurso-programa tão totalizante, sensível, pertinente, dinâmico e “sintonizado” quanto possível, permanentemente.  Em suma, se não temos um Programa Socialista e Democrático, que traga em si um Projeto Nacional verdadeiro e consistente, apropriável e exequível nas lutas regulares de nosso povo, poderemos até comunicar bem, conquistar votos com bandeiras de luta justas, genéricas ou específicas, mas ainda teremos dificuldades em sedimentar e sustentar ganhos num processo mais longo de crescimento.  Nosso Programa Socialista carece, a nosso ver, de ajustes, correções e incorporação de pontos e traços fundamentais que o complete e lhe dê ganhos de totalidade, sintonia e empatia com corações e mentes populares de nosso tempo.    

Nesse ponto, a comunicação irá encontrar seu encaixe, sua completude, sua fluidez.  Aí, naturalmente, entra o “como”, as formas, os jeitos, as táticas de comunicação. 

Tentemos exemplificar com uma situação bem atual:  Nesses tempos recentes em que o Imperialismo e as ditaduras do capital dão claros sinais de radicalização ante os avanços dos povos, da democracia, das ideias socialistas e da multilateralidade, burguesia e oligarquias e seus prepostos reacionários recorrem a novas ou surradas ferramentas político-ideológicas nazifascistas.  Grande parte da esquerda popular no Brasil, e em muitos outros países, se mostra surpreendida e tendo que improvisar um discurso (programático) que havia sido posto em plano inferior, defensivo e moderado ante o avanço da máquina político-ideológica enganadora das classes dominantes.  No momento em que o governo dos EUA ataca o Brasil com ameaças, interferências e sanções políticas e comerciais, o uso de símbolos nacionais populares, anexos a discurso político de “defesa da pátria”, vinha sendo quase que monopolizado por esquemas e agentes políticos fascistas das classes dominantes.  Estes, de resto desde sempre, ostensivamente controlam a grande mídia e cultivam campanhas de ódio e calúnias contra “o comunismo”, a esquerda, os movimentos populares e suas lideranças, que por seu lado, se recolhem, adotam posturas “defensivas” cautelares.  Na era neoliberal, falar em “Imperialismo” e “fascismo” em comunicações abertas passou a ser temerário ou sinal de “radicalização” discursiva gratuita.   Discurso de defesa da pátria usurpado à pleno sol pela direita entreguista, à esquerda resta o esforço – muitas vezes desajeitado, improvisado – de construir (ou reconstruir?) sua imagem pública notória de defensores efetivamente verdadeiros da nação agredida e oprimida.  Construção que seria desnecessária, e certamente haveria ganho político instantâneo, caso tal imagem pública estivesse clara, como deveria estar se a compreensão da realidade e o discurso político-programático fossem adequados e corretos. 

(Segue, na “Parte 2”, com complemento do subtítulo Comunicação, e os subtítulos Linha de Massas e Unidade e Luta)