Vale-tudo contra a Previdência junta Trump e Musk. Querem demitir metade dos servidores do setor | Foto: Jim Watson/AFP

“Trump e Musk estão vindo para cima da Previdência Social”, afirmou a respeitada revista The Nation, após uma sequência de ataques ao sistema que o presidente Roosevelt criou e que atualmente protege da pobreza extrema 72,5 milhões de aposentados norte-americanos e é o cobertor dos trabalhadores na ativa.

Contra a Previdência, há muito cobiçada pelos tubarões de Wall Street, vale tudo: desde dizer que haveria “milhões de pessoas” de mais de 100 anos “nas listas de pagamento” até a recente comparação do sistema de proteção intergeracional a uma “pirâmide de ponzi”.

Mais a investida dos jagunços da “eficiência governamental” fechando centros de atendimento e planejando demitir 50% dos servidores da Previdência, com endosso do interino nomeado por Trump, Leland Dudek, além de violarem o sigilo dos dados do órgão.

O senador democrata Ron Wyden denunciou que “demitir metade de todos os trabalhadores da Previdência Social garantirá que os idosos parem de ver seus benefícios ganhos chegarem a tempo e na íntegra”. Um plano desses – ele acrescentou – “resultará no fechamento de escritórios de campo que atingirão mais duramente os idosos nas comunidades rurais”.

Trump, por sua vez, no discurso anual ao Congresso norte-americano, o primeiro de seu segundo mandato, tentou induzir a população a crer que o mais importante sistema de salvaguarda dos trabalhadores de todas as idades dos EUA apresenta “níveis chocantes de incompetência e provável fraude”.

“Acredite ou não, os bancos de dados do governo listam 4,7 milhões de números da Previdência Social para pessoas de 100 a 109 anos”, mentiu Trump no discurso, utilizando as sandices que lhe foram sopradas na orelha por Musk, atual guru-mor da “eficiência”.

Haveria recebedores até com “360 anos”. Qualquer um com meio neurônio poderia perceber que não possível que, atravessando sucessivas administrações republicanas e democráticas desde 1936, tamanho escândalo – “recebedores com até 360 anos” – já não houvesse estourado.

Na verdade, pelos números oficiais da Previdência, são 99.000 os aposentados com 99 anos ou mais. O que acontece é que, ao informatizar o sistema na década de 1950, fez-se uso da mais avançada linguagem de computação da época, Cobol, que exige um ano de referência para iniciar a contagem do tempo. Foi adotado 1871, que somado a 65 anos – a idade então de aposentadoria – dá 1936, ano de criação da Previdência. É daí que advém o fake.

Se partisse de algum leigo, gente que não tem intimidade com computação, seria compreensível, embora asneira. Mas, partindo de Musk, só pode ser má fé. E, quando se juntam Musk e Trump na parada, é má fé.

Como denunciou o senador oposicionista Bernie Sanders: “Trump afirmou que milhões de pessoas mortas entre 100 e 360 anos estavam recebendo cheques da Previdência Social. Essa é uma mentira escandalosa destinada a estabelecer as bases para cortes na Previdência Social e desmantelar o programa governamental mais bem-sucedido e popular da história. Ninguém com 150, 200 ou 300 anos está recebendo cheques da Previdência Social.”

A equiparação do sistema de previdência, que é intergeracional, a contribuição paga por uma geração assegura que a geração que a antecedeu esteja protegida na velhice, conquista histórica dos trabalhadores, e que existe praticamente em todos os países do mundo, a um “esquema de ponzi”, aquelas pirâmides fraudulentas em que os que investem primeiro ganham os tubos, enquanto os retardatários ficam com o mico, seria por si só indecente, não fosse o agravante de ser dita por alguém que nasceu no berço do apartheid.

A bem da verdade, essa é uma velha reivindicação dos ultraliberais, adeptos da privatização da Previdência, para encher as burras dos banqueiros e escroques, uma receita já bem testada em lugares como o Chile de Pinochet. Assim, Musk vem sendo o pivô dessa nova escalada contra a Previdência Social nos EUA.

“Pagamos a Previdência Social desde o nosso primeiro salário e esperamos que os benefícios que ganhamos estejam lá quando precisarmos deles. Todos os americanos devem estar chocados com as ações imprudentes do governo Trump e seus asseclas DOGE”, disse o diretor executivo da Aliança dos Aposentados Americanos, Richard Fiesta.

O administrador interino da Previdência, Leland Dudek, por e-mail deu aos servidores até 14 de março para decidirem se submeter à tesourada anunciada, cuja meta é cortar 50% do pessoal.

O ex-administrador da Previdência Social e governador de Maryland, Martin O’Malley, advertiu que um corte dessas dimensões devastaria tanto a SSA que a equipe restante não seria capaz de obter todos os cheques mensais, processar reivindicações ou resolver disputas sobre benefícios por invalidez. Isso deixaria o sistema, do qual 72,5 milhões de pessoas dependem para obter renda, à beira do colapso, disse O’Malley ao The Hill e à CNBC.

O portal ProPublica denunciou que, de acordo com o site do DOGE, centros de atendimento aos aposentados serão fechados em todos os lugares, nos 50 estados, desde a zona rural da Virgínia Ocidental até Las Vegas, trazendo enormes consequências.

“Os fechamentos potencialmente reduzem o acesso à Previdência Social para algumas das pessoas mais vulneráveis deste país – incluindo não apenas aposentados, mas também indivíduos com graves deficiências físicas e intelectuais, bem como crianças cujos pais morreram e que foram deixados na pobreza”, acrescentou.

Tentativa semelhante de privatizar a Previdência Social ocorreu em 2005, no governo de W. Bush, mas acabou derrotada no Congresso e nas ruas.

A contestação pede que os registros sejam devolvidos à sede da Administração da Previdência Social e sejam apagados do banco de dados do DOGE. Em sua denúncia, as entidades assinalaram que “esta não é apenas uma coleta de dados sem precedentes. É uma tomada de poder sem precedentes”.

Agora, como parte da resistência ao à atual tentativa de desmanche da Previdência, entidades dos servidores e dos aposentados entraram nos tribunais contra a invasão da sede do órgão em Baltimore, em que os jagunços hi tech de Musk apreenderam ilegalmente registros financeiros e médicos pessoais e privados de milhões de pessoas.

Elas acrescentaram que “apenas uma vez antes uma Casa Branca procurou obter acesso a essas informações pessoalmente sensíveis”: durante o Watergate. O que foi respondido pela Lei de Reforma Tributária de 1976 e a Lei de Privacidade, colocando proteções amplas e decisivas em vigor para evitar o uso indevido presidencial de informações pessoais confidenciais.

“Estamos novamente diante de um exagero do Poder Executivo, ameaçando revisar e expor os dados pessoais de milhões de americanos, sem qualquer autoridade expressa e em violação das muitas proteções que o Congresso e o Poder Executivo ergueram para proteger contra essa mineração e uso indevido de dados”. Ainda mais levado a cabo por “um grupo de indivíduos não eleitos, não nomeados e não concursados”.

Fonte: Papiro