Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Fotomontagem a partir de Gregori Warchavchik, Retrato de Mário de Andrade, São Paulo, 1945. Arquivo Mário de Andrade, IEB-USP 

A mais mundana das festas ainda não havia passado pelo radar de Mário de Andrade. Pois chegou 1923, e o artista de várias artes que visitaria o amigo poeta Manuel Bandeira (o “São João Batista do modernismo”, segundo Mário) ficou pelo caminho.

Carnaval Carioca nasceu assim, de uma viagem não realizada para Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, para encontrar Bandeira, mas que rendeu uma experiência tão intensa – em mais uma etapa de sua busca pela alma brasileira – que fez o poeta confessar em versos: “Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos”.

O autor de Pauliceia Desvairada (1922) teve que romper com sua “frieza de paulista”, seus “policiamentos interiores” e “temores da exceção” para se entregar ao carnaval. Ao final do poema que descreve sua imersão nos dias de folia, conclui: “o poeta dorme sem necessidade de sonhar”.

Carta a Manuel

Naquele tempo, escrever cartas também era parte do dia a dia literário de muitos autores. Mário não era diferente e se detinha em produzir verdadeiras obras de arte em suas correspondências.

Na que endereçou a Bandeira pelo “furo” ao não visitá-lo, temos alguns dos bastidores do poema em questão. Mário de Andrade revela o que a aventura carnavalesca lhe proporcionou: “Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar”.

Descrita como “uma aventura curiosíssima”, na carta também o poeta voltou aos estigmas superados de sua essência paulista (assim como no poema), versou sobre a natureza foliã (“o carnavalesco legítimo, Manuel, é um puro“), descreveu sua diversão pelos quatro dias de folia e no fim se autoperdoou pela não visita.

“Meu Manuel… Carnaval!… Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia… Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar… Fui ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas… que delícia, Manuel, o Carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu Carnaval! […] Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria, que sei lá!, nunca seria capaz de imaginar um Carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o paulistamente. […] Admirei repentinamente o legítimo carnavalesco, o carnavalesco carioca, o que é só carnavalesco, pula e canta e dança quatro dias sem parar. Vi que era um puro! Isso me entonteceu e me extasiou. O carnavalesco legítimo, Manuel, é um puro. Nem lascivo, nem sensual. Nada disso. Canta e dança. Segui um deles uma hora talvez. Um samba num café. Entrei. Outra hora se gastou. Manuel, sem comprar um lança-perfume, uma rodela de confete, um rolo se serpentina, diverti-me 4 noites inteiras e o que dos dias me sobrou do sono merecido. E aí está porque não fui visitar-te. Estou perdoado.”  (MORAES, M. A.(org.). Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP, 2002, pp.84-85). 

“Lê e aconselha-me”

Em artigo do pesquisador Leandro Garcia Rodrigues [1], diretor do Centro Dom Vital, intitulado “Carnaval Carioca – A Complexa Biografia de Um Poema”, é destacado que na mesma carta Mário já fala para Bandeira que produzia o poema “Carnaval Carioca”, com a intenção de enviar ao colega: “começaram a se revelar fotografias e fotografias dentro de mim […]começou a desenrolar o filme moderníssimo dum poema”. (Moraes, 2000, p.85).

Em abril, o manuscrito chega a Bandeira, já passado pelo crivo do escritor e diplomata Graça Aranha, que considerou certas partes “românticas”. Na carta que encaminha o poema, Mário revela “oscilo, hesito e tremo” e pede ao final: “Lê e aconselha-me.”

A devolutiva do poeta menor (como ficou conhecido Bandeira ao se autorreferenciar no poema Testamento), aponta o que lhe desagradou no “Carnaval” de Mário, mas sem deixar de dizer que o considera maravilhoso e o mais belo poema que o colega já tinha feito.

Como explica Rodrigues, os apontamentos foram acatados para a versão final. Dentre eles uma mudança substancial no início do poema e outros versos considerados inferiores.

Na carta de devolutiva com as indicações, Bandeira exalta as diferentes tendências estilísticas trazidas no poema, sem deixar de lado a questão fundamental para os primeiros modernos, como lembra o pesquisador, o que é ou não “arte moderna”?

Acho que o teu “Carnaval” é um triunfo, um grande triunfo para a arte moderna, pois trabalhando dentro da técnica moderna, fizeste uma coisa a cavaleiro dessa mesma técnica, obra de admirável universalidade onde ao mesmo tempo, a tua personalidade parece ter alcançado a plenitude de projeção. […] E a cantiga do berço final? Tem partes românticas? Sim. E clássicas também. E parnasianas. E simbolistas. E impressionistas. E dadás. E seja lá o que diabo for. Mas tudo isso comido, digerido, assimilado, absorvido e feito vida, a vida pessoalíssima do meu caro Mário de Andrade. (Moraes, 2000, p.90).

[1] RODRIGUES, Leandro Garcia (org.). Esperança da Armada – Estudos Interdisciplinares do Colégio Naval. Rio de Janeiro: Marinha do Brasil, 2011

‘Carnaval Carioca’

O poema Carnaval Carioca consta no livro Clã do Jabuti (1927), que reúne poemas escritos por Mário de Andrade entre 1923 e 1926. Veja os primeiros versos abaixo:

Carnaval Carioca (1923)
a Manuel Bandeira

A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos
Bulhas de cor bruta aos trambolhões
Setins sedas cassas fundidas no riso febril…
Brasil!
Rio de Janeiro!
Queimadas de verão!
E ao longe, do tição do Corcovado a fumarada das nuvens pelo céu.

Carnaval…
Minha frieza de paulista
Policiamentos interiores,
Temores da exceção…
E o excesso goitacá pardo selvagem!
Cafrarias desabaladas
Ruínas de linhas puras
Um negro dois brancos três mulatos, despudores…
O animal desembesta aos botes pinotes desengonços
No heroísmo do prazer sem máscaras supremo natural.

Leia o poema completo de Mário de Andrade clicando aqui.