Casa de Shows foi incendiada pelos terroristas | Foto: Sergei Vedyashkin/AFP

Enquanto o número de mortos no atentado terrorista contra a casa de shows nos arredores de Moscou aumentou para 143, as autoridades russas continuam suas investigações para, como ordenou o presidente Vladimir Putin, achar os que deram as ordens.

Como registrou o presidente russo, antes mesmo que o incêndio na casa de shows fosse apagado, os EUA começaram a gritar que “não foi a Ucrânia”. Poucas horas após o ataque, Washington já sabia quem seria o “mentor”, supostamente um braço do Estado Islâmico, o ISIS-K (de Khourassan, instalado no Afeganistão).

“Eles só levaram poucas horas [depois do ataque] para pegarem um microfone, acenderem as luzes, chamarem a imprensa e tirarem a conclusão sobre quem deve ser acusado por este ataque terrorista horrivelmente sangrento em Moscou”, disse Putin.

“EUA SE AUTO-INCRIMINA”

Comportamento que, para Putin, “é uma peça de evidência incriminadora. Eu não posso classificar de outra forma, é uma evidência em si mesma”.

“Nós sabemos quem fez o atentado”, enfatizou Putin, mas estamos interessados é em saber “quem ordenou o ataque terrorista”.

“O ataque de 22 de março é um crime terrível, um ato de intimidação e a pergunta que surge é quem se beneficia”, acrescentou o presidente russo.

“É preciso respostas a perguntas como ‘é verdade que organizações islâmicas radicais querem atacar a Rússia, culpando-a pela exacerbação do conflito no Oriente Médio?’”.

E, ainda, “como radicais islâmicos que estão sendo apontados como muçulmanos verdadeiros cometem tais atrocidades no mês santo do Ramadã?”, questionou Putin.

ELO DA CADEIA

Para o presidente russo, tudo aponta para um vínculo “com uma cadeia tentada por aqueles que desde 2014 estão em guerra contra o nosso país, os nazistas, o regime que nunca parou ante qualquer meio, qualquer tipo de desumanidade para alcançar seus objetivos”.

“Especialmente agora quando sua assim chamada contraofensiva como é reconhecido por todos e as forças armadas russas detêm a iniciativa ao longo de todo o front, e nenhuma tentativa ucraniana de estabilizar a situação teve sucesso”.

“Isso levou às suas tentativas de penetrar em nossas fronteiras e seu bombardeio de infraestrutura civil russa, inclusive de energia, suas tentativas de atacar a ponte da Crimeia, esses passos formam uma sequência lógica de ataques terroristas e tentativas de intimidar a sociedade russa”.

Putin assinalou a “velocidade assombrosa” com que exoneraram a si próprios, ao regime de Kiev, e atribuíram o atentado ao ISIS.

“Eu penso que eles se enfiaram em um canto, porque logo que eles começaram a gritar que foi o ISIS, todas as pessoas que trabalham com inteligência, cientistas políticos, lembraram de como o ISIS chegou à existência. Vocês estão por trás de todas as estruturas do tipo ISIS, foram vocês que as trouxeram à existência”, sublinhou Putin.

INVESTIGAÇÕES

Como salientou o presidente do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Ziuganov, “seus perpetradores, organizadores e inspiradores devem sofrer o castigo merecido”.

O líder comunista russo apontou como “nos últimos meses, o deslizamento do regime Bandera em direção a táticas terroristas tornara-se cada vez mais óbvio”. “Incapaz de vencer no campo de batalha, a junta entrincheirada em Kiev recorre cada vez à sabotagem na esperança de intimidar nossos cidadãos”. Ele lembrou ainda como o chefe do serviço secreto ucraniano (SBU), “o criminoso Budanov”, se gabava abertamente dos planos “para organizar tais atrocidades”.

Para o diretor do Serviço Federal de Segurança FSB), Alexander Bortnikov as investigações apontam no sentido de que o atentado foi executado por radicais islâmicos, com conexão direta com o serviço secreto ucraniano e “facilitação” dos serviços secretos ocidentais.

Segundo o presidente russo, Vladimir Putin, esses “islamitas radicais” foram pegos fugindo “em direção à Ucrânia, onde, de acordo com dados preliminares, uma janela para cruzar a fronteira foi preparada”.

“SEJA QUEM FOR E ONDE QUER QUE ESTEJA”

Os responsáveis pelo ataque “serão punidos seja quem for e onde quer que estejam”, declarou o presidente russo. Quando questionado se EUA, Reino Unido e Ucrânia poderiam estar por trás do ataque terrorista, o chefe do FSB respondeu: “Achamos que é assim. Seja como for, estamos agora a falar das informações de que dispomos. São informações gerais, mas [os investigadores] também têm resultados concretos.”

Quatro atiradores foram capturados quando tentavam chegar à Ucrânia no carro usado no atentado e outras sete prisões se seguiram. Os presos já foram apresentados ao Tribunal de Basmanny, em Moscou, e tiveram prisão temporária decretada até 22 de maio.

A propósito, como registraram analistas, a execução do atentado por “radicais islâmicos”, supostamente do “ISIS-K”, não tem necessariamente contradição com a ordem partir do outro lado do Atlântico, planejamento de Kiev e, quem sabe, a costumeira mãozinha britânica.

Assim como os porta-vozes da Casa Branca, logo após o atentado, os principais meios de comunicação norte-americanos, como The New York Times e o Washington Post, excluíram terminantemente qualquer ligação entre esse ataque terrorista e a guerra por procuração da Otan contra a Rússia na Ucrânia, e o próprio regime de Kiev, ou qualquer envolvimento significativo dos EUA.

Isso, levando em conta que o regime de Kiev surgiu de um golpe armado pela CIA em 2014 e que até as pedras do cais sabem que quem explodiu o gasoduto Nord Stream 2 foi o governo Biden.

Também chama a atenção de que o atentado ocorreu após começarem a surgir, inclusive na mídia dos EUA, relatos que antes vinham sendo abafados sobre o papel da CIA na Ucrânia desde 2014.

Ainda, declarações com origem na Casa Branca de que não estaria de acordo com certas operações ucranianas contra a Rússia, como os ataques a refinarias.

Também a declaração da parteira de Maidan, Victoria Nuland, em janeiro, prometendo a Putin “surpresas desagradáveis”. Ao que se soma o comunicado da embaixada norte-americana em Moscou aos seus cidadãos no dia 7, alertando sobre um atentado iminente.

NARRATIVA DE WASHINGTON NÃO BATE

Diferentes analistas assinalaram que a narrativa emanada de Washington “não batia” e a suspeição do regime de Kiev se mantém, com os mais céticos ironizando sobre o ‘Califado ucraniano’.

Em primeiro lugar, há os antecedentes comprovados de terrorismo ucraniano, como o atentado que matou a filha do filósofo russo Dugin (em que ele, presumivelmente, é que era o alvo), o que matou um blogueiro com origem no Donbass em Moscou e vários outros que mataram sucessivas lideranças das repúblicas populares.

Como disse o chefão do SBU, Budanov, “matamos russos e continuaremos a matar russos em todo o mundo, até a vitória completa da Ucrânia”. O organismo também esteve por trás do bombardeio de um caminhão cheio de explosivos na ponte da Crimeia no outono de 2022.

Ainda, montou uma conexão com islâmicos, com foco em certos grupos tártaros e chechenos. Além de, segundo a indiscrição do Post, ter sido praticamente reconstruído “do zero”, pela CIA, desde 2014.

Como observou o grupo de jornalismo investigativo Diretoria 4, citado pela RT, quando se compara o ataque terrorista nos arredores de Moscou com outros ataques do Estado Islâmico, nota-se “mais diferenças do que semelhanças”.

Como o alvo em Crocus foi um show de uma banda de rock (Piknik), a comparação que surge é com o horrível ataque na França em novembro de 2015, quando terroristas do Estado Islâmico invadiram o Teatro Bataclan, em Paris, onde acontecia apresentação da banda norte-americana Eagles of Death Metal, mataram dezenas de pessoas e, quando a polícia invadiu o local, se suicidaram acionando cintos explosivos.

Como apontou o Diretório 4, nenhum dos terroristas de Moscou planejava ir mais cedo para o paraíso, “como é usual para os seguidores do ISIS”. “Depois de atirar em pessoas na prefeitura de Crocus e incendiar o prédio, eles não atacaram as forças especiais que chegaram ao local e, em vez disso, entraram em um carro e fugiram de Moscou. Tampouco usavam ‘cintos suicidas’ – um detalhe característico dos seguidores do EI que estão prontos para morrer após cometerem o crime”.

Outro detalhe – acrescentam esses analistas – que não é característico do ISIS é “a recompensa monetária prometida aos terroristas”. “O pagamento deveria ser feito em duas parcelas – antes e depois do ataque. Os terroristas já haviam recebido o primeiro pagamento, no valor de 250.000 rublos (US$ 2.700)”.

Na verdade, registra o D4, “a escolha de um concerto de rock como local do ataque terrorista é quase a única característica comum” entre este ataque e outros atos de terror que o ISIS cometeu.

Também chama a atenção como foi o “recrutamento” dos integrantes para o ataque terrorista, quatro pessoas que não se conheciam anteriormente, oriundas do Tajiquistão. Um deles, Shamsidin Fariduni, esteve na Turquia em fevereiro e, de lá, voou para a Rússia em 4 de março. Ele passou pelo menos dez dias na Turquia e os investigadores estão atualmente determinando com quem ele se comunicou enquanto estava lá. Foi Fariduni que visitou o local do show em 7 de março, para conhecer o local do crime.

PREGADOR ISLÂMICO?

De acordo com informações extraoficiais, Fariduni se encontrou com um certo “pregador islâmico” em Istambul. No entanto, também se sabe que os terroristas se correspondiam com o “assistente do pregador”. Segundo ele, essa pessoa anônima patrocinou e organizou o ataque terrorista.

Curiosamente – o comentário é do D4 – “no mesmo dia, a embaixada dos EUA na Rússia alertou seus cidadãos a evitarem grandes reuniões ‘nas próximas 48 horas’ devido a possíveis ataques de extremistas”. Estava marcado para o dia 9 um show do cantor Xamã, mas aparentemente “os terroristas foram forçados a ajustar seus planos”.

Ao contrário dos terroristas do Bataclan, os da casa de show nos arredores de Moscou não ficaram para enfrentar a polícia, antes disso entraram no carro e se safaram rumo à fronteira com a Ucrânia.

“Apesar de os terroristas estarem armados, apenas um deles, Mukhammadsobir Fayzov, resistiu. Todos os terroristas foram detidos vivos, o que provavelmente foi uma ordem dada às forças de segurança envolvidas na operação. No entanto, como mencionamos acima, os próprios terroristas não queriam morrer”.

TOCA “PRA KIEV”

Aparentemente, eles sabiam para “onde ir para salvar suas vidas: até a fronteira ucraniana”. O que também não é característico do ISIS, “já que alguém que realiza um ato terrorista, especialmente um forasteiro, é sempre considerado ‘descartável’”.

Como conclui o grupo investigativo, “tudo isso se resume ao fato de que, em comparação com outros ataques realizados pelo ISIS nos últimos anos, este é surpreendentemente diferente quanto ao nível de preparação, planejamento detalhado e compensação financeira”.

Voltando ao SBU, que já vem utilizando nazistas russos para ataques terroristas contra regiões russas na fronteira, não seria muito diferente fazer uso de supostos “radicais islâmicos”, na verdade, mais um tipo de mercenário disponível.

Para o analista geopolítico Andrew Korybko, uma explicação possível é que agentes ucranianos “se fingiram ser membros do grupo terrorista ISIS-K para poder negar tudo com credibilidade, caso o ataque planejado fosse frustrado ou os terroristas fossem posteriormente capturados vivos”.

Segundo um dos atacantes capturados, o grupo havia sido recrutado há apenas um mês pelos curadores de um canal radical do Telegram para realizar o ataque com armas e munições já depositadas em Moscou, em troca de um pagamento em cartão de crédito.

ISIS-K?

Outra incongruência apontada pelo menos por dois analistas distintos, Korybko e Dmitry Trenin, este, pesquisador russo de Relações Internacionais, foi a referência dos EUA a um site de notícias ligado ao ISIS que reivindicou a responsabilidade pelo atentado.

Trenin registrou que “normalmente todas essas fontes são submetidas a verificações minuciosas. Mas não desta vez. Porta-vozes americanos declararam imediatamente, e sem avisar, que a Ucrânia não estava de forma alguma ligada ao ato de terror”.

Para ele, a escolha norte-americana pela versão da cumplicidade do ISIS e o uso de cidadãos tajiques para realizar o ataque “podem ter como objetivo alimentar tensões interétnicas dentro da Rússia entre a maioria eslava e a população minoritária muçulmana, tanto local quanto imigrante”.

Outras críticas à versão americana incluem o estilo do ataque (não foram feitas declarações ou exigências políticas); a admissão por um dos agressores capturados de que ele havia atirado em pessoas inocentes por dinheiro; e o fato de que isso não foi planejado como uma operação suicida.

Por sua vez, Korybko registrou que no comunicado do suposto ISIS-K de “autoria”, foi usado uma imagem gráfica desatualizada e que já não estava em uso.

Ainda sobre o ISIS-K, quem acompanhou a reta final pré-retirada dos EUA do Afeganistão, notou insistentes informações de que o novo rebento islâmico havia sido, em grande parte, transferido desde instalações norte-americanas na Síria ocupada para o Afeganistão, estrategicamente para a região que faz fronteira com Xinjiang, na China, com transporte propiciado pela CIA, como diz um registro feito em 2021 pelo Wall Street Journal.

Fonte: Papiro