O Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo decidiu ao final da reunião realizada em Bogotá, de 13 a 15 de abril, convocar o XXVI Encontro em 29 e 30 de junho e 1 e 2 de julho de 2023, na cidade de Brasília, “momento no qual nos reuniremos para intercambiar experiências de luta, de governos progressistas, reflexões e caminhos para avançar, guiados pelo princípio de construção da unidade na diversidade”.

Para antecipar debates e clima deste evento, a reportagem entrevistou a secretária-executiva do Foro de São Paulo, e dirigente petista, Mônica Valente. Segundo ela, a opção pelo Brasil, neste primeiro encontro presencial desde a pandemia, teve como primeira motivação a celebração da vitória do presidente Luis Inácio Lula da Silva na eleição de 2022. 

“Todas as organizações e partidos que compõem o Foro de São Paulo torceram muito por essa vitória e pela derrota da extrema-direita que se organiza em todo o mundo”.

O Foro é um organismo de articulação, que agrega movimentos, organizações e partidos do campo progressista para troca de experiências, atualização de análise de conjuntura, solidariedade internacional para, eventualmente, incidir com propostas discutidas em seus governos locais.

Expectativas

Mônica avalia que, após vários golpes parlamentares e midiáticos, e derrotas eleitorais, a esquerda perdeu muitos governos que hegemonizou no final dos anos 1990 e início do século. Mas, na opinião dela, a luta de resistência dos povos, dos movimentos e dos partidos contra o projeto neoliberal fez com que se alterasse a correlação de forças, e partidos desde campo voltassem a governar muitos países. Ela destacou o caso de Chiomara Castro, em Honduras, que foi onde ocorreu o primeiro de uma série de golpes que nublaram as democracias do continente. Seu marido, Manuel Zelaya, governou de 2006 a 2009, ano em que uma aliança político-militar o tirou do governo, a seis meses de concluir seu período.

Existe muita expectativa em torno deste Foro, pela representatividade de cúpulas de governos que podem comparecer. “Óbvio que a estrela deste Foro é o presidente Lula, que é fundador, e todos querem ouvi-lo e conversar, mas também celebrar esta vitória com ele. Inclusive pelo fato de que, quando ele esteve injustamente preso, em todos estes países houve muitas ações em torno da campanha Lula Livre”, destacou.

Ambiente de fake news

O FSP não esteve parado no período da pandemia, por realizar encontros remotos e acompanhar as eleições da Colômbia, uma reunião em Caracas, seminários no México. Mas ela considera que esta é a retomada dos encontros anuais, presencialmente, desde 2019. Os encontros remotos representaram um aprendizado, mas presencialmente há um intercambio mais profícuo entre os militantes e representantes de partidos.

“A importância de retomar o encontro anual é que o FSP é objeto de muitas notícias falsas por parte da extrema-direita. O Foro de São Paulo nunca foi secreto. Fazer o encontro aqui, onde podemos transmitir, muitos jornalistas e órgãos de imprensa podem acompanhar e ver como funciona, é uma maneira de combater estas fake news que atacam nossas ideias. Como essas ideias envolvem muita gente, não só o Foro, elas são muito fortes”, afirmou. Monica observou que nas eleições de 2022, a rede de extrema-direita que explorou este ambiente de fake news, com muita intensidade e financiamento, inclusive do governo Bolsonaro, torna importante a realização do evento no Brasil.

Assista à íntegra da entrevista:

Pandemia e guerra

Em Bogotá, foi construída uma declaração final que tem um caráter de contextualizar a conjuntura internacional com ênfase da América Latina e Caribe. Assim, o texto atualiza os efeitos da crise do capitalismo de 2008, que ainda não se resolveu. Mas também a pandemia que derrubou paradigmas neoliberais. “O tema das cadeias produtivas globais, que produzia seringas num canto do mundo e as vacinas em outro, de repente, todo mundo se viu sem insumos, porque as cadeias produtivas globais foram todas rompidas. E este era um paradigma neoliberal importante, que dizia que o mundo não seria regulado pelos estados-nação, mas pelo mercado, com cadeias produtivas financiadas pelos grandes fundos internacionais e grandes bancos”, explicou a dirigente.

A própria guerra de hegemonia na Ucrânia também revela a ineficácia dos paradigmas neoliberais, conforme avança sobre o mundo a inflação, o custo da energia, a insegurança alimentar. São temas que afetam a região, segundo Mônica, pela capacidade de geração de energias renováveis, mas também pela capacidade de alimentar todo o seu povo e “muito mais gente”. 

Portanto, a inflação, dívidas impagáveis ao FMI, como a da Argentina deixada por Macri, acordos comerciais são diretrizes de trabalho apontadas pelo texto do GT. A integração entre os países da região pode se dar em termos energéticos, produtivos, segurança alimentar, reindustrializar para não ser apenas exportadores de commodities, mas gerar empregos de qualidade e resolver gargalos históricos.

Mônica diz não ter dúvida de que a América Latina pode vir a se unir ao esforço do presidente Lula de uma negociação pela paz na Ucrânia. Ela lembra que, desde sua fundação, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) proclama a região como “zona de paz”. “Lógica que esta é uma questão a ser construída, pois Donald Trump já ameaçou invadir militarmente a Venezuela, o que criou um mal-estar, mesmo entre governos de direita do continente”, ponderou. 

“Se você olha para o mundo, hoje, só o presidente Lula está falando em paz, enquanto outros estadistas fomentam a guerra. Outro que também discutiu esta possibilidade de diálogo foi o presidente López Obrador, do México, que esteve na presidência da Celac”, salientou.

China e AL

O Foro também interage com o Partido Comunista da China e o governo chinês para seminários conjuntos. Durante a pandemia, foram realizados eventos de intercâmbio de experiências sobre o fim da pobreza extrema na China, uma meta para 2030 que foi antecipada em dez anos. “Junto com políticas de transferência de renda e segurança alimentar, eles se envolveram num processo de criar em cada região da China uma vocação econômica, financiando indústria e agricultura local”, contou.

Mônica, no entanto, esclarece que o Foro não tem incidência sobre decisões de países ou partidos sobre com quem devem se relacionar comercialmente. Apenas aplaude decisões como a de Lula não exportar armamentos para a Alemanha transferir para a Ucrânia.

O Foro procura se articular com agrupamentos políticos progressistas, mesmo em países como os EUA. É o que ocorre com o DSA (Democratas Socialistas da América) nos EUA, que envolve lideranças, movimentos e parlamentares democratas, como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Devido a este protocolo de cooperação, há campanhas de advocacy no Congresso americano contra as sanções econômicas e bloqueio a Cuba.

A secretária-executiva do FSP ressalta a defesa do multilateralismo contra a tentativa de retomada da guerra fria que os EUA tentam impor, dividindo o mundo em blocos capitalista e socialista, para que os países se relacionem apenas sob o crivo ideológico e não multilateral. “Não vamos ter alinhamento automático, nem com a China, nem com ninguém, porque defendemos o multilateralismo como um dos pilares do Foro”, declarou.

Crises nas democracias

O Foro pode contribuir para reduzir instabilidades e crises políticas, caso seja consultado. Monica disse que há um cuidado em não interferir nos assuntos internos de partidos de outros países, a não ser que estes partidos peçam ajuda para uma mediação ou contribuir com uma discussão eleitoral. Ela citou o caso do Peru, em que o Foro não se posicionou no primeiro turno, quando dois partidos membros tinham as candidaturas de Pedro Castillo (Peru Livre) e Verónika Mendoza (Novo Peru) em disputa.

“Mas, no segundo turno, eles nos pediram para ajudarmos a construir uma unidade entre eles para derrotar a Keiko Fujimori. Fizemos várias reuniões, ouvimos as partes, ajudamos a construir um programa unitário, mas por solicitação deles”, explicou.

Em relação a crise atual, em que Castilho foi destituído do governo, o que gerou uma revolta popular que tem sido reprimida de forma violenta pelo governo de Dina Boluarte, o Foro tomou uma iniciativa. “Estamos propondo uma missão de direitos humanos no Peru, independente das diferenças de opinião entre os partidos, porque a democracia e o resultado eleitoral nos une a todos. Também nos posicionamos contrários ao que o governo, o Exército e as polícias vêm fazendo com o povo peruano”, antecipou ela, referindo-se ao clima de terror contra os movimentos sociais e seus protestos democráticos.

Integração de política ambiental

Um dos eixos de debate na última reunião, segundo Monica, é a questão ambiental. O presidente Lula sinaliza, desde a campanha eleitoral, sua intenção de buscar um diálogo com os vizinhos, especialmente aqueles que detém partes da Amazônia, como a Venezuela, Colômbia, Guianas, Bolívia, Equador, Peru e Suriname. Com isso, já está prevista para agosto uma Cúpula da OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), em Belém.

Monica diz que os partidos do Foro desejam uma reindustrialização dos países do continente, mas com previsão de transição ambiental, seja do ponto de vista energético, como do ponto de vista da agregação de valor em ciência e tecnologia para reduzir impactos ambientais. Por isso, o FSP pretende fazer em paralelo à cúpula da OTCA uma reunião com movimentos e partidos, como foi feita a cúpula da Celac, em janeiro, em Buenos Aires, acompanhada por uma reunião da sociedade civil para apresentar propostas aos governos.

(por Cezar Xavier)