Notas Provocações: Sobre raça, gênero e nação – Parte 1

Provocações iniciais, considerando o conceito de interseccionalidade

A leitura simplificada do marxismo, ou seja, sem relacionar teoria a momentos históricos, assim como a desqualificação da produção de esquerda dos tidos como poderes/saberes menores, como o feminismo, e nesse destaco o “feminismo negro”, e do acervo sobre história do povo negro, a importância da escravidão para a formação contemporânea da nação,  e a complexidade dos debates sobre etnicidade, leva a muitos ‘capas’ da esquerda no Brasil, em nome de salvaguardar a pureza do marxismo, a repetir acriticamente escritos de autores norte americanos sobre a chamada políticas de identidades.

Por Mary Garcia Castro*

O que se convencionou chamar de políticas de identidades, a questão dos direitos dos negros, das mulheres, dos homossexuais, por exemplo, de fato nos EEUU é visibilizada por uma corrente de orientação liberal, individualista, fragmentaria, guetoizante. Mas não necessariamente é o debate sobre identidades,  propriedade somente de uma corrente de conhecimento, e somente com acento no ‘eu’, ao contrário. Há formulações, de orientação marxista e estruturalistas de peso sobre a importância das chamadas lutas identitárias para a luta de classes e de redes de movimentos sociais contra o capitalismo, como os escritos de Ângela Davis, David Harvey, Frédéric Jameson entre outros.

         No blog “Oriente Mídia   Cultura de Resistencia” na matéria intitulada “Gilad Atzmon: Charlottesville e o Problema da Política Identitária de Direita e de Esquerda nos EUA” (‘tuitado no Brasil por um  ex  dirigente do PCdoB), o autor chega ao absurdo de declarar que:

No meu recente livro ‘Being in Time – a Post Political Manifesto’, ressaltei que o Ocidente e especialmente os EUA têm sido levados na direção de um duelo identitário. Nesta semana no estado da Virgínia (Charlottesville) vimos uma amostra disso.

No livro argumento que a transição política da esquerda tradicional para a neo-esquerda (New Left) pode ser entendida como a defesa feroz de ideologias desagregadoras e sectárias. Enquanto a antiga esquerda esforçou-se para aglutinar todos: gays, negros, judeus ou brancos em uma luta política contra o capital, a neo-esquerda tem conseguido nos dividir em segmentos identitários. Somos adestrados a falar ‘como um…’: “como um judeu, ’ ‘como um negro, ’ ‘como uma lésbica. ’ A neo-esquerda ensinou a nos identificarmos com nossa biologia, com nosso gênero, orientação sexual e cor da pele, desde que não seja ‘branca’, naturalmente.

O que o autor omite é que ser negro, ser judeu, ser mulher nos EE.UU e em muitas partes não se resume a ter uma característica biológica, mas estar vulnerabilizado por preconceitos e discriminações e que por outro lado como bem coloca Ângela Davies, precursora da perspectiva de entrelace entre classe, gênero e raça, a partir do ambiente de esquerda norte americano nos anos 80:

As organizações de esquerda têm argumentado dentro de uma visão marxista e ortodoxa que a classe é a coisa mais importante. Claro que classe é importante. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas a raça também informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que    gênero é a maneira como raça é vivida. A gente precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras.[1]

Se o objetivo é compreender como a combinação de categorias podem ocasionar resistências, há que estar atento,  para a correlação de forças, para contextos que estimulam produtos singulares.   Inclusive pede mais destaque para processos e estruturas pois em certos momentos históricos, uma categoria tem mais peso. Ou seja, mais que características, enfatizo que fenômenos como classe, relações étnico-raciais e gênero, não estão referidos apenas a posições e características dos indivíduos (perspectiva funcionalista) mas a processos estruturantes de relações sociais (perspectiva dialética marxista). Nas combinações entre aquelas categorias sociais ademais não se tem uma soma simples, cada termo não se mante sem transformações, ao contrário, e o produto   das combinações pede olhar atento.

Concordo que a estrutura de classe condiciona práticas, mas não as determina, nem limita alianças construídas em nome de interesses de algumas categorias sociais. Na alquimia das categorias (Castro,1992), nem o conceito de classe se reproduz na íntegra, estando sujeito a reapropriações.

Provocações

De fato em todas as estatísticas e estudos de caso a equação que combina situação de classe, de raça e gênero tem como produto piores condições e sofrimentos sociais das mulheres negras pobres, tidas como na “base da pirâmide social brasileira”, como bem alertam Winnie Bueno, Joanna Burigo e Rosanna Pinheiro Machado no artigo “O Brasil Pós Impeachment a partir da vida das Mulheres” (Ver CULT n 227, set 2017). Segundo essas autoras:

A violência, o machismo, o racismo e a xenofobia são o próprio sistema [capitalista] Portanto vale certa cautela com analises que percebem a crítica feminista e antirracista como unicamente “culturais” – e não estruturais, como de fato são. Logo uma crítica adequada ao capitalismo será necessariamente uma crítica feminista e antirracista pois a dimensão violenta do capital se manifesta entre as maiorias subalternizadas. (P 34)

A intenção destas notas  não é entretanto se limitar a uma perspectiva restrita aos direitos humanos e à micro política, ainda que importantes para políticas sociais que enfrentem vulnerabilizações, mas redirecionar o enfoque sobre intersecções considerando processos estruturantes das formações capitalistas e do neocolonialismo, como a brasileira e refletir sobre o lugar das relações étnico raciais  e  do patriarcado (este mais explorado em um segundo artigo) e na luta de classes,

Apresento, para debate, as seguintes provocações:

  1. Que a escravidão foi processo estruturante da nação e não é formação do passado, mas que ainda hoje condiciona como nos pensamos como brasileiros e como nos relacionamos com o outro, a outra, além de ser conveniente tal sistema de relações étnico raciais marcadas pela escravidão, para o capitalismo. Modela uma força de trabalho, negra, que predomina entre os mais explorados e cada vez mais entre os que eram na economia política clássica tidos como reserva e hoje como bem coloca o filosofo Agaben (2009) “vidas descartáveis”, produtos de uma ‘necropolitica’[2]-a legitimidade de matar ou deixar morrer. O aparato violento do Estado, a polícia, mais contribui para tal descarte com o assassinato de jovens negros pobres

Por outro lado, a maior probabilidade de explorar, desconhecer a humanidade do negro, da negra serve ao capital neocolonial para mais submeter a todos todas trabalhadores/, desqualificar saberes como as cosmovisões dos afro descendentes e assim legitimar elitismos e projetos de dominação que precisam de seres dóceis, desencantados e de baixa autoestima

Daí outra provocação para o nosso debate comunista:

  1. Separar classe de raça é ao meu juízo um equívoco, ou uma leitura anacrônica do marxismo, O desencanto das vidas que se sabem descartáveis com a política, o não se sentir sujeitos, mas assujeitados em projetos que não lhes chega, mais contribui para que a luta de classes seja favorável aos das classes dominantes. Já Marx ponderava que são várias as populações para o capital, e que no capitalismo se recorre a diferenças tidas como naturais para acirrar competições, diversidade que ajudam que mais se explore alguns e ao mesmo tempo todos das classes dos sem propriedades

[1] DAVIS, Ângela cit. in prefacio RIBEIRO, Djamila, Davis, Ângela. “Mulheres, Raça e Classe”, Ed Boi Tempo, São Paulo, 2016.  Sobre feminismo negro ver também outros artigos in Geledés-Instituto da Mulher Negra-http://www.geledes.org.br

[2] Conceito cunhado por Achille Mbembe, ver Mbembe – https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993  – ARTE & ENSAIO N 32,  2016

*PhD em Sociologia; bolsista CNPq; pesquisadora da FLACSO-Brasil. Membro da Secretaria de Formação-PCdoB-BA