José Carlos Ruy: Classe, raça, gênero – identidades

Camaradas, este artigo surgiu da reflexão sobre os parágrafos 54 e 122 do Projeto de Resolução: Frente ampla: Novos rumos para o Brasil – Democracia, soberania, desenvolvimento, progresso social. Aqueles parágrafos tratam da atuação dos comunistas “em todas as causas que envolvem anseios populares, nos termos da realidade contemporânea na ampla variedade de vivências sociais, reivindicações, formas de organização e de ativismo digital,” na perspectiva do Programa Socialista para o Brasil do PCdoB. Abordo aqui, genericamente, as chamadas “causas identitárias”, quase sempre encaradas como ligadas ao multiculturalismo, e que proliferam em nosso tempo no campo das lutas avançadas pelo progresso social.

Por José Carlos Ruy*

Estas causas “identitárias” se referem às lutas antirracista, contra a opressão da mulher, pelo respeito às opções sexuais e aos anseios da juventude.

São causas que impactam diretamente a democracia.

A democracia não se desenvolverá nem se consolidará enquanto a sociedade brasileira não equacionar e ultrapassar o enorme obstáculo que é o racismo próprio que há em nosso país.

Este é um axioma que precisa ser assumido por todos os que defendem o progresso social, a democracia e o socialismo.

Há uma visão tradicional, que os comunistas brasileiros ultrapassaram em grande medida, segundo a qual a principal contradição é aquela que opõe as classes sociais antagônicas, que põe em confronto a burguesia e o proletariado.

O foco desta visão está no centro da luta social, não pode haver dúvida sobre isso. É a contradição que expõe e permite entender todas as outras, considerada específicas ou identitárias. E que, por uma compreensão equivocada, são relegadas a um segundo plano, subordinadas à luta contra a opressão de classe, que seria a principal.

É preciso reconhecer que a dominação de classes é condicionada pelas chamadas questões “específicas”. Muitas vezes, com base numa visão estreita, deixa-se de levar em conta as outras dimensões que fazem parte da luta de classes, e conformam a identidade de classe.

Há o engano inverso da ênfase ao “específico”, ao “identitário”. Postura muitas vezes vista como “moderna”, e que coloca no centro da luta a resistência contra aquelas dominações “específicas”, e que desconsidera a luta de classes,sobretudo quando organizada em partidos, e em sua dimensão institucional, organização que é fator fundamental das lutas pela liberdade e contra a opressão.

O racismo, a opressão da mulher, as rejeições por motivos de idade, fé religiosa e orientação sexual, e todas as demais formas de opressão que afligem o povo e os trabalhadores, fortalecem e reforçam o domínio de classe. Lênin já ensinava que cabe aos comunistas, que são os democratas mais radicais, lutar contra todas as formas de opressão com que se deparam na busca pela libertação de todo o gênero humano.

Os aspectos “específicos” u “identitários” fazem parte de uma mesma realidade opressiva contra a qual o povo resiste. São expressas na dominação de classe, e devem ser incorporadas nos programas da luta pelo socialismo.

O preconceito racial, a opressão da mulher, todas as maneira de considerar o outro como inferior e subalterno, fazem parte objetivamente do mesmo domínio de classe e o fortalecem. Os salários inferiores pagos a negros e mulheres forçam para baixo a situação real de todos os trabalhadores e os afeta não apenas pelo rebaixamento de sua remuneração mas também pela precarização, de forma geral, das condições de trabalho. Este é um aspecto do reforço das condições de dominação de classe que resulta de preconceitos contra legiões de seres humanos.

Outro aspecto que deve ser lembrado é o clima de insegurança e medo criado pelo feminicídio e pela violência policial que massacra negros e mestiços, sobretudo jovens. O clima de medo atinge a todos. A generalização do medo favorece aos opressores.

São formas de violência que tem base em preconceitos contra negros e mulheres, e seu resultado é manter a subordinação aos poderosos e, em última instância, reforçar o domínio de classe.

A luta contra a opressão não é uma luta específica de negros, mulheres e outras vítimas de injustiças e violências –é a luta de todos, homens, mulheres, independente da cor de sua pele ou do formato de seus corpos; é a luta de homens e mulheres, de pele clara ou escura, que exigem a aplicação cotidiana do princípio de que todos são iguais perante a lei – e a sociedade.

A incorporação de reivindicações específicas e identitárias, como a luta contra o racismo ou a opressão da mulher – luta radical pelo igual direito de todos à conquista da felicidade e pelo respeito da dignidade humana de cada um – reforçam e aprofundam a compreensão da dominação de classe contra a qual todos lutamos. São dimensões quase sempre cruéis dessa dominação, e que precisam ser derrotadas, na busca pela transição ao socialismo, por uma forma superior e justa de organização da vida.

A luta contra estas dimensões da dominação não pode ser adiada, na suposição ilusória de que poderá ser resolvidas após a conquista do socialismo. Ao contrário, devem desde já fazer parte da luta contra a dominação capitalista, e a resistência a estes preconceitos faz parte de um programa de toda a sociedade, assumido por todos – homens, mulheres, negros, brancos e demais oprimidos – que lutam por uma sociedade superior.

É uma luta que, unindo a resistência contra o domínio de classe, de raça, gênero ou qualquer outro, que precisa fazer parte desde já de qualquer programa socialista.

*Jornalista e escritor.