Ângelo Andrade Cirino: Radicalizar para ampliar

A inversão da palavra de ordem ampliar para radicalizar, transformada em radicalizar para ampliar, é a resposta política exigida do Partido neste momento. Radicalizar no sentido de que radical é quem vai à raiz do problema. Radicalizar o discurso e a ação com a responsabilidade e a qualidade de nossa análise política permitirá ao Partido crescer no momento em que ele é mais exigido na história recente.

Por Ângelo Andrade Cirino*

O Brasil é um país de extremos mas, contraditoriamente, criou uma cultura política conciliatória. Até hoje os grandes conflitos nacionais foram resolvidos com a conciliação de classes, com soluções de compromisso, sem rompimento com o passado. A abolição não emancipou os negros. A República não rompeu com o latifúndio. A Revolução de 30 não fez a reforma agrária. O PT não rompeu com os obstáculos do atrasado, anacrônico e autoritário estado brasileiro.

Neste quadro de país de extremos, é questionável se em toda a sua história republicana o Brasil teve de fato um pensamento político ao centro capaz de algum protagonismo. Se observarmos a social democracia clássica europeia, entre a direita, liberal ou fascista, e a esquerda, comunista ou sectária, ela se situou no espectro do centro, aliada a setores classificados como economicamente liberais e politicamente democráticos. No Brasil, a social democracia clássica surge tardiamente, com o PT, mas com peculiaridades locais, ao permitir que se agrupem em torno dele tendências da esquerda sectária. Mas mesmo a social democracia europeia fracassou, e seus fracassos são derrotas históricas para a democracia. O nazismo nasce do fracasso da social democracia alemã. Parte da social democracia francesa colaborou com o invasor nazista. E, hoje, a social democracia adotou o neoliberalismo como doutrina econômica. No Brasil temos o desastre do golpe de 2016 como resultado dos erros da social democracia do PT.

Por tudo isso, Frente Ampla sem protagonismo do PCdoB é ilusão. A frase dialeticamente correta “ampliar para radicalizar” é altamente questionável no momento. Agrava a situação o fato de que o PT, como principal força política no campo popular-democrático, não acredita na frente ampla ou a confunde com frente eleitoral. Veja-se a declaração de Dilma à agência Sputnik, em entrevista publicada em 06/10: “Primeiro eu te respondo assim: eu só conheço dois lugares no mundo onde tem uma ampla coalizão de esquerda. Um é Portugal, e o segundo é Uruguai. Não conheço uma coalizão de esquerda na França, não conheço na Itália, não conheço na Alemanha, muito menos nos EUA, e quase em nenhum país da América Latina. E este é o problema sério da esquerda brasileira. Agora, eu queria te destacar uma coisa: pode não ter no primeiro turno, mas tem no segundo”. Além disso, a direção nacional e os parlamentares do PT se preocupam mais em salvar a própria pele do que em assumir qualquer protagonismo político.

A Frente Ampla como solução da crise não pode ser firmada exclusivamente com finalidade eleitoral, ela tem que ter programa. A unidade da Frente tem que ser programática, não eleitoral. A simples unidade eleitoral, em primeiro ou segundo turno, não importa, fica ao sabor das forças relativas e dos oportunismos políticos. Mas, mesmo em países com frente ampla, caso da Venezuela com a liderança do Partido Socialista Unido, do Uruguai da Frente Ampla, as dificuldades são imensas. A Venezuela praticamente conflagrada e sob ameaça de invasão militar. O Uruguai sofre com o cerco do capital financeiro e com a extraterritorialidade das leis dos EUA.

Tendo em vista que as elites brasileiras não toleram sequer concessões mínimas, reagindo com golpes como os de 1964 e de 2016, cabe a pergunta: não é mais justo radicalizar para ampliar? Novamente, radical é quem vai à raiz do problema. O núcleo do poder no Brasil não está em Brasília, mas na Avenida Paulista, no Jardim Botânico no Rio e no STF. São esses núcleos que precisamos golpear, o resto não passa de agentes desses três núcleos.

Mas, para golpear esses dois núcleos a ação política é radical, é de enfrentamento, é de negação de qualquer  possibilidade de conciliação de classes, de soluções de compromisso. Golpear esses três núcleos é romper com o passado. Se a história nos diz alguma coisa é para aprendermos com nossos erros, o passado ou uma pretensa tradição política brasileira não nos obriga a repetir nossos erros. Se no passado o Brasil somente teve soluções conciliatórias não somos obrigados a repetir esse padrão agora.

Assim, o que o Partido e o Brasil precisam agora e com urgência é radicalizar para ampliar. Radicalizar, ousar com a responsabilidade, a segurança e a serenidade típicas dos comunistas. Com a radicalização do discurso e da ação política atrairemos os setores indecisos e vacilantes, em especial os que agora sabem que foram enganados pela mobilização golpista e também os que não se sentem representados pelo pensamento social democrata. Conquistaremos o povo que mais sofre com a crise econômica e com a retirada de direitos e das políticas sociais. Com a radicalização temos a oportunidade de apresentar nosso programa socialista e apresentamos o rumo que o Brasil precisa tomar para superar as crises e promover o desenvolvimento.

Como exemplo do potencial aglutinador do discurso e da ação radicais, analisemos um dos movimentos da reação sendo executados agora.Sabemos que várias ações da direita são diversionistas, como os ataques à liberdade de expressão e às artes. Mas, mesmo sabendo desse caráter diversionista, a nossa ação ao lado dos democratas e defensores da liberdade de expressão, com ampla participação de nossa militância e grande exposição de nossos símbolos ao lado da luta contra o obscurantismo, pode ser o sinal que personalidades influentes e importantes precisam para reconhecer no Partido sua liderança. Para que os diversos setores da luta social e política reconheçam a liderança e o protagonismo do Partido, temos que agir de modo que eles reconheçam em nós a força política que os representa. Protagonismo não é dádiva, é conquista.

A radicalização consciente, não sectária e responsável, pode levar ao protagonismo do Partido na luta política. Para o país mais desigual do mundo, um país de extremos, não mais soluções conciliatórias, mas soluções que vão à raiz de nossos problemas e os superam com coragem e determinação, sem medo do futuro e sem repetir o passado.

*Ângelo Andrade Cirino é gestor de projetos de inovação tecnológica, físico, militante do PCdoB-MG.