A necessária autocrítica

Após a sofrida vitória no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, Lula sugeriu a Dilma que escalasse Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda, enquanto ela preferiu Joaquim Levy. Recentemente, Lula sugeriu que a nomeação de Meirelles naquele momento poderia ter evitado o Golpe. Não só isto, Lula derramou elogios a Meirelles, mesmo diante dos nefastos efeitos que suas políticas estão produzindo sobre a economia nacional e os trabalhadores. O banqueiro estaria sem rumo, segundo Lula – que não enxerga ou finge não enxergar que na verdade o banqueiro é o próprio rumo da política econômica em curso e que Levy ou Meirelles representam exatamente os mesmos interesses. Ou seja, o PT não faz autocrítica em relação à política econômica conservadora e às cedências ao capital financeiro que se observaram do início ao fim dos seus governos, com algumas exceções, como a corajosa decisão de baixar fortemente os juros no primeiro mandato de Dilma.

Por André Queiroz*

O PT tentou repetir em 2014 o que se fez em 2002 com a Carta ao Povo Brasileiro, sinalizar que seriam mantidos e até elevados os vultosos lucros do capital financeiro. Mas 2014 era muito diferente de 2002, quando se iniciava um ciclo de crescimento baseado na elevação do preço dos commodities, puxado pela locomotiva chinesa. Era um cenário em que se podia distribuir ganhos a todos os setores (trabalhadores, burguesia produtiva e burguesia financeira) sem grandes enfrentamentos. Num contexto de agravamento dos efeitos da crise internacional sobre os países emergentes e de baixa no preço internacional dos commodities, colocar banqueiros no primeiro escalão do Governo, adotando políticas de ajuste fiscal, não contribui em absolutamente nada para romper o cerco ao programa popular. Pelo contrário. Ao precisar justificar restrições de acesso a benefícios em meio à elevação de preços de combustíveis, enquanto eram mantidos elevados os juros que remuneravam credores parasitas e praticamente nenhuma fatura era cobrada das camadas mais abastadas da sociedade, o PT dispersou a sua base social, reunida a duras penas para garantir a vitória de um programa que era o oposto daquele que aplicado por Levy.

Assim como o ajuste comandado pelo executivo do Bradesco serviu apenas ao isolamento da esquerda mais consequente e à concretização do Golpe, esta recusa do PT em fazer autocrítica quanto à cedência que predominou nos governos Lula e Dilma opera contra a constituição da Frente Ampla. Por exemplo, Ciro Gomes já apontou claramente que um dos motivos de nem sequer cogitar ser vice numa chapa do PT é a perspectiva de manutenção das estruturas neoliberais herdadas de Fernando Henrique Cardoso.

Mas também é preciso que o PCdoB faça uma autocrítica quanto a isto.

No parágrafo 82 da tese, afirma-se que o Partido “publicamente, alertou, criticou, divergiu do governo sempre que julgou que políticas governamentais haviam entrado em conflito com o programa da coalizão, com os compromissos assumidos pelo governo com a Nação e os trabalhadores”. Também desataca-se que foi “persistente” a “oposição à manutenção do chamado tripé macroeconômico ortodoxo, em particular a política de juros altos e de câmbio flutuante valorizado”.

Sugiro uma ressalva a ser acrescentada ao final deste parágrafo, ou em um novo parágrafo logo após, com a seguinte redação:

No entanto, é preciso reconhecer que, entre o final de 2014 e início de 2015, nas duras condições de intensa polarização política e avanço de forças conservadoras sobre o Congresso, o Partido não anteviu as gravíssimas consequências que adviriam da escolha de um representante do rentismo para o Ministério da Fazenda e da implementação de uma equivocada política de ajuste fiscal, contrária ao programa que acabara de sair vitorioso nas urnas. A nomeação de Joaquim Levy em 2014 foi uma tentativa de repetir os efeitos táticos da Carta ao Povo Brasileiro em 2002, buscando reduzir os ataques advindos do capital financeiro ao sinalizar que ele seguiria tendo ganhos elevados. Não se tratava de equilibrar as contas do Estado, como alegado, pois todo o esforço fiscal foi direcionado a garantir a remuneração dos credores da Dívida Pública a juros exorbitantes. Mas sequer o aspecto tático se justificava, pois o agravamento dos efeitos da crise internacional sobre o país e a queda no preço dos commodities não permitiriam manter a distribuição de ganhos para todos: trabalhadores, setores produtivos da burguesia e capital financeiro. A opção por atender a interesses do capital financeiro implicava necessariamente em perdas para a produção e o trabalho, ainda que se buscasse tornar essas perdas as menores possíveis. As críticas do Partido ao Governo Dilma nesse momento foram bastante tímidas. Atendemos a um chamado da Presidenta para que lhe déssemos um “voto de confiança”, quando o que se fazia realmente necessário era um forte “puxão de orelha”. Ganhou força entre nossas fileiras a tese de que ceder no campo econômico era até mesmo necessário, para abrir caminho ao avanço em outros campos, como no da Reforma Política. Mas o que resultou daí foi a desmobilização das bases sociais que reelegeram Dilma, agravando o isolamento do campo democrático e de esquerda e amadurecendo as condições para o Golpe de Estado.

*Membro do Comitê Municipal e da Organização de Base dos Bancários do PCdoB em Uberlândia-MG