Sobre protagonismos e centralidade

Não passemos vergonha sem necessidade. Há uma linha de raciocínio honestamente muito preocupada com as supostas tendências fragmentárias (completaria: fracionistas) que os chamados movimentos e pautas de caráter identitário representam para o conjunto da luta pela transformação política e emancipação social.

Por Alex Santos Saratt*

Verdade seja dita e reconhecida, alguns dos movimentos nasceram de concepções denominadas pós-modernas, algumas vezes críticas ou adversárias (e mesmo inimigas) do marxismo, da luta de classes, da revolução e do socialismo. É natural que na pluralidade do meio social surjam idéias diversas. É também previsível que algumas delas se desenvolvam politicamente e expressem pontos de vista, modos de ação e perspectivas distintas.

Na realidade, há legitimidade inconteste para que grupos quaisquer que sejam se ocupem de suas questões e as coloquem em primeiro plano. A isso denominamos “protagonismo”. A questão passa, entretanto, por outros caminhos e desafios: o de unir, amalgamar, sintetizar as reivindicações evidentemente democráticas, humanitárias e civilizatórias àquilo que o marxismo corretamente estabelece como central na sua teoria revolucionária, a emancipação do proletariado como obra dos próprios trabalhadores, atacando a contradição fundamental do modo de produção e do sistema de domínio e poder capitalistas.

Aliás, confundir contradições existentes entre as pautas específicas e identitárias e as tarefas políticas da classe trabalhadora é criar animosidade e antagonismo pouco útil e inteligente. Os comunistas sempre contaram em suas fileiras com mulheres bravias e combativas, de grande contribuição teórica; sempre consideraram as juventudes como uma parcela estratégica da população e da luta geral; distinguiram e estabeleceram com precisão conceitual as relações de exploração, dominação e opressão do capitalismo com o racismo, ajudando na luta emacipatória dos povos.

Somos nós, os comunistas, forjados na ciência e na ideologia que bebeu “nas três partes e três fontes constitutivas”: histórica e dialeticamente incorporamos e ressignificamos diversas expressões avançadas ou progressistas. Impossível não reconhecer a energia social, a força política, a justeza e necessidades das demandas identitárias e deixar de propor-lhes uma fusão, ou melhor, uma síntese, com a centralidade da luta de classes e a liderança compartilhada do proletariado no processo mais profundo, radical e consequente de emancipação geral da sociedade. Combinar protagonismos e centralidade, não como um ornitorrinco político, mas como fruto de uma aliança carnal e espiritual pela liberdade, eis meu modo de compreender a questão.”

*Dirigente municipal do PCdoB em Taquara/RS