Mobilização política do povo, força motriz das transformações sociais2

A linha aplicada por nossas entidades, em minha opinião, não prioriza alcançar amplas massas e mobilizá-las, mas principalmente ocupar espaços. Não quero subestimar a importância de ocupar espaços: ganhar e manter entidades, por exemplo. Entretanto, o objetivo principal das entidades de massa é se tornar representante das mesmas e mobilizá-las para a luta. Não que há uma contradição obrigatória entre os dois objetivos, entretanto é preciso que esteja claro qual o alvo principal.

Por Marcos Casteli Panzera*

Vamos exemplificar: A UBM é uma entidade de massa? A UJS, considerada a maior entidade de juventude do país tem uma base sólida de massas nos Estados? A CONAM cumpre o papel de entidade de massa? A UBES, a própria UNE – dirigimos um grande número de entidades de base dos estudantes, mas há nos Estados e municípios uma base sólida de massas? Penso que não. E por que?

Como vamos influenciar o povo e aumentar nossa base eleitoral se os principais instrumentos que contamos não cumprem o papel de construir nossa influência?

De longe subestimar o papel de nossa brava e aguerrida militância que atua nas mais diferentes entidades a maioria das vezes desenvolvendo seu trabalho sem as mínimas condições materiais.

A questão a ser analisada é qual a orientação dada a esses camaradas. É apenas de garantir a hegemonia ganhando entidades e congressos ou há a preocupação de orientá-los para buscar os caminhos da mobilização de suas categorias? Vejo, por exemplo, camaradas envolvidos de corpo e alma no esforço de tirar delegados para o CONEG da UNE, da UBES, organizando às pressas congressos municipais, grêmios tudo visando ter o maior número de delegados, o que considero positivo. Entretanto não há o mesmo esforço para mobilizar os estudantes para a luta. Assisto em meu Estado, estudantes das mais variadas escolas pararem suas atividades espontaneamente em razão de problemas diversos em suas escolas e nossa militância por fora por que o seu tempo está voltado para outras agendas nacionais. Não deveria ser o inverso. Nossa militância desenvolvendo a luta dos estudantes e com base nela criar base nas escolas, de tal forma que quando ocorresse um congresso as condições para tirar delegados já estivessem postas? E de onde vem o erro? Em minha opinião vem da orientação que é dada.

No movimento de mulheres a mesma coisa: É inegável a contribuição dada pela UBM na luta pela emancipação. Mas também é inegável que não há a preocupação de atingir os milhões de mulheres com campanhas de massa que tornem a entidade em efetiva representante das mulheres brasileiras. Em consequência o número de militantes dessa frente não se amplia tornando-a uma entidade sem representatividade. E quando chega eleição é a maior dificuldade para se encontrar camaradas que queiram se candidatar já que a entidade não forma novas militantes.

Esse problema perpassa por todo nosso trabalho de massas. A preocupação maior é construir o movimento por cima, mas se subestima o trabalho por baixo, com o povo, com os milhões de trabalhadores, jovens, mulheres, etc.

No movimento de bairros então, onde se concentra a maioria da população, nosso trabalho está praticamente abandonado.

Penso não ser suficiente atuar no movimento social organizado. Os brasileiros tem baixo nível de associatividade. O índice de trabalhadores sindicalizados, por exemplo, está em torno de 18%. A grande maioria do povo está fora do chamado movimento social. Como alcança-lo em nosso trabalho político?

Daí advém também a dificuldade de se construir Organizações de Base no Partido. Subestimação do trabalho de base leva à dificuldade de criar OBs. É a mesma concepção que se apresenta no trabalho de construção partidária. As bases do Partido só existem quando há eleições ou Congressos e Conferência para se tirar delegados e correr atrás de voto sem ter construído base de massa ou reduto eleitoral.

O que quero concluir, que vai se formando uma concepção no Partido que subestima o trabalho de massas, o trabalho de base. O problema não é questionar a relação entre a frente institucional e o movimento social, mas como estamos orientando nossa atuação no movimento de massas para envolver maiores contingentes da população na atividade política.

As explicações e justificativas são variadas. Mas as consequências são sérias. E sem trabalho de massa e de base é muito difícil organizar bases partidárias. O Partido deixa de ter raízes. A luta de massas é que dá vida à organização de base e a todo o Partido. Sem ela não se renova a militância e se fortalece o caráter comunista do Partido e das entidades que dirige.

É preciso rever a linha aplicada em nossas frentes de massa. Fazer um balanço crítico e autocrítico para tornar nossos instrumentos em agentes de mobilização do povo na perspectiva de elevar sua consciência para podermos avançar no processo de luta, superar esse momento de retrocesso e retomar a luta por um novo projeto nacional de desenvolvimento.

*Membro da Comissão Política do Comitê Estadual do PCdoB/Pará, 50 anos de militância.